Ney Matogrosso sempre gostou de sair por aí, livre e solto. Nunca teve problemas, mas ultimamente não está dando. É o efeito Homem com H, o filme. “Serginho Groisman me disse que o filme abriu um portal. Fui a três sessões do filme e vi pessoas chorando. Não era um público gay. As pessoas se identificaram comigo e passaram a sublimar no Ney do filme um desejo de liberdade e realização. Não posso mais sair. Fica todo mundo me cercando.” Ney diz isso sem reclamar. Ou melhor, reclama, mas faz parte. Tem trabalhado mais do que nunca. “Me chamam para tudo, tenho dado um duro danado. Faço porque quero, porque gosto, mas reclamo.”
Homem com H bateu nos 700 mil espectadores. “Tive um retorno muito bom, as pessoas gostaram. Teve gente que reclamou do excesso de nudez, mas isso tem a ver com a época retratada, com o Ney que fui no meu começo, querendo provocar, romper barreiras.” Para ele, o filme foi cedo demais para o streaming. “Não fui produtor, não tinha voz quanto a isso. A verba da Netflix fol muito importante para a produção, mas eles estipularam, por contrato, uma janela muito curta. Por mim, o filme só iria para o streaming depois de fazer 1 milhão (de espectadores). Acredito que chegaria lá.”
Desde o começo, Ney deixou claro que não iria interferir na produção. “Só fiz uma exigência – que o filme fosse verdadeiro, não tivesse nenhuma mentira. Esmir (Filho, o diretor) tomou certas liberdades, trocando datas, juntando situações, mas era em função da eficiência dramática da narrativa.” Quem viu, sabe da briga de Ney com o pai, um militar que dizia: “Não quero filho viado”. Rômulo Braga é excepcional no papel, e não é só a homofobia, o preconceito que o move. É também uma atitude protecionista em relação ao filho.
“Gosto muito do Rômulo como meu pai. Ele vestiu o personagem”, diz o cantor. “Durante o lançamento, quando encontrei todo mundo da produção e do elenco, abraçava e beijava as pessoas. Disse pro Rômulo – ‘Quero abraçar o meu pai.’ Foi um abraço sincero, sentido, como se fosse meu pai. Felizmente tive oportunidade de acompanhar meu pai no fim da vida, reconciliar-me com ele. Ele não podia comer por causa da doença. Comprava sorvete e lhe dava na boca.”
O filme também mostra como Ney abraçou Cazuza e cuidou dele. Cuidou do namorado, que também morreu de aids. Ney, um cuidador? “Cara, sim. Cuidei de muitas pessoas na minha vida”, diz. “A aids foi um flagelo para minha geração. Atingiu muita gente que foi discriminada, expulsa de casa. Mas não só a aids, a hanseníase [também]”.
Sua mãe, dona Beita Pereira, hoje com 103 anos, criou uma menina cuja mãe tinha a doença. Ney, mais tarde, tornou-se voluntário e colaborador do MORHAN – Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase. “Fui ao [então] ministro da Saúde, o José Serra, que disse que o ministério não ia fazer nada, mas se eu quisesse, e a Globo topasse, estava liberado, podia fazer a campanha que quisesse. Tinha 60 anos, estou com 83, prestes a fazer 84 (em 31 de julho). Encontrei uma senhora que estava há 60 anos, a minha idade, abandonada. As pessoas não queriam nem tocar nela. Não sei o que é pior, se a ignorância ou o preconceito. Eu abraçava, beijava. É preciso esclarecimento sobre como se pega essas doenças.”
‘Sempre fui tímido’
Ney conversava com o Estadão na sua suíte do Hotel Senac Ilha do Boi, em Vitória, no espírito Santo, durante o festival que o homenageou na última quinta-feira, 24. Ao longo de mais de 50 anos de carreira, desde 1973, quando surgiu como vocalista no Secos e Molhados, Ney gravou 36 discos, participou de 24 shows, fez 21 filmes. Há muitos anos, ele foi a uma cartomante que previu que, quanto mais velho, mais trabalho, mais solicitado ele seria. “É o que está acontecendo.”
Se na afirmação da sua identidade como artista ele recorreu inicialmente às ferramentas do teatro, usando máscaras para performar – “As pessoas não acreditam, mas sempre fui tímido; as máscaras eram uma proteção” -, no cinema ele precisou aprender que, ao contrário de representar, devia se conter. Foi logo no primeiro filme, Sonho de Valsa, que fechou, em 1987, a trilogia iniciada por Mar de Rosas e que teve prosseguimento com Das Tripas Coração. Ele não se esquece – “Ney, é a sua vez.” Bastou ouvir o comando da diretora Ana Carolina, que ele estufou o peito, jogou os ombros para trás, e foi. “Para, Ney, o que é isso? Você parece que vai voar.” Com Ana Carolina ele aprendeu que, para a câmera, menos é mais. Às vezes, nem sempre, para servir ao personagem é preciso ser natural.
Elenco de 'Homem com H' fala sobre filme que conta vida de Ney Matogrosso
Os atores Jesuíta Barbosa, Jullio Reis e Bruna Montaleone e o diretor Esmir Filho falam sobre a força de representar história do cantor nas telas.
Tem outro projeto com Ana, que adoraria fazer. “Um ator que matar toda a equipe num set de filmagem. É um personagem que quero muito fazer, para testar o tipo de personagem que consigo criar.” Com Helena Ignez, fez quatro filmes – Luz nas Trevas/ A Volta do Bandido da Luz Vermelha, Poder Dos Afetos, Ralé e Alegria É a Prova dos Nove. Luz nas Trevas era um filme muito bem escrito, um roteiro do Rogério Sganzerla. Com Helena, a parceria virou amizade.
“Como ela compõe personagens para mim? A Helena não compõe. A gente conversa, joga muita conversa fora, rimos, brincamos. Ela não me dá um roteiro. Na hora de filmar, diz ‘Fala aquilo que a gente conversou.’ E eu nem lembro, pergunto – ‘O quê?’ Pra ela tenho feito sempre o mesmo personagem, o Barão. As coisas saem assim, no improviso. Antes eu me preocupava, agora não estrebucho, sei que vai sair.”
Como é a rotina diária de Ney? “Muito simples. Tomo sempre o mesmo café da manhã – uma salada de frutas, iogurte natural, chá e torrada com manteiga. Almoço e janto muito pouco. Gosto de levantar da mesa sabendo que poderia comer a mesma quantidade de novo, mas não como. Antes fazias uma hora de ginástica de segunda a sexta com o mesmo personal trainer, já tem 15 anos. Agora tenho feito de segunda a quinta, 45 minutos. Gosto de puxar ferro, mas não é para criar músculos. É para manter o tônus.” Mostra o muque. “Preciso manter os músculos firmes para aguentar o pique do palco.”

Tem quatro shows agendados na Europa. Na Suíça, “naquela cidade dos bancos, em que a gente pisa em dinheiro”, ele ri, e também na França, Inglaterra e Portugal. “Em Londres me apresentei num lugar que tinha capacidade para 2 mil espectadores. Vou voltar e fazer para 4 mil.”
Não corre atrás de shows, como não corre atrás de filmes. “Gosto de filmar, das parcerias, com a Ana (Carolina), a Helena (Ignez), o Joel (Pizzini) e o Rafael (Saar), mas não fico cobrando, insistindo. Se eles têm alguma coisa para mim eles vêm.” A voz continua resistindo aos agudos, mas ele sabe que adquiriu graves e médios com o tempo. “Quando criança, era um problema para mim. Você vê que eu não falo fino, é quando canto.”
Foi a voz de contralto que fez dele o vocalista do Secos e Molhados. “Éramos um trio e eles não queriam uma mulher.” Quando iniciou a carreira solo, sentiu que não poderia ficar só nos agudos. Teve uma preparadora de voz, Fernanda Gianetti. “A Fernanda era um doce, um amor. A gente conversava na janela, uma coisa romântica, parecíamos namorados.” Ney, romântico? “Sou, só não quero casar mais. Nada de relacionamentos profundos, duradouros, vou logo avisando.”
Em matéria de relacionamentos, Ney foi sempre libertário. “Dividi um namorado com o Cazuza e tive uma ligação aberta com a mais bonita das Frenéticas. A gente não cobrava um do outro. Enquanto ficamos juntos foi porque a gente queria, gostava.” Homem com H mostra um Ney noturno, trocando amassos com homens e mulheres. “Ah, mas aquilo não era relacionamento. Era suruba, um comportamento da época.”
Ele viu o documentário sobre Cazuza [Boas Novas, que chegou recentemente aos cinemas]? “Vi, tem horas que o diretor parece querer aparecer mais do que ele, mas o filme dá conta do extraordinário artista que foi. Dirigi o último show dele. Cazuza já estava muito fraco. Eliminei tudo o que era gracinha para me concentrar no que era o essencial, o pensamento dele. Cazuza foi muito corajoso, assumindo-se como estava. Eram só ele, fragilizado, e a luz que construí ao redor.”
No dia de seu aniversário, na quinta da semana que vem, estreia em São Paulo o espetáculo Entre a Pele e a Alma, da Focus Cia. de Dança, sob a direção artística do coreógrafo Alex Neoral, depois de uma temporada de sucesso no Theatro Municipal do Rio. A superprodução tem como referência o corpo livre e sem entraves presente na pintura Jardim das Delícias Terrenas, de Hieronymus Bosch, e na produção artística de Ney Matogrosso. Especialmente em São Paulo, o espetáculo será dividido em dois atos, com apresentações no Teatro Sérgio Cardoso. É a primeira vez, em mais de 50 anos de carreira, que Ney interpretará músicas para dança contemporânea, da trilha composta por Sacha Amback e Paula Raia.
Seu corpo - sua história, sua voz – serviram de inspiração. Ney, inspirador. “Queriam que eu gravasse a trilha inteira, mas, por uma questão de agenda, gravei apenas algumas músicas. Estavam comigo no estúdio os compositores, o coreógrafo/autor. Não interferi no processo. Por que aceitei? Porque a ousadia e experimentalismo do grupo me cativaram. E por causa da música. Ainda preciso dizer que a música é a minha vida?”
Com seu comportamento transgressivo no palco, Ney iniciou uma verdadeira revolução, mas, como diz, “nunca quis ser revolucionário, queria ser livre”. Rompeu com estereótipos do masculino, mas nunca quis ser outra coisa senão homem. “Convivo muito bem com meu sexo, gosto de ter pau.” Para seu biógrafo, o crítico musical Júlio Maria, é o maior artista vivo da MPB. Para Júlio, Ney não briga com seu passado. “Não tem medo da própria história.” E por que teria, o próprio Ney pergunta? “Não fiz nada criminoso, condenável.”
Sem vinculações partidárias, mas acreditando que, como artista, possa e deva se manifestar em questões viscerais, que afetam a todos – liberdade, meio ambiente, direitos -, Ney mantém prudente distância das redes sociais, onde pulsam tanto o ódio e a mentira. “Uso meu Instragram só para postar algumas fotos.” A entrevista realiza-se no fim de tarde. Um pôr do sol deslumbrante em Vitória. O céu em chamas, camadas amarelas, laranja, púrpura. Ney tira uma foto no celular. “Olha, ficou linda.” Promete postar. Procurem no Insta dele.



