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Roberto DaMatta: ‘O maior sofrimento é nos conformarmos com a ideia de que somos finitos’

O antropólogo completa 90 anos analisando o cotidiano do Brasil sob a lente da antropologia; ao ‘Estadão’, ele fala sobre a chegada às nove décadas de vida, a inteligência artificial e a dicotomia entre público e privado no País

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Foto do autor Roberta Jansen
Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

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Foto: Pedro Kirilos/Estadão
Entrevista comRoberto DaMattaAntropólogo

Entender o Brasil por meio de algumas de suas manifestações culturais populares mais arraigadas, como o carnaval, o jogo do bicho e o futebol foi o desafio que Roberto DaMatta impôs a si mesmo desde o início de sua carreira, nos idos dos anos 60. Um dos mais importantes antropólogos do País, colunista do Estadão desde 2001, DaMatta completa 90 anos nesta quarta-feira, 29.

O renomado intelectual revolucionou as ciências sociais do País ao transformar o cotidiano nacional, os festejos religiosos e mesmo os paradoxos culturais em objetos de estudo. DaMatta estudou o Carnaval, o futebol e as procissões religiosas não como diversão, mas como rituais que revelam a estrutura da sociedade brasileira.

Foi um dos principais responsáveis por analisar cientificamente e popularizar o termo “jeitinho brasileiro” em seus livros das décadas de 1970 e 1980 (como Carnavais, Malandros e Heróis), consolidando o “jeitinho” como uma estratégia legítima de sobrevivência social, que se equilibra o favor e a malandragem.

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Uma das principais ideias desenvolvidas na obra de DaMatta é a dialética “casa” e “rua”. O antropólogo divide o universo social brasileiro entre a casa (o espaço privado, do afeto, do parentesco, onde as leis não entram) e a rua (espaço público, do trabalho, das leis impessoais, do desamparo). Em boa parte de sua obra, DaMatta explora a ideia de que o brasileiro tenta a todo custo transformar a rua em casa, usando laços de amizade e redes de favor, para fugir da frieza das leis. “Como fez [o banqueiro Daniel] Vorcaro”, afirmou, em entrevista ao Estadão por ocasião de seu aniversário.

O antropólogo Roberto DaMatta completa 90 anos analisando o cotidiano do brasileiro Foto: Pedro Kirilos/Estadão

Nesse processo, DaMatta tornou objeto de estudo uma frase clássica do brasileiro: “Você sabe com quem está falando?”. Segundo o antropólogo, que a apresenta como um rito de exclusão autoritário, ela serve para lembrar ao outro que, no Brasil, as relações e os privilégios pessoais valem mais do que as leis universais que deveriam valer para todos os cidadãos.

Formado em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF), DaMatta fez uma especialização em antropologia social no Museu Nacional da UFRJ. Depois, cursou mestrado e doutorado na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Seus estudos sempre foram voltados para o País. Entre suas obras mais importantes, estão Um mundo dividido: a estrutura social dos índios Apinayé, Carnavais, malandros e heróis, Águias, burros e borboletas: um ensaio antropológico sobre o jogo do bicho, A bola corre mais que os homens: duas Copas, além do ensaio Você sabe com quem está falando?.

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Particularidades brasileiras

Em sua obra, DaMatta mostrou especial interesse pelas peculiaridades brasileiras. Entre elas, a hierarquização da sociedade, disfarçada de proximidade; o carnaval como ritual que mistura ricos e pobres, suspendendo regras e diferenças; a dicotomia entre o coletivo, simbolizado na rua, e o privado, sintetizado no lar; o fascínio pela esperteza da malandragem. Para DaMatta, para entender um povo é necessário conhecer os seus ritos e seus mitos.

Em Carnavais, malandros e heróis, escreveu que pretendia abordar “esse povo nas suas esperanças e perplexidades, pois sempre me impressionou a conjunção de um povo tão achatado junto a um sistema de relações pessoais tão preocupado com personalidades e sentimentos; uma multidão tão sem rosto e sem voz, junto a uma elite tão rouca de gritar por suas prerrogativas e direitos; uma intelectualidade tão preocupada com o coração do Brasil e, no entanto, tão voltada para o último livro francês; uma criadagem que passa tão despercebida e patrões tão egocêntricos (...)” Segundo ele, o povo brasileiro o intriga “na sua generosidade, sabedoria e, sobretudo, esperança”.

Ao voltar ao Brasil depois do mestrado e doutorado nos Estados Unidos, o antropólogo trabalhou no Museu Nacional até 1986, quando aceitou um convite da Universidade de Notre Dame, em Indiana, nos EUA, para lecionar. Ele só voltou ao País em meados dos anos 2000, quando começou a dar aulas na Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ). Agora, diz, encerrou sua carreira acadêmica e pensa seriamente em começar a escrever ficção.

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Leia a entrevista completa com Roberto DaMatta abaixo

O senhor acompanhou a Copa do Mundo? Os brasileiros deixaram um pouco de lado a divisão política que vem caracterizando o País nos últimos anos para torcer pela seleção?

O Brasil, que é o tempo todo criticado, na Copa vira objeto de afeto, uma solidariedade absolutamente impressionante. A partir da classificação, o time brasileiro se apresenta como uma unidade brasileira na qual, inevitavelmente, o Brasil inteiro projeta os nossos afetos, a língua que falamos, a maneira que somos. O futebol brasileiro sempre se caracterizou pelo drible, pela malandragem, pelos negros, os pobres, os artistas da pelota. Artistas de um esporte que chegou com os colonizadores; e justamente os mais pomposos, os mais distantes, os ingleses, aqueles que não se misturavam. Além disso, é um esporte em que não sabemos qual será o resultado, estamos entregues ao destino. Pode haver preferências, mas não sabemos o resultado, certezas absolutas não funcionam. O segundo ponto é que no futebol temos a experiência da igualdade absoluta. Não tem jeitinho, compadrio, corrupção. E todos nós conhecemos as regras do jogo. O que é bem diferente da nossa burocracia aristocrática, tão difícil de administrar, em que sempre existe uma regra que desconhecemos.

O senhor está chegando aos 90 anos. Como se sente?

Cheguei numa idade, em que não há nada completamente ruim, nem completamente bom; é tudo mais ou menos. Mas, olha, o que eu queria fazer eu fiz. Fui um dos primeiros a fazer doutorado em antropologia em Harvard, consegui sobreviver à minha timidez, morei nos Estados Unidos, fui contratado por uma universidade americana. Consegui olhar para a sociedade brasileira com um olhar diferenciado, que é fundamental para a antropologia social, enxergar o que acontece com uma certa distância. Sobre o envelhecimento, até os 50 anos ninguém morre, né? Ninguém acha que vai morrer. Só depois os problemas começam a aparecer, tive um infarto, tive que colocar um stent. Mas o mais chato foi o AVC (há três anos), quando tive certeza de que morria, acabei ficando com o lado esquerdo paralisado [a fisioterapia o tem ajudado bastante e já está praticamente recuperado], tomo uma batelada de remédio. O maior sofrimento é nos conformarmos com a ideia de que somos finitos. E enxergar esse contraste maravilhoso entre a nossa consciência da finitude e as artes, o cinema, a pintura, o teatro, os romances. O criador é finito - e ter consciência disso é o ponto central da nossa existência -- mas há um outro lado que se perpetua. O que está perpetuando é finito, mas o que é perpetuado é infinito.

'Cheguei numa idade, em que não há nada completamente ruim, nem completamente bom; é tudo mais ou menos', diz DaMatta sobre a chegada dos 90 anos Foto: Pedro Kirilos/Estadão

Como a figura do banqueiro Daniel Vorcaro -- que, aparentemente, conseguiu comprar praticamente toda a República, à esquerda e à direita -- pode ser analisada do ponto de vista da antropologia?

O universo doméstico e público têm muitas oposições; o que fazemos em casa, não podemos fazer na rua; e o que faz na rua, não podemos fazer com nossos parentes. Vorcaro entendeu isso intuitivamente muito bem. Como explica muito bem o antropólogo Marcel Mauss, quando recebemos um presente, implicitamente, nos sentimos obrigados a devolver com outro presente. É assim que o sistema público funciona. Você não vai deixar de dar um emprego para o seu cunhado que está precisando, fazer um favor para um amigo. As oposições ideológicas e de classe existem, mas são rompidas pelas relações pessoais; é ai que entra em jogo a corrupção. Vorcaro deu dinheiro para todo mundo, da direita e da esquerda, porque ele sabia que a gente não esquece o tratamento afetuoso, o presente, a gentileza, a simpatia.

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O senhor falou há pouco em consciência humana. Há todo um debate acadêmico a respeito da Inteligência Artificial. O senhor acredita que um dia a IA poderá ter consciência?

Nós temos uma coisa que ninguém tem, a consciência, um dos maiores mistérios do mundo. [O filósofo Friedrich] Nietzsche dizia que quem inventou a alma foi o corpo, como uma forma de poder lidar com a consciência. Sabemos que funcionamos com base na eletricidade. Nosso cérebro funciona por impulsos elétricos. Os literatos, com suas imaginações fantásticas, como Isaac Azimov, criam robôs com consciência. Será que conseguiremos criar uma máquina que tenha consciência de si própria e do mundo? Olha, acho que isso não vai acontecer por uma razão trivial. Nossa consciência é agasalhada por uma máquina chamada corpo humano. E são as experiencias com esse corpo, essas várias consciência, esses vários tipos de memória, que fazem a nossa consciência.

Como o senhor vê essa disputa entre as políticas identitárias e o radicalismo da extrema direita? Estamos melhorando ou piorando?

Acho que melhoramos e pioramos ao mesmo tempo. Existe uma questão moral, filosófica, sociológica muito importante que é o fato de convivermos todos os dias com coisas positivas e negativas. Os avanços criam outras dificuldades. É curioso, mas os extremos que levam ao progresso também são motivo de resistência e atraso. Os limites são puxados para cima e para baixo, à direita e à esquerda. Sempre que pensamos em progredir, em crescer, pensamos no lado positivo. Mas devemos pensar também no lado negativo desse crescimento. Todo movimento provoca alguma reação, mas sou absolutamente contrário à desonestidade e à violência. Uma democracia exige imparcialidade. Como fazer isso dentro de uma sociedade familística? Se você virar governador, não vai dar um emprego ao seu amigo de infância que está desempregado? O primo que está passando necessidade? O irmão que tem um emprego sazonal, arriscado? As obrigações do parentesco competem e corroem a imparcialidade da administração pública do Brasil há séculos.

'Uma democracia exige imparcialidade. Como fazer isso dentro de uma sociedade familística?', reflete DaMatta em conversa com o Estadão; colunista do jornal, o antropólogo completa 90 anos Foto: Pedro Kirilos/Estadão

Indígenas ou índios?

Índios, claro. Essa discussão é muito boboca. Índio é apenas um nome. Todo mundo sabe que eles foram chamados de índios porque os navegadores acharam que estavam chegando nas Índias.

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Como o senhor vê a ascensão dos evangélicos no Brasil nas últimas décadas?

O que caracteriza o protestantismo em geral, seguindo aqui, mais ou menos, Max Weber em A ética protestante e o espírito do capitalismo, é o individualismo, a ideia de se desvencilhar das relações pessoais, da dependência que caracteriza a sociedade moderna, em que o todo é mais importante que a parte. As igrejas evangélicas entenderam e abraçaram as dinâmicas do capitalismo e do mercado moderno de forma muito melhor que a Igreja Católica, oferecendo uma justificativa espiritual e moral para a ascenção social. Mas é uma transição dramática, que envolve rupturas, abala pilares da sociedade. Há um conjunto de impulsos, tendências, eventos e fatos que rompem com tradições do Brasil de forma muito acelerada e podem passar essa impressão errada de fim do mundo.

Mas esse movimento pode estar por trás da nova onda conservadora?

Do ponto de vista da ética, somos reacionários, seguimos um sistema ético do século 19. O evangelismo surpreende porque não tem uma igreja, são templos, grupos, uma multiplicidade maior de vozes, que acabou aparecendo com mais nitidez na direita ou na centro-direita, com tendência a radicalismos e posições extremadas. Mas o evangelismo pode ser libertador no sentido que permite a emergência e a elaboração de certos problemas humanos e sociais muito importantes. É libertador no sentido de que nos tira de uma situação em que há uma religião dominante, precisamos ter visões alternativas, críticas. Mas tudo depende das lideranças. No caso do Brasil, eu não entraria na igreja do bispo (Edir) Macedo.

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