‘A Máquina’, peça que revelou Wagner Moura e Lázaro Ramos, volta aos palcos repaginada

Novo elenco conta com atores de ‘O Avesso na Pele’ e Agnes Brichta, filha de Vladimir Brichta, que também integrou elenco original

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Em 2000, o diretor João Falcão planejava encenar uma peça com apenas um ator e uma atriz. “Mas vi um grupo tão incrível na Bahia que decidi que quatro atores se revezariam como o protagonista masculino”, conta ele, que estreou A Máquina com um elenco formado pelos então desconhecidos Wagner Moura, Lázaro Ramos e Vladimir Brichta, além de seus sobrinhos Gustavo e Karina Falcão. A montagem alcançou pleno sucesso, tornou-se uma referência e, em comemoração aos seus 25 anos, ganhou nova versão, no novo Teatroiquè, em São Paulo, desde o dia 9 de outubro.

O quarteto masculino agora é interpretado pelos integrantes do coletivo paulistano Ocutá, cuja atuação na peça O Avesso da Pele empolgou o encenador. “Fiquei impressionado pelo entrosamento e pelo talento dos quatro atores. Facilitou o trabalho o fato de eles trabalharem em grupo, porque tivemos menos de dois meses de ensaios”, conta Falcão. Além de Alexandre Ammano, Bruno Rocha, Marcos Oli e Vitor Britto, a peça conta com a presença afetiva de Agnes Brichta, filha de Vladimir, um dos Antônios na montagem original. “Entre as concorrentes para o papel, ela contava com minha preferência, mas foi o coletivo que bateu o martelo.”

Alexandre Ammano, Bruno Rocha, Marcos Oli, Vitor Britto e Agnes Brichta integram o elenco de 'A Máquina'. Foto: Flora Negri/Divulgação

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Falcão construiu uma arquibancada em forma de arena especialmente para a encenação, daí a necessidade de um espaço não convencional, como do Teatroiquè, antigo estúdio de gravação. No centro do espaço, os cinco atores são responsáveis pela movimentação com os pés do palco circular giratório. “A ideia de um palco giratório foi uma das primeiras que tive”, conta o encenador. “Até pensei em algo movido por um motor, mas isso seria um absurdo em uma história cujo motor é um homem - o palco tinha de ser movido por ele.”

A fábula escrita por Adriana Falcão aposta no homem comum que transforma o mundo por amor. O enredo se passa na fictícia cidade de Nordestina, um lugar sem recursos do interior do Brasil, onde todos os habitantes sonham partir um dia. Ali, “o tempo andava espaçoso por não ter quem lhe interrompesse em momento importante”, narra Adriana, cuja linguagem literária retrabalha poeticamente a fala nordestina.

Só uma pessoa não quer deixar a cidade: o jovem Antônio, o número 19 na folha de pagamento da prefeitura local, que não considera sua vida besta por estar apaixonado por Karina que, como toda moça bonita, deseja ser atriz de televisão.

“É o mundo que você quer? Então eu trago para você”, diz Antônio, que deixa Nordestina em uma máquina para viajar no tempo criada por ele. Seu objetivo é antecipar para a amada o ambiente que vai encontrar.

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'A Máquina' é encenada em um palco giratório. Foto: Flora Negri/Divulgação

Detalhe importante: escrita em 2000, a peça apontava como futuro justamente 2025. Agora, o ano distante é 2050. “Na versão inicial, o mundo do futuro era feio, injusto, sujo e desengonçado, e Antônio voltava com a missão de tentar consertar o presente para evitar o caos”, conta Falcão. “Agora, ele encontra, em 2050, uma sociedade maravilhosa e, ao retornar, quer convencer as pessoas a trabalharem para o planeta realmente se transformar naquilo que ele descreveu.”

João Falcão acrescentou pequenas atualizações no texto, como referências às redes sociais e à inteligência artificial, “um negócio que filma a pessoa fazendo o que ela não fez”, segundo Antônio. A evolução social nesses 25 anos foi mais perceptiva. “Em 2000, havia apenas um protagonista negro, o Lázaro Ramos, o que já era um fato. Hoje, o quarteto é formado por negros. Outra novidade foi dar mais protagonismo para a personagem feminina, a Karina. Mas basicamente o texto continua atual, com uma perspectiva pessimista do futuro como um aviso para nos preocuparmos com nossos hábitos de hoje”, diz o diretor.

Um dos grandes trunfos da primeira versão de A Máquina - a concepção artística - foi preservada. No centro da arena, os atores se revezam entre narrar e representar a história do amor de Antônio por Karina.

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Como o espaço é dividido em quatro partes, os espectadores também ocupam quatro arquibancadas distintas. E, diante delas, se posiciona um Antônio diferente, contando e criando a seu modo o personagem central. Como em um jogral, eles repartem as frases, com um iniciando, dois continuando e o quarto concluindo, sem quebrar o ritmo.

Escrita por Adriana Falcão, 'A Máquina' tem direção de João Falcão. Foto: Flora Negri/Divulgação

“Facilita termos construído uma amizade em que a comunicação acontece apenas com o olhar”, conta Alexandre Ammano. “E, como João é muito musical, o corpo se movimenta como se seguisse uma partitura”, completa Marcos Oli.

Para isso, a preparação seguiu uma sequência ferrenha. “Tivemos treinos físicos diários para acordar o corpo”, conta Vitor Britto. A finalidade é trazer um frescor para um espetáculo que já foi um sucesso. “Temos imenso respeito pela criação do grupo inicial, mas agora é a nossa vez de criar um novo ciclo”, defende Bruno Rocha.

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Participante da montagem de 2000, Gustavo Falcão assina agora a codireção e a preparação corporal. “Logo no primeiro dia de ensaio, toda aquela movimentação voltou à minha memória, como se não tivessem passado 25 anos”, comenta, saudoso. Outro elo com o passado é Agnes Brichta, motivada por atuar no espetáculo que ajudou a projetar o pai. “É uma alegria e um desafio fazer com que mais pessoas conheçam essa história e sua poesia leve, sua linda mensagem de amor”, afirma.

A fábula de Antônio e Karina ainda mexe com as lembranças do elenco original. “Pensávamos muito sobre qual era o futuro que queríamos construir”, comenta Lázaro Ramos, surpreso, como os colegas de palco, com a enorme repercussão. “De repente a gente estava no mundo, A Máquina trouxe o mundo para a gente”, afirma Wagner Moura.

A Máquina - Serviço

  • Até 14 de dezembro. Quinta e sexta, às 21h. Sábado, às 18h e 21h. Domingo, às 18h
  • Onde: Teatroiquè (R. Iquiririm, 110 - Vila Indiana, São Paulo - SP)
  • Ingressos: R$150 (Inteira) e R$75 (meia), no Sympla
  • Classificação Livre
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