Marina Silva se emociona após ser ovacionada no encerramento da COP-30
Ministra do Meio Ambiente discursou na plenária final da Cúpula do Clima em Belém neste sábado, 22. Crédito: COP-30/UNFCCC
BELÉM E SÃO PAULO - A lentidão com que os diferentes países se movem no combate à crise climática, que se refletiu nas conclusões da Cúpula do Clima das Nações Unidas (COP-30), encerrada neste sábado, 22, foi lamentada tanto pela organização brasileira do evento quanto de organizações que participaram das discussões.
Ainda assim, as visões sobre os trabalhos que aconteceram nas duas últimas semanas, no geral, são positivas e ressaltam o fato de o Acordo de Paris - pacto contra o aquecimento do planeta assinado em 2015 - não ter morrido. Merecem elogios, principalmente, a participação maior da sociedade e ações concretas de financiamento a projetos diversos com participação dos setores público, privado e organizações não governamentais.
“A COP da verdade revelou a verdade das COPs, que não conseguem adotar de forma oficial agendas que propõem soluções concretas, como a proposta do Brasil de um mapa do caminho para o fim do uso dos combustíveis fósseis”, afirma ao Estadao/Broadcast, Márcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima e colunista da Rádio Eldorado.
A proposta de criar um roteiro para reduzir o consumo de petróleo e outros poluentes - defendida ao longo da conferência pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pelo secretário-geral da ONU, Antonio Guterres - ficou fora do documento final.
Ele alerta as “decisões dos países são lentas e insuficientes”, enquanto a crise do clima avança de forma rápida e perigosa. “Essa diferença tem alto custo na vida de milhares de pessoas”, diz Astrini.
Especialista em políticas climáticas da The Nature Conservancy (TNC) Brasil, Fernanda Bortolotto pondera, no entanto, que “no balanço geral, saímos com um resultado mais positivo do que se temia”.
Para ela, a cúpula de Belém deu um passo importante ao decidir pelo desenvolvimento, até a COP-31 (na Turquia), de um mecanismo institucional para a transição justa. Ela refere-se ao Mecanismo de Ação de Belém (BAM na sigla em inglês).
“Esse foi um dos maiores avanços feitos na capital paraense”, concorda o Observatório do Clima em documento. Ainda assim, Fernanda lamenta o fato de os mapas do caminho para a transição dos combustíveis fósseis e para o fim do desmatamento não terem sido incorporados às decisões formais da COP.
Já para o Instituto Clima e Sociedade merece “preocupações” a decisão sobre adaptação, que deveria ter sido um tema priorizado. Isso porque, destaca a entidade, o mundo todo vive eventos climáticos extremos, como ondas de calor e tempestades, “com maior frequência e intensidade”.
Bortolotto, da TNC, lembra que os trabalhos em Belém começaram com uma lista de cerca de 100 indicadores de adaptação, que foram reduzidos no texto final, “de forma que muitos países consideraram insuficientes para refletir a real dimensão das necessidades de adaptação”.
Ela ressalta ainda a falta de acordo sobre o volume de financiamento das nações desenvolvidas para apoiar a adaptação nos países em desenvolvimento.
“Essa lacuna acabou sendo parcialmente compensada no texto do mutirão, que traz o compromisso de triplicar os recursos para adaptação, ainda que com um horizonte menos ambicioso: até 2035, em vez de 2030, como vinha sendo demandado”, diz a especialista da TNC.
“Belém entregou o que era possível num mundo radicalmente transformado para a pior. Evitou a implosão do Acordo de Paris”, ressalta o coordenador de política internacional do Observatório do Clima, Claudio Angelo.
Segundo ele, os resultados fracos da conferência comprovam o esgotamento do modelo das decisões por consenso e impõem a necessidade de reforma da UNFCCC, o braço da ONU para o clima, e das próprias COPs.
Os representantes da comunidade científica - entre eles Carlos Nobre e Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), e os especialistas estrangeiros Fátima Denton, Johan Rockström e Piers Forster - lamentaram a falta de consenso em torno do fim do uso dos combustíveis fósseis.
“Apesar dos melhores esforços do Brasil e de muitos países, forças contrárias bloquearam o acordo”, pontuam em documento. O alerta dos pesquisadores é de que, sem o fim da dependência de combustíveis fósseis até por volta de 2040/45, “o mundo terá uma perigosa mudança climática dentro de 5 a 10 anos”.
Participação social e fundo de florestas
A avaliação do Instituto Clima e Sociedade, compartilhada pela TNC, é de que a conferência de Belém será lembrada positivamente pela presença da sociedade civil, incluindo povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais, além de movimentos sociais e organizações de jovens e mulheres.
Destacam ainda os exemplos concretos de aceleração de implementação e as mostras de parcerias entre setor privado, setor financeiro, filantropia e governos subnacionais. Entre os citados no documento, estão o fundo de florestas proposto por Lula, o TFFF, que conseguiu mais de US$ 6,5 bilhões de investimento, sobretudo de países como Noruega, Alemanha e Indonésia.
A meta do governo brasileiro é chegar a US$ 10 bilhões em aportes até 2026 e a US$ 125 bilhões totais. O TFFF foi proposto pelo Brasil na COP de Dubai, em 2023, com o objetivo de combater o desmatamento de florestas úmidas tropicais no mundo, já que esses ecossistemas são essenciais para regular o clima.
O mecanismo prevê remunerar os países que abrigam florestas tropicais por manterem de pé suas coberturas vegetais - por isso, o Brasil pode ser um dos principais beneficiados.
