Agentes da GCM agridem usuários na Cracolândia
Prefeitura de SP determinou apuração dos fatos e o afastamento preventivo dos envolvidos.
Imagens de câmeras de segurança mostram agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) cometendo agressões na região da Cracolândia, no centro de São Paulo, onde costumam circular usuários de drogas. Os registros foram feitos após o esvaziamento do local onde havia o maior concentração de dependentes químicos, na Rua dos Protestantes.
A Secretaria Municipal de Segurança Urbana afirma ter determinado “a imediata apuração dos fatos pela Corregedoria da corporação e o afastamento preventivo dos envolvidos identificados”.

A Prefeitura afirma ainda que a “Guarda Civil Metropolitana presta serviço essencial para a proteção de toda a população e o combate à criminalidade em parceria com as polícias civil e militar”.
A maior concentração de usuários do chamado “fluxo” da Cracolândia, na esquina das ruas Gusmões e Protestantes, se esvaziou desde sábado, 10. Na segunda-feira, o local estava vazio. Moradores estimaram que cerca de 200 dependentes químicos se aglomeravam na região.
As imagens de agressão pelos GCMs foram gravadas por câmeras de estabelecimentos da região e obtidas pelo Estadão. No dia 11 de maio, às 14h15, dois homens são abordados por três guardas-civis na Rua dos Andradas.
Um deles segura o usuário pelo pescoço e chuta suas pernas. Em outro momento, um segundo guarda-civil segura a vítima, enquanto o primeiro dá socos em seu rosto.
Na segunda-feira, 12, câmeras da Rua Mauá mostram agentes da GCM agredindo um grupo de usuários, por volta das 22 horas. Os agentes se aproximam do grupo e agridem as vítimas com o uso de cassetetes. Os agentes são acompanhados por duas viaturas.
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Em entrevista exclusiva ao Estadão, o vice-governador Felício Ramuth (PSD), responsável pelas ações estaduais na região, afirmou que a maioria dos usuários está internada nos hospitais – nos cálculos do governo, são cerca de 1,2 mil.
Moradores de bairros como Santa Cecília e Campos Eliseos relataram a migração dos usuários para as imediações da Praça Marechal Deodoro e do Minhocão, o Elevado Costa e Silva. Ramuth nega o espalhamento dos usuários e afirma que essas áreas já concentravam pessoas em situação de rua.
Ativistas afirmam que usuários foram ameaçados de morte
Relatos colhidos por ativistas e organizações que atuam na Cracolândia também citam violência das abordagens de agentes de segurança nas últimas semanas.
“Os usuários dizem que os policiais mostram fotos de pessoas do fluxo que sumiram e dizem que o mesmo pode acontecer com eles”, diz o psiquiatra Flávio Falcone, que atua há mais de dez anos na Cracolândia com o programa Teto, Trampo e Tratamento.
“Na semana passada eu tomei uma abordagem. Parecia que eu tinha assaltado alguma coisa, me fizeram sentar em cima da mão e eu não sentei, e aí houve a truculência, os caras vieram, me bateram para caramba”, conta um homem em um dos relatos.
Em outro relato, uma mulher fala que agentes da GCM e Polícia Militar determinaram a saída dos usuários das calçadas de forma violenta.
“Eles não sabem chegar e conversar com nós, eles vão além do limite. Pedir para sair que não pode ficar, tudo bem, mas já chegam agredindo os usuários, como se fosse lixo”, diz uma mulher em vídeo obtido pelo Estadão.
Ramuth nega abordagens violentas. “A Prefeitura e o governo do Estado vão agir para inibir mau uso da força, mas não é a informação que temos”, afirma.
Ainda segundo o vice-governador, é cedo para decretar o fim da Cracolândia. “Só podemos falar que a Cracolândia acabou dentro de seis meses. Antes disso não podemos cometer os erros de administrações anteriores“, disse Ramuth.
Em 2017, o então prefeito João Doria afirmou que a principal concentração de usuários havia acabado após megaoperação policial no centro.
