Chama o "VAR" na economia e discute como tornar o Brasil melhor

Chama o "VAR" na economia e discute como tornar o Brasil melhor

Peça soberania: episódio na Venezuela servirá para justificar os mais variados lobbies no Brasil

Para além do oportunismo, um país pode até tentar fazer tudo, mas não vai conseguir fazer bem

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Foto do autor Pedro Fernando Nery

Foi acertada a decisão de tirar R$ 5 bilhões para a Defesa do limite de gastos, não queremos forças sucateadas como as da Venezuela estavam. Foi correta a salvação de R$ 12 bilhões para os Correios aprovada pelo Tesouro, o Brasil precisa de uma empresa forte em logística, e não depender das competidoras estrangeiras que, aliás, estão mapeando todo nosso território. São imprevisíveis as consequências do episódio na Venezuela, mas é previsível que será usado fartamente para justificar os mais variados lobbies.

Faz mais sentido ainda subsidiar data centers ou gastar bilhões em uma IA nacional - afinal, a captura de Maduro foi feita junto com um ciberataque: soberania digital é questão de defesa nacional. Fizemos bem em não reformar a previdência dos militares: um bom sistema de aposentadoria é fundamental para evitar a corrupção e o entreguismo, ou você acha que os EUA não tiveram colaboração dos militares venezuelanos? Aliás, será mesmo o momento de liquidar o Master, um banco totalmente nacional, diante das tensões internacionais? Sabemos que no Pix os gringos já estão de olho.

Mural em Caracas mostra imagens de um navio de guerra e aviões militares  Foto: Federico Parra/AFP

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Soberania já era uma palavra onipresente nos últimos anos, primeiro com a pandemia, depois com as tarifas e a Magnitsky. Soberania para dar dinheiro a um setor que não é competitivo (porque ele precisa começar a existir), soberania para dar dinheiro a um setor que já é competitivo (porque não podemos perdê-lo).

Aqui até produtores de soja pedem soberania - para pressionar contra normas ambientais. Em 2025, 63 projetos foram apresentados na Câmara com as palavras “soberania” e “indústria”. É 10x mais do que 4 anos antes.

Soberania para dar incentivos a mineradoras, para garantir gastos com audiovisual. Para que o governo compre uma empresa privada falida (a Avibras). Para criar o seguro-seringueiro. Para proteger pecuaristas da carne de laboratório. Soberania para leite em pó, profissionais de TI, sardinha em conserva, queijo mussarela, caminhoneiros e motoristas, alimentos hipoalergênicos.

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É impossível tanta soberania. Para além do oportunismo, um país pode tentar fazer tudo, mas não vai conseguir fazer bem. O país generalista competirá em cada setor com quem está especializado, que no mínimo goza de escala. Mesmo a China importa 17% do PIB, os EUA importam 14% do PIB.

Até a taxa das blusinhas tem sido defendida por soberania, um caso raro em que a população percebe que a soberania para o empresário pode ser custo para o pobre. Em outros casos é mais complexo: o soberano está no meio da cadeia ou vendendo para o governo (ex: soberania sanitária).

Soberania é o novo estratégico, soberania é o novo efeito multiplicador. Se vier a Brasília, já sabe o que pedir. Peça soberania.

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Opinião por Pedro Fernando Nery

Professor de economia do IDP. Autor do livro "Extremos - Um Mapa para Entender as Desigualdades no Brasil"