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Os juros futuros longos abriram em alta de quase 3 pontos percentuais na primeira segunda-feira, 26, após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva para seu quarto mandato como presidente da República. Na sexta-feira, 23, quando o mercado precificava uma vitória do senador Flávio Bolsonaro, os juros DI (Depósito Interfinanceiro) com vencimento em janeiro de 2035 fecharam em 12,65%. Nos primeiros minutos destaa segunda-feira, passaram para 15,37%. A reação mostra a preocupação com a sustentabilidade da trajetória da dívida pública, estimada em 86% do Produto Interno Bruto (PIB) para 2027.
Para o investidor de renda fixa, a reação mais imediata é aumentar o dinheiro de curto prazo, em títulos atrelados à Selic ou ao CDI, até que o novo governo Lula indique os próximos passos para resolver a questão fiscal.
“A gente tem que aguardar. Está muito cedo ainda, a gente não pode agir na emoção”, diz Paulo Saad, sócio-fundador da WFlow Invest.
Na contramão do consenso, porém, travar taxas em títulos longos atrelados à inflação justamente quando o mercado cobra prêmio maior também pode render bons resultados no futuro, mas tudo vai depender da disposição ao risco do investidor.
50% em liquidez até o governo sinalizar a política fiscal
Caso o governo mostre disposição para estabilizar a dívida pública e traga metas fiscais críveis, o mercado poderá reduzir o prêmio de risco futuro, e isso abre espaço para a queda de juros. Por outro lado, se a mensagem for de aumento persistente de gastos, sem financiamento sustentável, a tendência será de inflação e dólar pressionados. “E isso exige juros elevados por mais tempo.” O câmbio abriu a segunda-feira com valorização de mais de 12%, a R$ 5,60.
Para os especialistas, manter em caixa pelo menos 50% em liquidez seria a melhor forma de esperar para entender o cenário que virá, num cenário em que o Brasil se consolida como o país de juro real mais alto do mundo.
“Claro que respeitando o suitability (análise de perfil), respeitando todos os perfis que cada um possui de risco”, pondera Gabriel Redivo, sócio e diretor de gestão da Aware Investments.
Neste cenário desafiador, ter até 20% da carteira em títulos de Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) mais longos poderia fazer sentido. Mas tudo depende do perfil do investidor.
Tesouro IPCA+ de menor prazo também faz parte, já que protege a carteira da inflação com menos volatilidade de curto prazo na chamada marcação a mercado.
Travar IPCA+ longo pode fazer sentido
Na visão da analista de renda fixa da Empiricus Laís Costa, um papel de IPCA+ de 20, 30 anos pagando taxa real próxima de 7% deixa o investidor numa situação “confortável”, porque o Brasil obrigatoriamente tem que levar o juro real para 5% (IPCA+ 5%), patamar em que é possível rolar a dívida pública. “Se não for para o IPCA+ 5%, você vai quebrar”, diz, referindo-se ao País.
A lógica da posição em IPCA de longo prazo é que, no caso de o governo não endereçar a questão fiscal, o resultado da “quebra” virá pela inflação.
“Não vai ser o melhor cenário para o IPCA longo. Vamos ter abertura (de juros) no meio do caminho, mas o investidor terá um carrego muito bom”, diz.
Paulo Saad tem uma opinião parecida, observando os juros prefixados. “Se hoje eu tenho uma taxa de cinco anos pagando 13% e o Boletim Focus (do Banco Central) está dizendo que, daqui a três anos, a Selic vai estar 10%, eu tenho que usar o prazo ao meu favor”, diz, observando que o investidor precisa atentar para a sua necessidade de liquidez. Ou seja, se não for possível abrir mão desse recurso pelo prazo previsto, a melhor solução é manter a liquidez.
“O investidor brasileiro tem que aprender que o longo prazo não é ruim, é um amplificador de ganho”, complementa.
Ele acredita que, de qualquer forma, a tendência é de juros caindo, sendo que, com Lula garantindo mais quatro anos, esse processo será mais lento, porque, de qualquer forma, o presidente deverá apresentar um plano de ajuste.
Título de IPCA longo embute volatilidade alta
Mas, enquanto isso não acontece, quem aposta em IPCA+ vai sofrer na marcação da curva de juros. Num cenário de estresse, com os juros em alta, os títulos perdem valor. Além disso, aqueles com vencimento mais longo são justamente os que têm mais sensibilidade à variação de juros no curto prazo.
Para se ter uma ideia, o papel Tesouro IPCA+ 2050 valorizou 18% na segunda-feira pós-primeiro turno, quando Flávio Bolsonaro saiu na frente. Agora, com a virada de Lula, esse papel devolveu os 18% (falta confirmar esse dado). Para o Tesouro IPCA+ 2029, essa variação foi bem menor, de 1,4%.
Para o investidor do papel mais longo que não vendeu o título antes do resultado do segundo turno, aquele lucro é prejuízo no caso de necessidade de vendê-lo agora. Resta segurar o papel para levá-lo até o vencimento e se beneficiar dos juros contratados, protegido da inflação.
“Essa posição é muito mais confortável do que comprar bolsa, que não tem carrego”, argumenta a analista.
“Estamos falando de juros mais altos, perda de valor permanente em bolsa, que é melhor estopar e tentar outra coisa”, diz, reforçando sua opinião de que a melhor posição em renda fixa seriam títulos com prazo mais longo, mais sensíveis à variação de juros.
Selic vai ficar alta por mais tempo
Investir no longo prazo é risco, sendo os juros de curto prazo a posição mais prudente para a carteira. A tendência agora é ver saída forte de capital estrangeiro, principalmente em dezembro, quando há sazonalidade de remessas para o exterior. Movimento que força ainda mais a desvalorização do real.
Combinado com a desaceleração da atividade, tudo isso se traduz em expectativa de inflação mais alta, ampliando a pressão sobre os juros, principalmente os mais longos. Dados de outubro do IBGE fizeram economistas reverem para baixo estimativa do PIB do terceiro trimestre.
“Ficar no pós-fixado é mais interessante porque vamos ter menos corte na Selic. O que houve de precificação de corte nas últimas semanas, o mercado vai tirar”, diz Costa. A perspectiva agora passa a ser de Selic no patamar de 13,5% por um período maior. “Não tem como tomar risco.”
Em vez de dívidas corporativas, ETF
Neste cenário de maior incerteza, investir em papéis de dívidas corporativas não é aconselhável, na visão dos especialistas. A Empiricus, por exemplo, fez o movimento de calibração de carteira e tirou boa parte de sua cesta de crédito para títulos públicos de longo prazo.
“Estamos num cenário de desaceleração da economia, que são as empresas, as pessoas. É difícil hoje ficar exposto à economia real”, explica Laís Costa, apontando o spread (diferença entre o preço de compra e o preço de venda) de crédito como um indicador. É possível encontrar papéis isentos de Imposto de Renda, como Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) de empresas grandes e consideradas boas pagadoras, pagando o equivalente à IPCA+ 13%.
O risco de uma crise de crédito é um fator que não deve ser afastado do horizonte do investidor. Mas quem, mesmo assim, quer aproveitar o prêmio, pode reduzir os riscos por meio de ETFs (fundos de índice).
O MARG11, por exemplo, segue o índice Debêntures Ultra Qualidade DI da B3, com uma carteira de debêntures de emissores de alta qualidade de crédito e título público. Sua referência é o CDI e, em 12 meses, entregou uma rentabilidade de 14,37%.
Nos títulos bancários, manter o limite do FGC
Paulo Saad reforça que o título público é o papel mais seguro que tem, mas que também é possível trabalhar com ativos bancários, desde que o risco fique dentro do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
O FGC garante a devolução de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em cada instituição, limitados a R$ 1 milhão a cada quatro anos, se o banco for liquidado. Cobre investimentos em CDB, LCI, LCA e poupança. “As taxas são muito boas”, diz.
O estrategista macroeconômico da Genial, Roberto Mota, resume o que o investidor deve fazer a partir desta segunda-feira.
“O melhor posicionamento é ter a menor disposição a risco possível, independentemente da taxa”, comenta. Para ele, a mensagem dada pelo presidente reeleito na campanha de segundo turno foi clara no sentido de que a responsabilidade fiscal não está no DNA do governo. “Não vai ter responsabilidade fiscal.”

