O salvacionismo seduz porque promete um governo capaz de consertar ou curar esse Brasil por gerações tido como doente. Ele exibe o divórcio entre Estado e sociedade, e como esse transtorno responde pelas crises que são muito mais conflitos éticos do que políticos. Os salvacionistas chegam das margens. De militâncias ideológicas estrangeiras como a democracia liberal e o comunismo, do palácio do governo e dos partidos; do STF, do primarismo de Jair Bolsonaro, da aliança de bolsonarismo e Trump.
O salvador que promete cuidar dos pobres e oprimidos vem da periferia: do operariado, do baixo clero e possui, como Jânio, Ademar, Maluf e Bolsonaro, esquisitices carismáticas. O messianismo salvador é o discurso que empolga pela sua promessa utópica de tudo saber e tudo resolver. Comigo, ele afirma, você não precisa fazer nada...
Hoje, vivemos uma patológica tensão entre dois salvadores da pátria e um poderoso gângster americano.

O que marca os salvacionistas é a contradição entre o discurso de renúncia desse nosso mundo estruturado por ladra politicagem e a ansiosa aristocratização do salvador logo que eleito e passa a viver em palácio gozando dos privilégios que ele e seus companheiros ferozmente combatem. A ambiguidade do patriarcalismo, que faculta anular os conflitos de interesse, mostra como a ideologia nada tem a ver com ética, pois, no Brasil, a esfera política define como é o espaço da ambiguidade que, em nome da democracia, “blinda” recriando a lei privada – o privilégio –, aristocratizando os eleitos, separando-os contraditoriamente do povo que os elegeu.
No Brasil, o discurso político estabelecido é o da salvação e do milagre. A tal “mudança social” deve ser realizada pelo governo, pois tudo cabe ao Estado e a seus agentes, que pertencem às elites responsáveis pelo atraso e pelo viés enraizado na nossa vida pública afeita à monarquia e escravidão.
O apelo do milagre a ser realizado pelo Estado, sem custo para a sociedade que o constitui e sustenta, caracteriza o embuste de um inconsciente cultural aristocrático que ninguém quer enxergar.
Pessoas se decepcionam com pessoas, jamais com programas. Sem medir o peso do passado, vivemos crises recorrentes, porque achamos que as leis são isentas do peso dos costumes e das singularidades do passado. Um passado que acolheu um rei que escapuliu e sua corte. Um rei que foge para a colônia, inaugura sem saber um anticolonialismo que merece reflexão. No Brasil, colonizador e colonizado trocaram de lugar e se misturaram numa excepcional experiência. Seria o salvacionismo uma expressão de saudade de realeza? Penso que a fusão de colonizador com colonizado elucida a permanência do salvador, do jeitinho e do fascistoide, mas trivial, você sabe com quem está falando.
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