Roseann Kennedy traz os bastidores da política e da economia. Com Eduardo Barretto e Leticia Fernandes

Roseann Kennedy traz os bastidores da política e da economia. Com Eduardo Barretto e Leticia Fernandes

Romper com o bolsonarismo é imperativo para a direita sobreviver e ter nome forte em 2030

Derrota de Flávio Bolsonaro (PL) nas urnas simboliza derrota política da família; Michelle Bolsonaro, por sua vez, ensaia carreira solo

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Foto do autor Roseann Kennedy

O resultado das urnas no segundo turno não simbolizou apenas um tropeço eleitoral para Flávio Bolsonaro (PL). Representou, acima de tudo, uma derrota política para a família Bolsonaro.

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O revés significa que o irmão Eduardo continuará foragido nos Estados Unidos, enquanto o patriarca, Jair, seguirá recluso na prisão sem qualquer horizonte de soltura ou anistia.

No Congresso, Carlos Bolsonaro será apenas um entre 81 senadores, desprovido da musculatura política que teria caso o irmão alcançasse a Presidência da República. Assim como Jair Renan, na Câmara, no meio de outros 512 deputados federais.

Correndo por fora, Michelle Bolsonaro avança em uma carreira solo. Sem o sangue da dinastia, a ex-primeira-dama já é aconselhada nos bastidores a adotar apenas o primeiro nome. A estratégia visa consolidar sua trajetória individual e blindar seu capital político junto ao eleitorado feminino e de direita.

Derrota nas urnas de Flávio Bolsonaro no último domingo não é um tropeço isolado, mas revés para a família Bolsonaro Foto: Divulgação/Família Bolsonaro

Flávio teve quase 60 milhões de votos e tem um ativo político que não pode ser ignorado. Ele tem sido orientado pelo próprio grupo político a assumir o papel de principal líder da oposição. Mas, sem mandato, será alvo ainda mais fácil para o Supremo Tribunal Federal.

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Ou seja, sua derrota abre espaço para que a direita séria e equilibrada — focada na defesa dos direitos democráticos e na responsabilidade econômica e fiscal — comece a trabalhar um nome forte para 2030. Para isso, porém, é imperativo parar de pedir bênção a Bolsonaro.

Representantes de grandes segmentos econômicos que conversaram com a Coluna do Estadão fazem a seguinte leitura: a rejeição ao PT continua forte e também ficou registrada nas urnas, apesar da virada de Lula. Nos próximos anos, avaliam, a tendência é que o eleitorado entenda que o clã Bolsonaro entregou o Palácio do Planalto ao PT do presidente Lula mais uma vez e isso ampliará a rejeição à família.

Se as correntes não alinhadas ao extremismo bolsonarista souberem trabalhar essa narrativa, poderão capturar o forte sentimento antipetista que permanece vivo na sociedade, vide o fato de Lula ter sido reconduzido ao cargo sob reprovação de metade da população e com a maior parte dos brasileiros considerando que ele não merecia mais um mandato.

Para se reconstruir, essa nova direita precisa ter projetos e uma cara. O primeiro nome lembrado entre integrantes desse espectro político é sempre o do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP). Mas, por ter chegado ao Palácio dos Bandeirantes pelas mãos de Jair, é difícil ele romper com seu padrinho político.

Apesar desse histórico, uma “ausência” de Tarcísio esta semana animou os defensores de uma candidatura presidencial da direita divorciada do bolsonarismo. O governador ficou em silêncio depois de Flávio Bolsonaro rejeitar a vitória de Lula e dizer que pediria a anulação do segundo turno - algo que depois o senador recuou. Calado, Tarcísio deixou recados para a centro-direita de que o momento exige maturidade política e parcimônia para construir um nome competitivo.

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Maturidade, inclusive, que faltou a Flávio Bolsonaro. O senador viveu uma incoerência constante entre tentar se mostrar como moderado, mas cair na tentação de posturas radicais e debochadas, como vistas nos debates.

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Suas dancinhas de TikTok, nas redes sociais ou nos trios elétricos do bloco do 22 tampouco ajudaram a construir a imagem de um chefe de Poder Executivo.

Renan Santos (Missão), derrotado no primeiro turno deste ano, disputa o eleitorado da direita e, de olho em 2030, rechaçou qualquer apoio a Flávio. Ele também tem publicado várias mensagens propondo uma reflexão sobre a necessidade de abandonar os métodos bolsonaristas para voltar a vencer o PT.

“Essa arrogância, falta de humildade (dos bolsonaristas), construiu uma direita que adora falar de seus números em rede social, bota as pessoas pra dançar, ganha milhões de reais, milhões de views, likes e votos, mas que não transforma o Brasil em nada. Eu não tive muitos votos nesta eleição, mas a certeza que eu tenho é que você não vai conseguir vencer o PT desse jeito”, avaliou.

Renan também fez uma sugestão para a direita aprender com o passado, enquanto reorganiza o futuro. “Se você quiser voltar a vencer o PT, tem que olhar quem venceu. Na história um homem venceu o PT duas vezes no primeiro turno, o nome dele era Fernando Henrique Cardoso. Ele não se definia como direita e não ficava pisando em ninguém. Ele curiosamente entregou reformas, arrumou a economia brasileira, resolveu problemas concretos”, concluiu.

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Análise por Roseann Kennedy

Roseann Kennedy é jornalista pós-graduada em Ciência Política e Economia. Há mais de 20 anos em Brasília, cobre as relações entre os poderes e os bastidores da política. Foi colunista política na CBN e Globo News, editora-chefe e âncora no SBT e SBT News. Pernambucana, torcedora do Náutico, mas também apaixonada pelo Palmeiras.