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Internet mostra mães e bebês ‘editados’, e não vida real, aponta o pediatra Daniel Becker

Para ajudar os pais a navegarem em um mar de desinformação, o médico e a jornalista Rita Lisauskas lançam um guia sobre os primeiros mil dias de vida da criança, fase decisiva para o seu pleno desenvolvimento

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Foto do autor Andressa Lima
Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

Gerando resumo

Foto: Divulgação/Editora Planeta
Entrevista comDaniel BeckerPediatra, escritor, palestrante e ativista pela infância

Um dos períodos mais determinantes para o desenvolvimento humano começa na concepção e vai até o segundo ano de vida, um intervalo que soma mil dias. É nesse período que se formam bases importantes para a saúde física, emocional e cognitiva até a velhice.

O tema é explorado no livro "Os 1000 dias do bebê" (Editora Planeta), do pediatra Daniel Becker e da jornalista Rita Lisauskas. Ao longo das mais de 600 páginas da obra, os autores guiam pais e cuidadores por temas como amamentação, introdução alimentar, sono, desenvolvimento infantil e outros.

Ao Estadão, Becker explica por que o período é tão decisivo, comenta mitos sobre criação de filhos e discute desafios da infância em um mundo dominado por telas. Confira a conversa a seguir.

Após anos de prática profissional, o que você percebeu que mais faltava na literatura sobre gestação e primeiros anos do bebê e te motivou a escrever esse livro?

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Falta de referências em muitos sentidos. (Antes), a “sabedoria” de criar filhos era passada entre mulheres de diferentes gerações. Infelizmente, ainda mais naquela época, era menor ainda a participação do homem. (Hoje) os homens continuam não se metendo, e a cadeia de transmissão se desfez. A referência passou a ser a pior possível: as redes sociais.

As pessoas se informam por vídeos curtos e influenciadores que estão ali para ganhar dinheiro. Há muita informação vendável, soluções mágicas. Já vi até suplemento para birra, sorinhos para imunidade, infusão para alto QI, protocolo superbebê… são coisas monstruosas.

Então, esse livro traz uma referência firme, consistente, com uma boa linguagem, uma direção sem rigidez (com base naquilo) que a ciência e a experiência mostram como sendo mais benéfico.

O livro fala dos 1000 dias como uma janela de oportunidades única. Qual fator mais influencia na saúde e no desenvolvimento dos bebês nesse período?

O desenvolvimento é explosivo nesse período: são um milhão de sinapses por segundo que se formam nesse cérebro. E essas vias neuronais são a base do desenvolvimento, elas definem muito bem o que vai acontecer com essa criança. Se tem experiências positivas, conexão intensa, afetiva e amorosa com seus pais, se tem colo, aconchego, isso tudo vai se estruturar nesse organismo, trazendo enormes benefícios. Não só as necessidades de segurança, aquecimento, saciedade da fome e nutrição física, mas nutrição emocional e de estímulo.

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(Já) permissividade, má alimentação, uso de ultraprocessados e açúcar, tudo isso vai definir nocividades que vão se prolongar para a vida toda da criança. Não é que nada seja irreversível, claro que não. A gente não quer criar uma coisa catastrofista, “se você não estimulou a criança nesses anos, ela vai estar perdida”. Não. Mas ela vai perder, sim, muita coisa.

Vocês falam na intenção do livro não ser um manual, mas um guia. Qual seria a melhor forma de leitura: por fases ou com antecipação?

É importante que se leia pelo menos uma parte com alguma antecipação, para que estejam preparados para o que vem.

Se a pessoa está totalmente desinformada (e) uma criança de 1 ano e meio começa a se jogar no chão, começa a bater no pai e na mãe quando contrariada, e a pessoa não leu o que é autonomia, o que é birra, ela vai o quê? Vai devolver um tapa na cara? É a pior coisa que você pode fazer: castigar uma criança que está tendo uma birra. É parte do desenvolvimento e precisa ser trabalhada de forma acolhedora e cientificamente embasada para que essa criança se torne mais inteligente emocionalmente.

Então, o livro tem esses dois lados, tanto de conversa com o leitor, quanto de referência no momento que o pai precisa.

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Os 1000 dias de vida envolvem desde o momento da concepção até o segundo aniversário da criança Foto: Andrii Yalanskyi/Adobe Stock

Considerando que a parentalidade é cercada de orientações e regras sobre criação de filhos, como os pais podem desenvolver confiança?

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O algoritmo adora comparar com blogueiras e seus filhos lindos, (mas) são vidas editadas e bebês editados. A internet não mostra pessoas humanas.

O livro traz uma referência firme, consistente, que evita que a pessoa mergulhe excessivamente nesse conteúdo de telas, (que é um) conteúdo de fragmentação. E tem uma capacidade de acalmar e dar mais segurança justamente para pais que estão nessa confusão.

Quais seriam as transformações mais importantes na dinâmica familiar após a chegada de um bebê? E como fazer ajustes para que essas mudanças sejam gerenciadas em prol de um melhor aproveitamento da janela dos 1000 dias?

Quando uma criança chega ao mundo, a gente tem que estar minimamente preparado. Isso vai variar, obviamente, de acordo com classe social, local de moradia e condições de vida. Uma mulher que está na escala 6x1 e tem que voltar ao trabalho com quatro meses (está em) condições de altíssima vulnerabilidade. Ela precisa de uma rede de apoio; se não tiver, ela vai sofrer muito, esse bebê vai sofrer. Cuidar de bebês, hoje, também é cuidar das mães, isso é fundamental.

Aí tem que ter política pública, educação parental, gente que apoie essa mãe para ela saber, por exemplo, a importância da alimentação, do estímulo, da brincadeira, do sorriso, da conversa, da leitura, a importância de não bater, tudo isso. O Brasil tem excelentes políticas públicas para a primeira infância e, quanto mais a gente investe nelas, melhor fica a situação, especialmente dessa população.

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Quando você está em uma situação de mais privilégio e pode planejar, é importantíssimo tentar olhar para o seu tempo e ver o que vai fazer com ele: “Vou poder estar com o meu filho?”, “vou ter a minha rede de apoio para dar palpite ou vão lá para me dar um tempo para tomar um banho, para tirar uma soneca de meia hora?”

Coisas importantíssimas que exigem planejamento, conversas na família, porque, nesse período, o tempo com o bebê deve ser de qualidade. Tudo tem que ser vivido um pouco em torno desse bebê.

Cuidar de bebês, hoje, também é cuidar das mães

Daniel Becker, pediatra

Na contramão da exterogestação – que vê os primeiros meses de vida como uma espécie de continuação da gestação –, é comum que os pais sejam corrigidos quando dão colo, sob a justificativa de que isso prejudicar o desenvolvimento e autonomia dos bebês. Como essas ideias se relacionam? Há um certo e errado aqui?

Aqui há claramente um certo e errado, não há a menor dúvida. A ciência mostra que o bebê pequeno tem que ter todas as suas necessidades acolhidas. Ele não está desejando um colo, ele precisa do colo. Ele não está desejando uma chupetinha quando ele quer o peito, ele está precisando mamar, seja porque está com fome ou precisando ser nutrido emocionalmente. Nesses primeiros dois, três meses, é fundamental que isso esteja à disposição do bebê.

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Claro que a mãe tem o seu limite, não há ninguém que duvida disso. Mas começou com um palpite de “está dando colo demais”, “dá logo a chupeta que ele vai calar a boca”, “eu te dei mamadeira e você sobreviveu”, esse tipo de palpite é extremamente tóxico. Se uma avó está assim, é hora de sentar e conversar claramente. Especialmente se vai interferir nessa relação da mãe com o bebê nos primeiros meses de vida, e do pai também.

Quais seriam os equívocos e crenças mais comuns, da gravidez aos primeiros cuidados com os bebês, que você julga importante desmistificar?

Em termos dos equívocos, que a cesárea é mais segura. Isso é uma balela, uma coisa vendida pela cultura da cesárea, que é muito prevalente no Brasil. Na Europa, por exemplo, quem vai fazer o parto não é quem acompanha a gravidez, é quem está de plantão na maternidade. Aqui tem que ser o obstetra dela, que aí vai marcar a cesárea porque não vai interromper o consultório para ficar 10 horas esperando um parto acontecer.

A amamentação é absolutamente fundamental. E aí tem a interferência da indústria, que faz muita propaganda – apesar de ser proibida, ela consegue chegar nas mães, muitas vezes através do pediatra, que tem uma certa permissividade com a fórmula. Sai da maternidade com uma mamadeirinha prescrita, quando deveria ser: “Se você precisar, procure uma consultora de amamentação”.

Que a birra é um mau comportamento, por exemplo, que não tem problema dar doce pra criança, que suco é bom pra criança… tudo isso vem caindo por terra nos últimos anos.

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A parentalidade vem mudando muito, então é importantíssimo a gente definir aquilo que é certo e errado de forma mais assertiva, quando se trata de mitos nocivos, e também dar opções quando se trata de situações onde há realmente diferentes opções.

Como os pais podem lidar com informações divergentes vindas de diferentes pediatras?

Se você tem dois pediatras falando duas coisas diferentes, talvez (o caminho seja) perguntar uma terceira opinião. Ou escolher aquele que você confia mais, que te parece mais sensato, que está falando de acordo com a ciência.

Se um pediatra está te falando “não dê vacina”, ele está completamente fora da ciência. Você pode fazer checagem pessoal e tentar escolher o pediatra que realmente seja bem formado, que tenha uma residência, que esteja afiliado à Sociedade (Brasileira de Pediatria), que seja professor. Tudo isso são critérios para você decidir.

Muitos pais recorrem hoje à ideia de “saltos de desenvolvimento” para explicar mudanças nos bebês. O quanto esse conceito tem respaldo científico?

Essa coisa de salto de desenvolvimento é um mito. Não tem base científica nenhuma. Isso foi criado por um médico, depois foi visto que isso não tinha nenhuma base realmente na realidade, mas é ótimo para vender aplicativos. Aí fica aquele pai, aquela mãe, dizendo “meu Deus, minha filha não teve ainda o salto de desenvolvimento da sexta semana, ela está atrasada. O que vai ser de mim? O que vai ser dela? Ela deve ser isso ou aquilo.” Bobagem, né?

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A gente tem que trabalhar de forma a fortalecer a segurança e a intuição dos pais. A intenção é sempre trazer informação coerente, consistente, segura, científica, para que esses pais possam, a partir dela, desenvolver a sua própria forma de cuidar e criar um filho, de estimular o seu desenvolvimento. Então, vamos ficar com aquilo que é científico, aquilo que é real.

A infância hoje se desenrola em um contexto bem diferente na comparação com algumas décadas atrás, com mais telas e menos contato com a natureza. Quais seriam os impactos no desenvolvimento das crianças?

A gente tem uma população de adultos saindo menos e passando tempo demais nas telas. Estamos todos muito afetados pelo algoritmo, onde um cientista passa a ter o mesmo valor de um blogueiro. Uma afirmação com base em milhares de estudos feitos por dezenas de entidades sérias são derrubadas por um sujeito que diz “na minha experiência, isso, aquilo, a vacina mata”. Isso é muito irritante para quem trabalha com informação em saúde e científica, inclusive, com cuidados infantis e parentalidade.

O vício em telas tem esse segundo efeito, que é arrancar as pessoas do contato com o ar livre, especialmente as crianças. A ideia de colocar um celularzinho, um tabletzinho na mão de uma criança de menos de 2 anos é quase absurda. A partir do que a gente sabe, isso prejudica o desenvolvimento flagrantemente. É preciso alertar os pais para isso.

Não é que você não possa ver televisão, ver o jogo ou um capítulo da novela, não é isso. Mas você entreter a criança com o tablet é terrivelmente prejudicial para o desenvolvimento.

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Da mesma forma que é terrivelmente prejudicial uma criança confinada em casa. O ambiente externo tem inúmeros benefícios. A criança que vai atrás da formiguinha, vai vê-la subindo, é uma cientista tentando entender o mundo ali. A natureza tem uma infinidade de formas, cores e estímulos sensoriais, que nada dentro de casa pode se equiparar.

É importante frisar a importância das experiências. Como o cérebro está captando tudo, vai se desenvolver de forma explosiva. Quanto mais estímulos positivos – que são vínculo, conexão, interação com outras pessoas, especialmente os cuidadores, contato com a natureza, leitura, boa alimentação –, melhores vão ser os reflexos disso para o futuro.

A gente tem que trabalhar de forma a fortalecer a segurança e a intuição dos pais

Daniel Becker, pediatra

Se você tivesse que destacar atitudes que mais fazem diferença nos primeiros 1000 dias de vida de uma criança, quais seriam?

São muitas atitudes que podem fazer a diferença, mas talvez a principal seja a presença. A conexão profunda e intensa que passa pelo olhar, colo, peito, abraço, consolo. Essa presença afetuosa vai quase que intuitivamente desembocar em conversas, em sorrisos... É o que há de mais importante para um bebê.

A segunda poderia ser o contato com a natureza, poderia ser a amamentação, poderia ser a absoluta prioridade de uma educação não violenta também. Talvez essa seja a melhor para se lembrar.

A não violência na educação é crucial para esse bebê se desenvolver bem também porque a violência é o pior fator de risco para adoecimentos físicos. Doença crônica, mental, (uso de) drogas, perda de emprego, conflitos com a lei: tudo isso acontece mais com pessoas que sofreram violência na infância, de qualquer espécie.

O que você diria para tranquilizar quem está começando essa jornada de cuidar de um filho?

Primeiro: é difícil dar errado, realmente. (Se tiver) negligência, abandono, não olhar para o seu filho, não cuidar dele, deixar ele chorando, bater e coisas desse tipo, aí vai certamente dar errado. Se você fizer o seu melhor, você vai ter um filho que vai dar certo.

Outra coisa é que não se pode responsabilizar uma pessoa, sobretudo apontar o dedo para uma mãe, porque algo dá errado com o filho. Ninguém é responsável pela felicidade absoluta e pela personalidade de um ser humano.

São tantos os fatores que são influentes e vão incidir nessa formação: a presença de outros cuidadores, experiências sociais com os amigos, experiências culturais, alimentação, as pessoas que ele cruzar no futuro, a faculdade, a adolescência. É claro que a gente tem que avaliar como essa criança foi cuidada na infância, mas sem apontar dedos e sendo muito cuidadoso nessa investigação.

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