O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central terá uma reunião particularmente difícil na semana que vem, na terça e quarta-feira. A vitória de Lula no segundo turno foi acompanhada de piora nos mercados, e o presidente reeleito não sinalizou até agora que fará o ajuste fiscal que os investidores consideram necessário. O dólar, que estava perto de R$ 5,00, foi para algo como R$ 5,40, e a curva de juros passou a embutir alta da Selic à frente.
Nas reuniões recentes do Copom, havia um consenso razoável sobre o que o BC faria. Foram cinco cortes seguidos de 0,25 ponto porcentual, o último em setembro, que levou a Selic a 13,75%. Desta vez, a própria decisão está em aberto, e o mercado já olha em outra direção.
"Hoje o mercado precifica basicamente 150 pontos-base de alta em 12 meses", nota um profissional do mercado financeiro ouvido pela coluna.
Houve uma série de choques nas últimas semanas, a começar pelo câmbio, que pioraram o cenário inflacionário. Os preços dos combustíveis estão defasados e, em algum momento, terão de ser atualizados. E há medidas com impacto inflacionário aprovadas ou anunciadas ao longo do processo eleitoral, como a PEC que acaba com a escala 6 por 1 (que eleva o custo do trabalho), o aumento do Bolsa Família e programas menores, como o crédito para microempreendedores individuais (MEI).
"Fica claro que o BC está por conta própria para enfrentar a inflação", diz um gestor.
A grande questão para a reunião é quanto vai subir a projeção de inflação do modelo do BC no chamado horizonte relevante, isto é, o período de cerca de um ano e meio à frente no qual a política monetária tem efeito sobre os preços. A projeção para 2027 pode subir consideravelmente, e o Copom já mira um pedaço de 2028. Há também a dúvida sobre se os novos choques entrarão no cenário central do BC ou apenas no balanço de riscos. E o boletim Focus da próxima segunda-feira pode trazer expectativas de inflação de médio prazo piores.
Na prática, há dois caminhos. O primeiro é manter a Selic em 13,75%. O segundo é um último corte de 0,25 ponto, com a sinalização de que o ciclo se encerra, o que os economistas chamam de corte "hawkish" (duro). O gestor mencionado acima considera mais provável a manutenção; o profissional do mercado citado no início desta coluna vê chance de mais um corte antes de o BC parar para observar. Em ambos os casos, a ideia é esperar para ver qual será a resposta de política econômica do quarto mandato de Lula.
Tão importante quanto a decisão será a linguagem. Se o Copom disser que parou, estará indicando que o próximo movimento pode ser para cima. Se disser que fez uma pausa, sugere que pode retomar os cortes mais adiante.
Na visão do gestor, é bem possível que o BC opte pela segunda formulação, justamente para afastar do debate do mercado a discussão sobre quando a Selic vai subir, que é, na sua visão, a última coisa que a diretoria gostaria de ver em pauta. Mas a realidade pode não colaborar. Os próximos 45 dias, até a reunião de dezembro, tendem a trazer um ambiente inflacionário bem mais desfavorável, e uma pausa agora pode virar o fim definitivo do ciclo de cortes.
Um detalhe é que a alta da curva de juros já está fazendo parte do trabalho do Banco Central, sem que ele precise elevar a Selic. Mas se o Copom cortar e sinalizar pausa, a curva deve "empinar": os juros caem na parte curta, até cerca de um ano e meio, e sobem nos prazos mais longos. É o mercado dizendo que o alívio de agora pode significar inflação mais alta adiante.
No fundo, porém, o BC pouco pode fazer sozinho. Para o juro cair de forma sustentável, é preciso ajuste fiscal, e até agora o governo não sinalizou disposição de fazê-lo. Desde a campanha, e também depois dela, Lula não deu sinais de que pretende enfrentar o problema.
A expectativa agora se volta para a escolha do ministro da Fazenda para o quarto mandato. Os nomes mais citados até agora, supondo que o atual ministro, Dario Durigan, não fique, são o do vice-presidente Geraldo Alckmin e o do governador do Piauí, Rafael Fonteles. Uma boa indicação pode acalmar os mercados por alguns dias, mas os investidores querem ver ação. Os dois são de fato políticos com mais facilidade de diálogo com o mercado do que o presidente, mas dificilmente terão carta branca: a chave do fiscal continua nas mãos de Lula.
Enquanto isso, o País vive num equilíbrio tênue, em que é preciso muito juro para segurar o câmbio. O Brasil combina juros altos, déficit elevado e uma dívida de prazo curto, o que obriga o Tesouro a emitir anualmente um volume de títulos, em proporção ao tamanho da economia, sem paralelo entre outros países. Fechar essa conta depende em boa parte do investidor estrangeiro, atraído pelo diferencial de juros.
Por ora, o ambiente externo ajuda. Os investidores globais seguem positivos com os emergentes, e os preços elevados das commodities favorecem o Brasil. Mas os mercados alternam fases de busca por rentabilidade e fases de busca por segurança. Se o humor com os emergentes virar, ou se a economia global fraquejar, a piora pode ser rápida, e o espaço do Banco Central para conter sozinho os estragos ficará ainda menor.
Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras
Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 30/10/2026, sexta-feira.



