PUBLICIDADE

Petrobras terá papel central na transição energética e seguirá explorando petróleo, diz Gabrielli

Ex-presidente da estatal destaca que, além da área petrolífera, empresa deve liderar a produção de biocombustíveis e hidrogênio verde

PUBLICIDADE

Lula precisará dar forte guinada na economia para evitar que disparada do dólar vire uma recessão

Risco é de que piora financeira force o Banco Central a subir a taxa básica de juros.

Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

Gerando resumo

Foto: Tasso Marcelo
Entrevista comJosé Sergio GabrielliEx-presidente da Petrobras e coordenador do programa econômico de Lula

RIO - A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve fortalecer o papel da Petrobras como instrumento de desenvolvimento do País, com maior protagonismo na transição energética, sem abrir mão da exploração e produção de petróleo e gás natural nos próximos quatro anos. A avaliação é de José Sergio Gabrielli, presidente que permaneceu por mais tempo à frente da estatal, entre 2005 e 2012.

Em entrevista ao Estadão/Broadcast, Gabrielli, que coordenou a elaboração do programa econômico da quarta campanha de Lula, fala que o fortalecimento da Petrobras também deve impulsionar os investimentos no País e viabilizar políticas tributárias para reduzir os impactos de crises internacionais sobre os preços domésticos dos combustíveis. Um exemplo, segundo ele, é o imposto de exportação adotado diante da alta do petróleo em meio à guerra dos Estados Unidos contra o Irã.

Gabrielli afirma que a taxação deve ser mantida enquanto os preços internacionais do petróleo permanecerem em patamares elevados. “Mas, se for para US$ 60/US$ 70 (o barril), é outro cenário”, disse o economista. A seguir, os principais pontos da entrevista:

Publicidade

Quais são os planos do governo reeleito para o setor de energia e qual a diferença em relação ao programa do partido adversário nessa eleição?

Se você pegar o programa dele (Flávio Bolsonaro), não tinha nenhuma proposta para a Petrobras, por exemplo. E um programa de energia que não considerava a Petrobras é um programa completamente fora de sentido. O nosso programa, ao contrário, fortalece a Petrobras, aumenta o papel da Petrobras na transição energética e viabiliza um processo tanto de investimentos quanto de políticas tributárias que minimizem o impacto sobre o preço doméstico das situações internacionais, como aplicado agora pelo governo.

O sr. se refere ao imposto de exportação?

Sim, você tem os 12% de imposto sobre exportações, que retira parte da margem da renda do petróleo para o Estado, e pega esse recurso e banca a redução da velocidade do preço doméstico. Uma guerra louca feita por Trump (Donald, presidente dos EUA) contra o Irã, no Estreito de Ormuz, fez com que o mundo inteiro entrasse em crise. E isso praticamente passa despercebido no Brasil. Vários países sofrendo e o Brasil passando ao lado.

Então o imposto de exportação veio para ficar?

Não. É claro que, enquanto o petróleo estiver a US$ 115, nós vamos manter essa política. Quando for para US$ 60/US$ 70 (o barril), é outra coisa.

Publicidade

E quais são os planos para a Petrobras? Muda alguma coisa?

A Petrobras tem de aumentar o seu papel na transição energética. Isso significa que a Petrobras não necessariamente vai produzir energia eólica e solar, mas vai avançar em processos que permitam o aumento da descarbonização da indústria brasileira.

E como a estatal pode liderar a transição energética?

Isso significa que nós vamos avançar na produção de SAF (combustível de aviação sustentável), nós vamos avançar na produção de HVO (hidrogênio verde), nós vamos avançar na produção de biocombustíveis e vamos avançar nos derivados de hidrogênio mais tarde.

E o etanol? A empresa anunciou que iria entrar na produção, mas ainda não fez movimentos nesse sentido.

Quando eu falo biocombustíveis, eu incluo biodiesel e etanol. Claro que o etanol tem um papel importante, inclusive para a produção de SAF. A Petrobras, portanto, vai escolher projetos, evidentemente, que têm de ser rentáveis para ela, mas que elevem a presença dela nesses setores. Para diversificar a atividade econômica e prepará-la para o futuro, para uma economia mais verde no futuro.

Publicidade

Ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli Foto: André Dusek|Estadão

Quais outros pontos da política energética devem ter mais atenção nos próximos anos?

Vamos ter de dar uma olhada na estrutura da energia elétrica. A energia elétrica brasileira está vivendo um processo de muito aumento da capacidade geradora de energia eólica e solar, e esse aumento da capacidade, que ocorreu principalmente no Nordeste, não encontra demanda suficiente para manter essa energia intermitente funcionando.

E como resolver esse descasamento de oferta e demanda?

Nós temos de estimular a introdução de indústrias eletrointensivas que utilizam essa energia no Nordeste, o que significa estimular data centers, estimular hidrogênio, complexo de hidrogênio, que usa o hidrogênio, que são eletrointensivos, estimular a substituição na siderurgia do gás natural por hidrogênio e o avanço de produção de aço verde, produção de cimento verde, para aumentar a descarbonização da indústria, mesmo que nós consideremos que o problema de mudança climática no Brasil não vem da indústria nem vem da energia.

Na sua avaliação, de onde vêm os problemas das mudanças climáticas no País?

Os problemas fundamentais da mudança climática no Brasil vêm do desmatamento, que a gente já está controlando há quatro anos, vem reduzindo o desmatamento há quatro anos, e batemos, agora em 2026, o recorde de redução de desmatamento. E aí volta-se para o outro lado da questão, que é o lado da agroenergia. A agroenergia é a salvação do agronegócio.

Publicidade

E como o governo pretende estimular a agroenergia?

PUBLICIDADE

Você tem a política de aumentar o legado de biodiesel, de aumentar o legado de etanol na gasolina, de viabilizar a expansão do SAF. O que significa que você está preparando alternativas para o uso de produtos agrícolas que adicionem valor à economia brasileira.

Então, quais seriam os principais pontos da política energética do governo Lula 4?

Temos uma série de iniciativas legislativas que precisam agora ser coordenadas de tal maneira que haja o mínimo de contradição entre essas diversas políticas energéticas. Então, nós vamos precisar ter uma maior gestão sobre os detalhamentos dessas políticas agora em 2027.

Isso significa fortalecer o Ministério de Minas e Energia?

Isso significa o fortalecimento do Ministério de Minas e Energia e a criação de mecanismos de fortalecimento do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE).

Publicidade

Como o sr. vê então o setor de energia nesses próximos quatro anos do governo Lula?

Intensificação da descarbonização; aumento do papel da importância da Petrobras como uma empresa âncora da transição energética brasileira; consolidação do desenvolvimento da Margem Equatorial e novas atividades exploratórias para manter a Petrobras na área petrolífera por mais tempo, ao mesmo tempo em que cresce na área de renováveis, e minimizar o impacto disso sobre os consumidores brasileiros.

Vale ler também
Alexandre Chiavegatto Filho
Lula 4.0 e a Indústria 4.0: como a inteligência artificial vai impactar o novo governo
Ricardo Basaglia
Ninguém é promovido pelo problema que não aconteceu
Coluna da Broadcast
Mercado vê oferta de ações voltarem apenas após sinalização de ajuste