Coluna semanal do antropólogo Roberto DaMatta com reflexões sobre o Brasil

Coluna semanal do antropólogo Roberto DaMatta com reflexões sobre o Brasil

O futebol no mapa das cogitações sociais

Em oposição ao nosso sistema social amarrado a elites superiores por nascimento ou falcatrua, no futebol saber jogar é absolutamente essencial

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Foto do autor Roberto DaMatta

Estou em Lisboa para participar do 3.ºColóquio Internacional de Futebol, organizado pelos professores Carmem Rial e Fabio Machado Pinto, da Universidade Federal de Santa Catarina. Discutiremos vários aspectos do esporte.

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Os organizadores tiveram a gentileza de me convidar para realizar a conferência de abertura, o que muito me honra pelo reconhecimento do meu trabalho sobre essa modalidade esportiva tida como alienada no contexto das pesquisas em Ciências Sociais do Brasil. Colegas apontavam velada ou abertamente a minha alienação porque meu tema de pesquisa eram os rituais e os símbolos que legitimavam tanto a revolução quanto a repressão. É claro que escrevi sobre esporte e carnaval, sobre o sabe com quem está falando como ritos reveladores de uma estrutura social autoritária que, obviamente, a ditadura militar comprovava.

Era curioso que o mundo intelectual virtualmente reproduzisse a censura da qual éramos todos vítimas, reproduzindo a atitude burra daqueles anos. A insensibilidade impedia enxergar a força política e simbólica enraizada na nossa excelência futebolística, com a sua gigantesca capacidade de mobilizar as massas no Brasil e no mundo. Como era possível saber que Garrincha era a alegria do povo e ignorar a importância do futebol como um poderoso instrumento de igualdade, liberdade, vitória, autoestima e a tão procurada democracia deste povo?

Mané Garrincha em seu jogo de despedida, chamado de jogo da Gratidão, no Maracanã, em 1973. A partida foi entre a Seleção Brasileira e a seleção internacional. O Brasil venceu o duelo por 2 a 1 com gols de Pelé e Luis Pereira.  Foto: Arquivo Estadão

Foi neste clima que editei e publiquei, há 40 anos, o livro Universo do Futebol, no qual coloquei, ao lado de colegas, o futebol no mapa das cogitações sociais como um espetáculo competitivo que seguia rigorosamente regras e protocolos que, em outras esferas da sociedade brasileira, são sistematicamente roubadas, anuladas e transformadas a gosto dos interesses políticos mais mesquinhos.

Minha contribuição foi focar novamente no futebol como um professor emérito de democracia, igualdade e universalismo. Ele aceita e transforma jogadores de todos os tipos, cores e gêneros. Todos são conscientes de que só pode haver jogo seguindo fielmente regras que valem para todos. E os juízes igualmente sabem que não podem fazer manobras porque as leis do futebol são simples e de todos conhecidas. Não é preciso complicadas exegeses nem a sabedoria de sábios advogados. Ademais, em oposição ao nosso sistema social amarrado a elites superiores por nascimento ou falcatrua, no futebol saber jogar é absolutamente essencial.

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E, para finalizar, joga-se com a bola que, dependendo da situação, pode ser masculina ou feminina porque pula, tem movimento próprio e, como a vida, corre mais do que nós. Não um jogo para mandões nem golpistas!

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Opinião por Roberto DaMatta

É antropólogo social, escritor e autor de 'Fila e Democracia'