Dióxido de cloro, prata coloidal, azul de metileno, ozonioterapia e terapia de eletrochoque de Tesla são termos que aparecem com frequência em mais de 1.500 grupos do Telegram em que a desinformação sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) corre livremente. Essas substâncias e procedimentos estão entre as 150 falsas curas disseminadas por diferentes comunidades na plataforma.
O levantamento foi feito com base em análise de dados de 2015 a 2025, reunidos por pesquisadores do Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da Associação Nacional para Inclusão das Pessoas Autistas (Autistas Brasil).
Os resultados foram publicados em uma pesquisa que identificou um crescimento de 15.000% (mais de 150 vezes) na desinformação relacionada ao autismo em comunidades da América Latina e do Caribe apenas nos últimos cinco anos – de 2019 a 2024. O Brasil lidera o ranking continental de teorias conspiratórias sobre o tema.

As evidências científicas disponíveis sugerem que fatores principalmente ambientais e genéticos tornam uma criança mais propensa a ter autismo. O autismo não pode ser curado, embora existam tratamentos para trabalhar a comunicação e a independência de pessoas com TEA.
Os pesquisadores analisaram mais de 60 milhões de mensagens em grupos com mais de 5 milhões de usuários de 19 países. Pelo menos 47 mil publicações que difundiram informações incorretas ou enganosas sobre o transtorno foram identificadas em aproximadamente 1.600 grupos e canais abertos ao público. Esses posts tiveram cerca de 100 milhões de visualizações por 4 milhões dos usuários.
Comunidades brasileiras foram responsáveis por 48% das publicações no continente, com um total de 10.591 conteúdos, que atingiram mais de 1,7 milhão de usuários e tiveram 13,9 milhões de visualizações.
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Promessas de ‘cura milagrosa’ colocam autistas e famílias em risco
Os pesquisadores destacam que um aspecto central identificado ao longo do estudo é a narrativa da “cura milagrosa”, que não apenas oferece promessas falsas, mas também lucra com o desespero das famílias. A pesquisa identificou que diversas promessas pseudocientíficas são vendidas abertamente por influenciadores e grupos.
Segundo o pesquisador da FGV Ergon Cugler, coordenador do estudo, a motivação para o levantamento foi a preocupação crescente com o aumento do compartilhamento desses conteúdos.
“Como pesquisador autista e como organização liderada por pessoas autistas, sentimos a urgência de investigar esse fenômeno para alertar familiares de pessoas autistas, reunindo dados sobre como essas narrativas se espalham, quem são os alvos, quais os riscos envolvidos e o impacto direto na saúde e nos direitos das famílias”, disse.
O presidente da Autistas Brasil, Guilherme de Almeida, coautor da pesquisa, explica que as falsas teorias identificadas não são novas. O que chama atenção é o fato de que a proliferação delas tem aumentado exponencialmente, gerando impacto sobre as famílias e a saúde pública.
Cugler acrescenta que há uma ameaça concreta à saúde física e emocional das famílias de autistas. “Produtos como o dióxido de cloro são vendidos como ‘cura’ sem qualquer respaldo científico e com potencial para causar danos irreversíveis”, observou.
A substância está inserida em uma teoria conspiratória que alega falsamente que o autismo é causado por infecções parasitárias no organismo. Para “curar” esse problema, é indicado um “tratamento” com o dióxido de cloro, categorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como saneante, ou seja, produto de limpeza.
Segundo os pesquisadores, os grupos conspiratórios no Telegram incentivam a ingestão ou até mesmo a aplicação retal desse composto em crianças. No ano passado, o Ministério da Justiça notificou sites que vendiam a substância como solução para “curar” autismo.
Para Almeida, o impacto é devastador e múltiplo. “Há o impacto econômico: famílias vendem o que têm para pagar por tratamentos falsos. Há o emocional: mães e pais se culpabilizam por causas inexistentes, como o Wi-Fi. E há o institucional: políticas públicas passam a ser pressionadas por lobbies que querem oficializar essas práticas”, afirmou.
“Em um contexto de desinformação crônica, a dor vira mercadoria, e o cuidado, um produto de prateleira”, acrescentou.
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Entre as 150 “causas” para o autismo identificadas pelo estudo estão desde situações do dia a dia, como a presença de parasitas no organismo e o consumo de salgadinhos industrializados, até teorias absurdas, como a inversão do campo magnético da Terra. Uma das “causas” mais comumente citadas e mais danosas é a de que as vacinas são responsáveis pelo transtorno — o que o Estadão Verifica já explicou que não é verdadeiro.
Para os pesquisadores, o pânico gerado por essa farsa tem colaborado com uma crise global de hesitação vacinal, impactando diretamente a saúde pública. O estudo identificou que a pandemia de covid-19 foi um ponto de inflexão na circulação de conteúdos falsos e enganosos. Identificou-se um aumento expressivo de 635% (6,35 vezes) de conteúdos desinformativos apenas nos dois primeiros anos do novo coronavírus (2020 e 2021).
“A crise sanitária gerou medo, incerteza e uma busca desesperada por explicações rápidas, em muitos casos, dentro de ambientes marcados por baixa confiança institucional”, afirmou Cugler. “Grupos conspiratórios que antes se concentravam apenas em pautas antivacina passaram a incorporar o autismo como nova frente de pânico moral, ligando-o falsamente aos imunizantes”.
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Para os pesquisadores, as consequências dessas abordagens vão além do universo digital. Ao disseminar visões patologizantes e prometer curas irreais, essas comunidades podem afetar decisões de familiares, políticas públicas e percepções sociais sobre o autismo.
Segundo Cugler, o crescimento das teorias conspiratórias não é apenas quantitativo, mas qualitativo. A desinformação está mais radicalizada, organizada e lucrativa. “Isso tem sérias repercussões sobre como a sociedade enxerga o autismo e como as políticas públicas tratam a inclusão”, afirmou.
Ele observa que combater à disseminação dessas narrativas passa por responsabilizar legalmente quem lucra com a desinformação, atuar de forma responsável nas plataformas digitais e investir em educação midiática.
Os governos dos países afetados podem, por exemplo, usar os resultados da pesquisa para capacitar Agentes Comunitários de Saúde (ACS) a identificar e combater a desinformação. Para os pesquisadores, a alfabetização digital das famílias deve incluir não só o uso de tecnologias, mas também a leitura crítica da informação e a identificação de fontes confiáveis.
Almeida cita como bom exemplo a experiência finlandesa, onde a alfabetização midiática é tratada como política de Estado, abrangendo crianças e adultos. O objetivo é prepará-los para proteger suas informações na internet.
O presidente da associação de autistas explica que, para aplicação no Brasil, a transposição desse modelo exige cautela. “Nossa realidade é marcada por desigualdades socioeconômicas profundas e um histórico de desconfiança institucional. Portanto, não basta importar soluções, é imperativo adaptá-las ao nosso contexto”, opinou.



