Cresce a busca por tratamento de compulsão sexual no Hospital das Clínicas da USP; conheça os sinais

O transtorno favorece comportamentos de risco e traz sofrimento no dia a dia; primeiros indícios podem surgir ainda na adolescência

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Por Renan Honorato
Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

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Em 2018, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu oficialmente o transtorno de comportamento sexual compulsivo (ou TCSC) na Classificação Internacional de Doenças (CID). De 2020 para cá, o quadro tem levado cada vez mais gente a buscar tratamento no Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), em São Paulo.

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Somente entre 2023 e 2024, último ano fechado com dados disponíveis, houve um aumento de 58% no número de pessoas atendidas no Ambulatório de Impulso Sexual Excessivo e Prevenção dos Desfechos Negativos Associados ao Comportamento Sexual (AISEP), vinculado ao IPq. Neste ano, de janeiro até setembro, o número de pacientes ativos (68) já supera o registrado em todo o ano passado (57).

Embora pareça existir um maior reconhecimento do problema, ainda há muito a avançar nesse sentido. Um levantamento global publicado em 2023 no Journal of Behavioral Addictions estimou que quase 8% da população brasileira apresenta sintomas de compulsão sexual.

Em pesquisas conduzidas pela psiquiatra Carmita Abdo, uma das pioneiras nos estudos sobre transtorno de comportamento sexual compulsivo no País, 6,5% dos brasileiros e 2,1% das brasileiras disseram reconhecer algum comportamento compulsivo relacionado ao sexo. Porém, ela pondera que esses dados são baseados na percepção dos participantes sobre si mesmos, e não em diagnósticos médicos.

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O transtorno de comportamento sexual compulsivo prejudica o dia a dia e traz sofrimento ao indivíduo Foto: terovesalainen/Adobe Stock

Buscar apoio é apenas o primeiro passo

Dados do HC indicam que, mesmo quando o problema é reconhecido, muitos pacientes interrompem o tratamento – de 250 indivíduos que passaram pelo AISEP, 123 desistiram de continuar. “Existe um ciclo na compulsão. Nas fases em que as pessoas estão piores é quando elas buscam mais ajuda”, explica o psiquiatra Lucas Naufal Macedo, coordenador e pesquisador do ambulatório.

Segundo ele, a espera para o início do atendimento e o estigma em torno da sexualidade também influenciam a evasão. “Na prática, muitos pacientes têm preconceito em falar sobre sexo. Alguns simplesmente deixam de ir, sem justificativa. Outros esperam uma solução imediata e se frustram”, descreve.

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Para Carmita, que é coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do HC, o uso de medicação é outro fator capaz de justificar esse movimento de desistência. “O que acontece com boa parte desses pacientes é que, a partir do momento em que a medicação os ajuda, eles param de ir ao serviço”, comenta.

Ela destaca que os remédios de fato proporcionam uma inibição rápida dos impulsos, mas é o tratamento psicoterápico que permite ao indivíduo construir ferramentas para alcançar esse controle por si só.

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O que é a compulsão sexual?

O transtorno é definido como a dificuldade de controlar pensamentos, impulsos e fantasias sexuais a ponto de causar sofrimento ou prejuízo funcional. Ele é mais predominante em homens.

Como exemplo das repercussões que o quadro pode causar, o psiquiatra Daniel Proença Feijó, primeiro-secretário da Comissão de Sexologia da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), cita o caso de um paciente que é promotor de justiça e se masturba durante sessões em tribunais. “Para ele, a compulsão masturbatória é muito mais prazerosa do que ter uma relação com sua esposa”, conta.

Há mais sinais capazes de indicar um comportamento sexual que exige atenção especializada, como a busca excessiva por sexo, o tempo gasto com pornografia, a procura por sexo anônimo em aplicativos e o uso de serviços de prostituição. Outras pistas marcantes são a dificuldade em manter relacionamentos amorosos e os prejuízos emocionais que a falta de estímulos sexuais causam no indivíduo, como mau humor, ansiedade e inquietude.

Além disso, quem sofre de TCSC tende a explorar a satisfação sexual com conteúdos ou experiências cada vez mais estimulantes, como a masturbação com conteúdos pornográficos que não eram utilizados anteriormente ou no sexo envolvendo consumo de drogas, conhecido como “chemsex.

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Ao notar esses comportamentos, é importante buscar a ajuda de um profissional da saúde. Um psiquiatra, psicólogo, ginecologista ou urologista pode estabelecer o diagnóstico e dar orientações sobre o início do tratamento.

Os sintomas mais importantes

No AISEP, de 70% a 80% das buscas por tratamento durante a pandemia tinham a pornografia como sintoma principal. “As pessoas acabaram saindo menos, e outros perfis de comportamento apareceram mais. O sexo virtual, a pornografia e a masturbação ficaram mais prevalentes”, informa Macedo.

Esses comportamentos ainda seguem como os dilemas citados com maior frequência pelos indivíduos que procuram o ambulatório do HC. Entre 2024 e setembro de 2025, dos 125 pacientes tratados no serviço, 74 citaram o uso de pornografia, por exemplo.

Publicado em 2024, o estudo Prevalence of problematic pornography use: a meta-analysis revisou 22 pesquisas, totalizando mais de 31.500 participantes, e estimou que 8% da população mundial apresenta sinais de uso problemático de pornografia (PPU, na sigla em inglês). A revisão ainda sinaliza que o percentual de dependência seria superior ao de outros vícios comportamentais, como jogos de azar (até 3,3%) ou redes sociais (5%).

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Segundo o psiquiatra Danilo Baltieri, coordenador do Ambulatório de Transtornos da Sexualidade da Faculdade de Medicina do ABC (ABSex), o termo PPU pode ser tanto considerado como um sinônimo para TCSC quanto representar uma escala “menor” do problema, já que ainda existe um extenso debate sobre enquadrar os desejos sexuais como patologias. Nos Estados Unidos, por exemplo, a Associação Americana de Psiquiatria ainda não adota a definição proposta pela OMS em 2018.

Cabe destacar ainda que, entre os pacientes heterossexuais, o consumo de serviços de prostituição aparece como outro hábito relevante ligado ao transtorno de comportamento sexual compulsivo. Entre homossexuais, há muita menção a fazer sexo com estranhos e também em público. “São todos comportamentos de risco. Às vezes, essas pessoas buscam ajuda porque estão contraindo infecções sexualmente transmissíveis ou se envolvendo com drogas”, ressalta Macedo.

Atenção aos adolescentes

Apesar de os danos do transtorno de comportamento sexual compulsivo serem sentidos predominantemente na fase adulta, os primeiros sinais podem começar na adolescência – e o uso intenso de redes sociais é apontado como um fator que contribui para esse cenário. Segundo Macedo, enquanto o Instagram traz conteúdos mais sugestivos, o X (antigo Twitter) desponta como um aplicativo de acesso rápido à pornografia.

Porém, Carmita faz um alerta: “Não existe isso de um meio, de repente, criar um comportamento compulsivo para o qual a pessoa não tinha perfil”. Na verdade, segundo a médica, essas plataformas apenas intensificam tais comportamentos.

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No consultório, a médica já atendeu jovens de 12 anos que foram pegos pelos pais consumindo pornografia. “Os jovens têm buscado pornografia mais cedo e mais frequentemente do que nunca”, informa.

Na adolescência, a pornografia merece atenção redobrada quando é a principal ou primeira fonte de iniciação sexual. Segundo a psiquiatra, o jovem passa a acreditar que o sexo real deve reproduzir o que vê nas telas, com corpos idealizados e práticas incomuns, e isso tende a gerar insegurança e frustração. “Ao sair do mundo virtual para o real, ele tenta imitar essas práticas, o que pode causar estranhamento nas relações”, explica.

Carmita destaca que a curiosidade sexual surge ainda na infância, quando começam as primeiras perguntas sobre o tema. Para ela, os pais devem responder de forma simples e direta, ajudando a construir uma base de conhecimento sexual saudável. Caso esse diálogo não tenha ocorrido antes, a adolescência é o momento ideal para iniciá-lo. “Se os pais não se sentem confortáveis, alguém da família pode assumir esse papel, ou é possível indicar livros e sites confiáveis”, orienta.

Quando os pais percebem que os filhos estão consumindo pornografia, a recomendação é conversar abertamente. “Pergunte o que ele viu, o que achou interessante, o que o preocupa. É importante tratar o tema como parte natural da curiosidade do adolescente, e não como algo pecaminoso ou imoral”, afirma a psiquiatra.

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Segundo Carmita, essa fase é marcada por descobertas e experiências, mas a pornografia pode interromper esse processo ao impor padrões inalcançáveis e estimular o isolamento. “Muitos jovens deixam de buscar relações reais por medo de se frustrarem e de se sentirem incapazes sexualmente”, conclui.

Mas, claro, é preciso entender quando o comportamento exige uma avaliação profissional. Nesse caso, a orientação segue a mesma linha do que se indica aos adultos: a pornografia ganha contornos problemáticos quando começa a gerar prejuízos na rotina, como falta de sociabilidade, consumo em excesso ou preferência por conteúdos que fogem da zona considerada comum — é a chamada parafilia, que pode envolver objetos ou situações bizarras. Diante desses sinais, é essencial que os pais busquem o apoio de um especialista.

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