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Um retrato social diário, baseado na relevância do fato, da notícia e da imagem

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‘Enfrentamos um vício na supremacia branca’, diz professor de Harvard

Robert Livingston esteve no País e, ao falar com a Coluna sobre o tema, defendeu a lei de cotas

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Foto do autor Alice Ferraz
Foto do autor Daniel Fernandes

Percival Lafer: O gênio que mira o futuro

Designer de mobiliários completa 90 anos com lançamento de nova coleção na SP-Arte 2026. Crédito: Caio Ciuccio

O doutor norte-americano Robert Livingston é um psicólogo social e especialista no estudo do racismo, sobretudo no mundo corporativo. É autor de dois livros importantes que tratam sobre o tema ao qual dedica sua carreira, The Conversation e Play the Game, Change the game, Leave the Game. Não é exagero afirmar que entre a publicação de ambos, o acadêmico mudou substancialmente sua abordagem do tema. Ou nas suas próprias palavras: “Acredito que, por muitos motivos, e eu aprofundo isso neste livro, o que estamos enfrentando não é a falta de informação no caso do racismo. O que estamos enfrentando é um vício na supremacia branca, um vício no poder”.

Então, meu foco agora mudou de ter conversas com pessoas brancas para ter conversas, treinamentos e sessões educativas para ajudar a capacitar pessoas negras, dando a elas informação, força e conhecimento.

Robert Livingston

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Livingston conta que a partir do lançamento de ‘Conversation’, literalmente, falou com milhares de pessoas sobre racismo, com aqueles que queriam saber do acadêmico como tratar de maneira diferente o assunto – muito do interesse pelo trabalho do professor surgiu porque o livro foi lançado apenas sete meses após o brutal assassinato de George Floyd. “Após milhares de conversas, percebi que não era um problema de falta de informação”, explica.

Nesse exercício pessoal de reflexão o professor passou, então, à metáfora do vício em contraponto às três formas anteriores com que lidava com o assunto. “Eu estava atacando isso de três maneiras: a informação, talvez haja coisas que você não sabe, a moralidade, talvez você não veja o dano que está causando, e o interesse próprio, talvez você não veja o que ganha com isso”. Mas se o caso é de pessoas viciadas na prevalência racial, dispostas a prejudicar a si mesmas por isso, não há o que fazer na opinião do acadêmico a não ser mudar o foco para ajudar pessoas a viverem nesse ambiente deturpado pelo vício.

Estudioso lançou dois livros sobre o assunto nos Estados Unidos. Foto: COLAGEM DE THAIS BARROCO; FOTO DIVULGAÇÃO

“Então, meu foco agora mudou de ter conversas com pessoas brancas para ter conversas, treinamentos e sessões educativas – como a que fiz aqui (no Brasil) – para ajudar a capacitar pessoas negras, dando a elas a informação, o conhecimento e a força necessários para navegar por esse terreno tão traiçoeiro em que estão vivendo.”

Ainda segundo o professor Livingston, uma pessoa que convive com um vício pode ou não superá-lo – “Eu não sou pessimista, acredito que a recuperação existe” –, mas sua abordagem se modificou. Livingston esteve no País na semana passada para participar de um programa com empresas associadas ao Mover, um movimento pela equidade racial.

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Brasil e Estados Unidos

De acordo com levantamento do Instituto Ethos, com dados que mostram a realidade entre 2023 e 2024, apenas 6% de homens e mulheres negros têm vaga em conselhos de administração de empresas brasileiras. E ocupam menos de 15% dos cargos executivos em organizações. Nos cargos de gerência, esse porcentual sobe para 26,1%. Os negros são 55% da população do País aproximadamente.

Tanto Malcom X quanto Martin Luther King sabiam que eram negros. Ambos sabiam que o racismo é um problema real. A divergência era sobre como combater.

Robert Livingston

“Nos Estados Unidos, somos apenas 13% da população e os nossos números são melhores do que esses”, conta. “Aqui no Brasil há uma falta de conscientização, uma falta de conhecimento”, complementa para então explicar com mais detalhes. “Acho que o mito no Brasil, a crença, é de que vocês vivem em uma democracia racial. Nós nunca acreditamos nisso nos Estados Unidos. Se você não acredita que o racismo existe, não vai combatê-lo. Alguém que não sabe que tem câncer não vai ao médico buscar remédio.”

Caminhos

Com essa análise, Livingston não quer dizer que a comunidade negra norte-americana é perfeita, ele admite que existem conflitos internos. O pastor Martin Luther King, por exemplo, acreditava que o caminho para resolver o problema era pela via pacífica, o oposto do pensamento de Malcolm X. “Então, sempre há divergências. Mas não são divergências sobre o problema. Tanto Malcom X quanto Martin Luther King sabiam que eram negros. Ambos sabiam que o racismo é um problema real. A divergência era sobre como combater”, analisa.

Meus pais se beneficiaram de leis como essa (cotas) nos Estados Unidos na década de 60. Essa é uma das razões pelas quais estou aqui falando com vocês hoje. Eu não seria professor em Harvard.

Robert Livingston

Nos cinco dias que esteve no Brasil, o professor encontrou pessoas que o disseram ter crescido sem saber que eram negras. O letramento racial faz com que a pessoa também se descubra oprimida. “(Elas) estão apenas começando a descobrir que são negras e elas estão apenas começando a descobrir que são oprimidas, de que enfrentam o racismo. Se você for a qualquer bairro de elite em São Paulo ou no Rio, é 95% branco. Isso não é por acaso. Isso é intencional”, conta.

Ele fala ainda sobre a lei de cotas. “Vai beneficiar milhares, se não, milhões de pessoas. Meus pais se beneficiaram de leis como essa nos Estados Unidos nos anos 1960. Essa é uma das razões pelas quais estou aqui falando com vocês hoje, porque se eles não tivessem tido essas oportunidades, eu não teria tido a oportunidade de ir para a universidade. Eu não seria professor em Harvard.”

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