Entenda o pré-teste do Enem
Como as questões são testadas antes em provas diferentes para calibrar o nível de dificuldade. Crédito: Renata Cafardo/Estadão
Candidatos que fizeram o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) passaram a denunciar nesta terça-feira, 18, uma suspeita de vazamento da prova porque um professor do Ceará teria “previsto” questões feitas no domingo, 16. O professor citado é Edcley S. Teixeira, que também é aluno de Medicina e vende pacotes com monitorias para candidatos do Enem. Em suas postagens nas redes sociais, ele mostra a semelhança entre as perguntas e dá explicações para seu método de estudo para antecipar o conteúdo da prova, que ele chama de “engenharia reversa”.
Na tarde desta terça, após repercussão do caso, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) anulou três questões do Enem 2025 porque identificou que seriam “similares” a divulgadas em redes sociais. “Nenhuma questão foi apresentada tal qual na edição de 2025 do exame. Na divulgação observada nas redes sociais, foram identificadas similaridades pontuais entre os itens”, disse o Inep, em nota. A Polícia Federal foi acionada.
O Inep não informou quais são as questões anuladas. O Estadão tentou entrar em contato com Teixeira, mas ele não retornou.
Uma das questões divulgadas tem uma pergunta sobre fotossíntese oxigênica e a resposta certa é “água” tanto na escrita pelo professor, quanto no Enem verdadeiro. Outro item fala do parcelamento de uma compra de R$ 60 mil em seis vezes. O enunciado na prova oficial é semelhante e usa exatamente os mesmos números.
Uma das explicações que Teixeira dá em seus posts é de que ele teria participado de uma avaliação do MEC para calouros de Medicina, chamada Prêmio Capes Talento Universitário. Segundo ele, as questões eram parecidas com o padrão do Enem. Por causa disso, ele teria memorizado algumas perguntas e, com ajuda de outros amigos que também fizeram a prova, montado questões para seus alunos estudarem.
Seus materiais, em PDF ou em lives, aos quais o Estadão teve acesso, afirmam que “essas questões estarão no Enem” ou “inéditas conseguidas por Edcley Teixeira”. Em uma live (transmissão) no dia 11 de novembro, ele e um colega, apresentaram e resolveram 90 questões, chamadas de “minhas apostas para o Enem”.
O vídeo teve 40 mil visualizações. Uma das primeiras perguntas mostradas é muito parecida com a questão 178 (prova amarela), que menciona a compra de R$ 60 mil. Pelo menos outras quatro questões da live eram muito parecidas com o Enem de domingo.
Segundo o Estadão apurou, a prova feita pela Capes, mencionada por ele, realmente utiliza algumas questões para realizar uma espécie de pré-teste do Enem. Essa é uma informação que deveria ser sigilosa, que o MEC não confirma oficialmente.
A metodologia do exame, que usa a Teoria de Resposta ao Item (TRI), pressupõe justamente que as questões sejam testadas antes de serem usadas.
Desde que foi criado como um vestibular, em 2009, as perguntas do Enem são feitas por professores de universidades federais e, depois, precisam ser aplicadas a pessoas com perfil semelhante aos estudantes do ensino médio - no caso da prova da Capes são calouros de universidade, alunos que acabaram de concluir a escola.
Dessa forma, é possível calibrar o nível de dificuldade de cada questão, a capacidade que ela tem para discriminar os candidatos e a probabilidade de acerto ao acaso. Depois disso, elas são colocadas em posições diferentes da escala do Enem, que em geral fica entre 400 e mil pontos, conforme a dificuldade.
A partir desse banco de itens já pré-testados, são escolhidas as questões que farão parte de cada prova. Perguntas consideradas ruins pelos técnicos do Inep são eliminadas. E há ainda outras que não foram pré-testadas e o próprio Enem é usado como teste.

De acordo com o edital da prova da Capes, o exame é realizado digitalmente em computador, em locais selecionados pelo órgão. É expressamente mencionado que a prova não poderá ser realizada na casa do candidato e que a folha de rascunhos usada pelo aluno também deve ser entregue para o aplicador no final do exame.
A prova foi feita em maio, com 80 questões de conhecimentos gerais e premiou com R$ 5 mil os melhores colocados. Teixeira foi um deles.

Vazamento da prova em 2009 e do pré-teste em 2011
Em 2011, o pré-teste do Enem também esteve envolvido numa outra polêmica. Um professor do Colégio Christus, em Fortaleza, distribuiu um caderno de exercícios aos vestibulandos com questões que tinham sido usadas no pré-teste no ano anterior. A escola tinha sido usada para aplicação do pré-teste.
Após a denúncia, que foi investigada pela Polícia Federal, o Inep anulou 14 questões do Enem para 1.139 alunos do 3.º ano e do cursinho pré-vestibular do Christus. Os itens entregues aos estudantes da instituição eram idênticos ou parecidos aos que caíram na prova.
Em 2009, o Estadão denunciou que a prova foi roubada da gráfica onde era impressa e o Enem foi anulado para todos os 4 milhões de candidatos dias antes de ser aplicado. Em seus posts, Teixeira menciona o livro O Roubo do Enem (Editora Record), que conta a história, afirmando que a obra falaria sobre a prova da Capes, o que não é verdade. O livro, da jornalista Renata Cafardo, apenas detalha como funciona o pré-teste.
“Com minha experiência e método validado, ou te guiar em cada passo dessa jornada rumo ao tão sonhado jaleco”, diz o post de Teixeira, ao vender seu curso de monitoria para o Enem. Na live e nos materiais em PDF, ele ainda mostra uma questão sobre intensidade sonora que fala do grito de gol em um estádio de futebol e outra de Biologia, sobre os ciclos da vacina, ambas caíram de forma muito parecida no domingo.
A aplicação do Enem de 2025 terminou no domingo, 16. O Inep informou que aproximadamente 70% dos mais de 4,81 milhões de inscritos compareceram aos dois domingos de provas.

