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Celular, bagunça e falta de atenção: nota baixa recorde de países ricos expõe crise de aprendizagem

Pisa 2025, feito pela OCDE, mostra que aprendizagem dos adolescentes despenca em um mundo cada vez mais digital e transformado pela inteligência artificial

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Foto do autor Renata Cafardo
Foto do autor Paula Ferreira
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Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

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SÃO PAULO e BRASÍLIA - A aprendizagem dos adolescentes de 15 anos no mundo despencou a índices jamais vistos. Desde a criação da maior avaliação internacional de estudantes em 2000, feita pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Pisa, as notas de todas as áreas avaliadas - Leitura, Matemática e Ciências - não tinham sido tão baixas, em especial nos países ricos. Os dados foram divulgados nesta terça-feira, 8, em Paris. Os resultados do Brasil mostram estagnação.

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No relatório do Pisa 2025, a OCDE afirma que as quedas de desempenho refletem perda de concentração e atenção dos estudantes - além da diminuição do hábito da leitura - em um mundo cada vez mais digital e transformado pela inteligência artificial. E continua: “a prática de percorrer rapidamente os feeds das redes sociais e processar informações em alta velocidade pode estar contribuindo para a piora da capacidade e da motivação dos estudantes para lidar com textos e dados complexos”.

Participaram da prova 760 mil estudantes de 15 anos de 91 países, entre membros da OCDE e convidados, como o Brasil.

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Queda global de desempenho reflete perda de concentração e atenção dos estudantes, aponta a OCDE. Foto: JackF/Adobe Stock

Os resultados indicam que 20% dos estudantes de 15 anos das nações mais ricas do mundo têm baixo desempenho nas três áreas — eram 16% em 2022. São jovens, que segundo o secretário geral da OCDE, Mathias Cormann, diz no texto introdutório, “não têm as habilidades básicas necessárias para ter sucesso na educação superior, no mercado de trabalho e na vida cotidiana”.

A maior queda foi em Leitura, que ocorreu em três quartos dos sistemas educacionais do mundo entre 2018 e 2025. O resultado é preocupante porque a disciplina é necessária para bom desempenho em todas as áreas.

Nações como Dinamarca, Noruega, Espanha e Suécia tiveram quedas de mais de 20 pontos desde a última edição, o que significa um ano de aprendizagem. No Brasil, cujos alunos já estavam em baixos índices de aprendizagem, foram 2 pontos.

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“Em Leitura, o avanço da digitalização, o aumento do tempo diante das telas e a queda na frequência da leitura por prazer ocorreram simultaneamente a resultados mais fracos em alfabetização”, diz Cormann.

Já o diretor de educação e habilidades da OCDE, Andreas Schleicher, afirma que “o futuro não pertence apenas àqueles que conseguem acessar informações, mas àqueles que podem interpretá-las, conectá-las e atribuir significado a elas”. “Se as máquinas dominarem cada vez mais as tarefas rotineiras, a educação terá de apostar ainda mais naquilo que é inequivocamente humano”.

E então ele cita a reflexão, a solução dos problemas, a capacidade de construir e navegar por relações sociais complexas e de fazer julgamentos éticos quando os dados não são suficientes. “Essas não são soft skills. São habilidades de sobrevivência na era digital”, enfatiza em seu texto.

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Quem está no topo também caiu

A China - representada nessa edição pelas províncias de Pequim, Xangai, Jiangsu e Zhejiang - lidera os rankings de Matemática e Ciências no mundo, com 612 e 587 pontos. Em Leitura, Singapura lidera, com 535 pontos.

Outras economias da Ásia Oriental — como Japão, Coreia, Macau e Taipei (Taiwan) — aparecem sempre no top 10. Entre os europeus, Estônia e o Reino Unido figuram entre os melhores resultados - seguidos de Canadá e Nova Zelândia. Todos os países do topo, no entanto, registraram queda em Leitura, exceto o Reino Unido, que ficou com a mesma nota.

O Brasil, apesar de resultados considerados abaixo do básico, é apontado no relatório como um país que se manteve “estável”. Os brasileiros ficaram na 52ª posição em Leitura, a mesma que obteve na edição passada, com 408 pontos.

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Considerando os países latino-americanos e caribenhos que participaram, em média seis em cada dez estudantes estão abaixo do nível 2 de leitura. A maior parte dos países também reduziu a pontuação em comparação com 2022.

“O Pisa 2025 mostra que a leitura atravessa uma deterioração que excede a América Latina: é a área que mais retrocedeu globalmente nos últimos anos. A diferença é que nossa região enfrenta essa tendência a partir de níveis de aprendizagem muito mais baixos”, analisa Romina Durán, Chefe de Pesquisa e Dados no Instituto de Evidência Educacional, que trabalha o cenário da educação na América Latina.

Ela acrescenta que é preciso acelerar a transformação para dar conta dos obstáculos:

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“O desafio não é apenas recuperar o que foi perdido, mas garantir competências leitoras que hoje são ainda mais importantes para aprender, avaliar informação e se desenvolver em um mundo atravessado pela tecnologia e pela inteligência artificial”, diz.

Em Ciências, o Brasil aumentou sua nota em seis pontos, mas ficou em 67º com 409, empatado com o Azerbaijão; em 2022, estava em 61º. Na Matemática, ocupa agora a 71ª posição global, empatado com o Líbano - era 65º em 2022. É o pior desempenho do País, que está a uma distância de 86 pontos em relação à média da OCDE.

O Pisa não tem escala máxima ou mínima de pontos. As nações são divididas em uma média de aproximadamente 500 pontos, com desvio-padrão de 100 no exame.

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É possível exemplificar a crise de aprendizagem com resultados de países ricos que mudaram de posição no ranking: Portugal estava com desempenho na média da OCDE em 2022 e em 2025 caiu para abaixo da média em Matemática. França e Espanha se posicionavam acima da média na mesma disciplina e agora estão com nota inferior à média dos países desenvolvidos. Noruega caiu da média para abaixo da média em Leitura.

Em 2025, o Pisa inaugurou a disciplina Resolução de Problemas Computacionais dentro do novo domínio “Aprendizagem no Mundo Digital”. Em vez de simplesmente testar a habilidade instrumental de usar computadores ou softwares, a avaliação foca na capacidade de raciocínio lógico, algorítmico e pensamento sistêmico dos estudantes.

A ideia é medir a capacidade de autorregulação ao construir conhecimento e resolver problemas práticos utilizando a lógica de programação. O Brasil ficou com 406 pontos, bem abaixo da média da OCDE, em 69º.

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Respostas com pressa e erros

O Pisa mostra dificuldades crescentes em tarefas que exigem engajamento sustentado e uma tendência maior para o que a OCDE chama de “respostas precipitadas”, aquelas dadas com pressa e frequentemente erradas. Entre 2018 e 2025, os casos em que os estudantes leram rapidamente, mas responderam de forma incorreta, quase dobraram. Há ainda enfraquecimento da curiosidade e da perseverança dos alunos.

A indisciplina na sala de aula, relatada como crescente por diretores e também outras avaliações internacionais, contribui para o cenário de dificuldade de aprendizagem. “Mudanças nos hábitos de leitura, uso mais intenso de dispositivos digitais, maior absenteísmo, menor apoio familiar e os efeitos remanescentes da pandemia remodelaram o contexto social em que os jovens aprendem”, completa o relatório da OCDE.

Apesar dos resultados mais significativos em Leitura, esta edição foi focada em Ciências - isso quer dizer que há mais interpretações para a área.

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As médias mais baixas registradas até então tinham sido na última edição da prova, feita em 2022, com impactos da pandemia e das escolas fechadas no mundo todo.

No primeiro ano em que o Pisa foi aplicado, em 2000, havia apenas a área de Leitura para todos os países participantes e a média da OCDE foi de 500. Ela chegou a aumentar ao longo dos anos até 2012 e depois começou a cair, chegando em 2025 a 466. Schleicher chama o movimento de “erosão contínua das habilidades de Leitura”.

Algo semelhante aconteceu com Matemática, que também passou a ter o desempenho reduzido em 2015. Em 2003, no primeiro ano que a área foi avaliada, a nota média da OCDE era de 502 pontos, agora está em 469. Entre os países da OCDE, a média na disciplina caiu 22 pontos entre 2015 e 2025 — o equivalente a pouco mais de um ano de aprendizagem.

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Pesquisadores como Jonathan Haidt, de A Geração Ansiosa, chamam a atenção para 2015 como o ano em que os smartphones passaram a ser introduzidos na sociedade. Para ele, esse seria um dos fatores mais relevantes para a queda de aprendizagem - além de indução ao vício e impactos na saúde mental das crianças e adolescentes.

A Ciências foi avaliada pela primeira vez em 2006, com uma média 503 - nesta edição de 2025 está em 486 pontos.

Além da queda nas notas, o Pisa revela que, entre 2022 e 2025, houve redução de desigualdade nos resultados, mas principalmente porque os estudantes de classes mais altas pioraram, e não porque os mais vulneráveis avançaram. “Pode contrariar as expectativas, mas os estudantes de famílias relativamente mais ricas foram os que tiveram a maior queda na capacidade de leitura”, diz o relatório.

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Aprender coisas é chato?

Desde 2022, a parcela de estudantes que afirma categoricamente que aprender coisas novas é chato aumentou em quase todos os países. Nos países da OCDE, a média é de 16%. Além das provas, o Pisa faz também questionários sobre o comportamento dos adolescentes.

O Pisa também aponta para perda de curiosidade entre os alunos. Entre 2022 e 2025, quatro dos cinco indicadores de curiosidade analisados caíram na maioria dos países. O resultado mais expressivo aparece na percepção sobre o aprendizado: em 60 sistemas educacionais, diminuiu a parcela de estudantes que discordam da afirmação de que “aprender coisas novas é entediante”. Em nenhum lugar ocorreu o movimento contrário — ou seja, em nenhum deles aumentou a parcela de jovens que dizem não achar entediante aprender coisas novas.

Além disso, o desempenho dos estudantes caiu ao longo de toda a avaliação de Leitura, mas de forma mais acentuada nas partes finais do teste do que nas iniciais. Isso sugere que a atenção, a persistência ou a confiança dos alunos diante de tarefas difíceis diminuiu à medida que o teste avançava.

Em média, as meninas e os estudantes de maior nível socioeconômico relatam níveis mais altos de curiosidade do que os meninos e os estudantes em situação mais vulnerável.

Em relação à perseverança, cerca de um terço dos estudantes dos países da OCDE afirma que desiste de fazer a lição de casa quando ela é muito longa. Essa parcela aumentou em quase todos os sistemas desde 2022.