Vídeos que mostram produtores rurais descartando frutas e legumes em diversas regiões do País circulam nas redes sociais acompanhados da afirmação de que os alimentos estariam sendo jogados fora intencionalmente, para forçar ou manter o aumento dos preços. Mas não há embasamento para dizer isso.
Alvo de críticas, a prática do descarte não é novidade entre os produtores rurais, que a adotam por diferentes razões. Uma delas é o excesso de oferta de determinado produto, o que provoca a queda nos preços e torna a venda inviável para os produtores.
A reportagem identificou que registros compartilhados por diversos usuários não são atuais. Com exceção de um vídeo que está no TikTok desde 2023, os demais vídeos analisados pelo Verifica circulam na internet desde o final de 2024. As imagens mostram produtores descartando alimentos como cebola, jiló, chuchu, melancia e pimenta.

Alguns desses vídeos já foram usados em peças de desinformação e passaram por verificações recentes (aqui). Em um deles, que consiste em um compilado com diferentes imagens, o contexto foi omitido para dar a impressão de que alguns descartes não teriam justificativa.
Nesta reportagem, o Verifica detalha o contexto de alguns dos vídeos que circulam na internet e explica, com base em informações obtidas com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e economistas, as razões que podem levar à prática do descarte.
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Descarte é prática antiga e já foi notícia na imprensa
Entre os produtores rurais, o descarte de alimentos é uma medida adotada em situações específicas. Por exemplo, uma notícia publicada pelo g1 em 2015 mostra que 20 mil caixas de tomate foram descartadas em razão da queda de preços. Outra matéria, de 2007, mostra que no interior do Paraná, produtores jogavam fora 20 toneladas de batatas por dia devido ao excesso de produção.
Em nota enviada ao Verifica, a Conab explicou que essa prática pode ocorrer devido ao amadurecimento do produto, à falta de condições para comercialização ou à superprodução, quando a oferta de determinado alimento é mais que suficiente para atender a demanda.
Segundo a Companhia, não é possível afirmar que os descartes exibidos nos vídeos verificados tenham contribuído para o aumento dos preços dos alimentos.
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“Outros fatores, como o câmbio atrativo, falta de estoques e safras comprometidas por causa de problemas climáticos, como no caso da maçã e da laranja, explicam melhor a elevação dos preços, e não os descartes”, informou a Conab.
Ainda segundo o órgão, os descartes representam uma fração pequena da produção total. Apenas um volume significativo de perda seria capaz de influenciar uma eventual alta nos preços.
De acordo com o economista André Braz, que é Coordenador dos Índices de Preços da Fundação Getúlio Vargas (FGV), os produtores costumam apostar sempre na mesma cultura, especialmente quando há expectativa de aumento nos preços de produtos.

Para aproveitar os preços altos, muitos acabam investindo no plantio dos mesmos itens. No entanto, essa estratégia resulta em frustração na colheita.
“Com excesso de oferta o preço despenca, é a lei da oferta e da procura: se tem muito o preço cai, e aí alguns produtores acabam eliminando o excedente, porque é uma forma de eles frearem a queda de preços”, explicou Braz.
Segundo o economista, esse descarte acontece porque os produtores precisam controlar o crescimento da produção e garantir o pagamento das pessoas envolvidas no plantio e na colheita. Outras despesas incluem insumos como agrotóxicos, adubos e fertilizantes.
“Se ele [o produtor] gasta mil reais e ganha 900, ele não paga os custos e ainda fica no prejuízo, não se sustenta”, disse.
Em alguns casos o produto pode até ser doado, mas a estrutura para a doação é complexa, comentou Braz. “Você tem que levar o produto até a pessoa que vai receber a doação, é muita quantidade, então o produto acaba sendo descartado mesmo”, afirmou.
Ao Verifica, a professora Margarete Boteon, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), disse que não há informações ou fatos que comprovam que os produtores estariam descartando alimentos de forma intencional. “Por conta do excesso de oferta em algumas culturas e, ou por má qualidade, as perdas estão sendo verificadas no campo, mas não por caráter intencional”, informou.
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Descarte de cebola foi motivado por falta de chuvas e excesso de oferta
Pelo menos três vídeos que mostram cebolas sendo descartadas têm circulado nas redes sociais. No primeiro vídeo verificado, um homem inicia a gravação informando que era dia 13 de novembro de 2024, às 11 horas e 10 minutos. Ele diz que está na região de Irecê (BA), e mostra cebolas sendo jogadas fora. Onze dias após a data registrada no vídeo, uma reportagem do Globo Rural mostrou que 17 mil sacos de cebola foram descartados no início do mês em uma roça de João Dourado, na região de Irecê.
De acordo com o agricultor entrevistado pela reportagem, o descarte de 17 mil sacos não foi o único na região. Um dos motivos foi uma chuva forte, que comprometeu a qualidade da cebola, mas essa não foi a única razão. A reportagem também destacou que o excesso de oferta fez o preço do alimento cair, o que levou ao descarte.
Conforme mostrou o Verifica em uma checagem sobre o baixo preço da cebola, o excesso de oferta no ano passado, que resultou no descarte de sacas, foi impulsionado pelos preços elevados alcançados pelos produtores no primeiro semestre, que estimularam a produção.
Na ocasião, a Conab explicou à reportagem que os altos preços incentivaram o plantio em grande escala para o segundo semestre, o que acabou gerando um excesso de oferta e causando prejuízos a diversos produtores.
O segundo vídeo, que circula desde novembro do ano passado (aqui e aqui) , mostra homens em cima de um caminhão abrindo sacas de cebola e jogando-as no chão. O narrador, que não aparece nas imagens, afirma que as cebolas não estavam em boas condições, alegando que estavam “estourando”.
“Maquinei, botei em outra sacaria, mas não tem jeito”, diz. Ele também menciona que as cebolas vieram de Irecê e que as unidades vendidas aos clientes estavam sendo devolvidas.
As postagens compartilharam o vídeo no ano passado indicam que os produtores são do município de João Dourado, na região de Irecê, onde ocorreu o descarte noticiado pelo Globo Rural.
O terceiro vídeo, publicado no TikTok em dezembro de 2024, mostra homens descartando cebolas em cima de duas carrocerias. Na gravação e na legenda da postagem, é informado que o descarte ocorreu devido ao baixo preço do produto.

Vídeo que mostra melancias sendo jogadas fora é de 2023
Um vídeo que mostra melancias sendo descartadas de um caminhão circula nas redes sociais desde 2023. No registro, a pessoa que está filmando a ação conversa com dois homens que jogam as frutas no chão. Ao questionar sobre o descarte, um dos homens explica que o motivo é que as pessoas querem pagar R$ 1,99 pela melancia, o que torna inviável vender o produto. Ao final da gravação, o autor diz que as imagens foram feitas em Goiânia.
Em setembro de 2023, a Secretaria de Comunicação Social (Secom) publicou um texto sobre a queda expressiva nos preços das hortaliças na Central de Abastecimento (Ceasa) de Goiânia, observada no mês anterior. Em relação às frutas, o texto informa que a melancia foi o produto que mais registrou queda, com uma redução de 3,58% no seu valor.

Jilós foram deixados em estrada porque não puderam ser doados
Um vídeo que circula na internet mostra jilós sendo descartados no acostamento de uma estrada. A gravação, compartilhada em um compilado com outros casos de descarte, teve seu contexto omitido para sugerir que os jilós foram jogados fora para forçar a alta dos preços dos alimentos. O registro mostra apenas o momento em que o homem que filma a ação diz: “Tô jogando aqui na beira do asfalto porque não tem onde jogar não”.
O Verifica identificou a versão completa do vídeo, publicada no Instagram em dezembro de 2024, que traz o contexto por trás da ação. Na gravação, o homem explica que levou 92 caixas de jilós para descartar, pois não conseguiu doá-las na Ceasa. Segundo ele, as pessoas não estavam interessadas em receber os produtos, e não havia local para realizar o descarte. Ele relata que, das 92 caixas, apenas 35 foram doadas, e as restantes tiveram que ser jogadas fora por falta de alternativa.

Chuchu foi descartado por não ter compradores
O registro de chuchus sendo descartados por uma produtora também circula sem contexto nas redes sociais. Compartilhado em um compilado, o vídeo mostra uma mulher arrancando os chuchus do pé e comentando que foi criticada por um vídeo publicado um mês antes em que ela fala sobre o descarte de chuchus. A gravação original, publicada no TikTok em dezembro do ano passado por Lilithie Schaeffer, de Santa Maria de Jetibá (ES), foi editada para ser exibida neste compilado.
Na íntegra do vídeo, Lilithie explica que há mais de um mês não vendia nenhuma caixa de chuchu e que gostaria de estar doando o legume. No vídeo, ela afirma que os usuários poderiam ir até sua propriedade buscar o legume, e que ela os retiraria para fazer caridade.
Em um novo vídeo, publicado há uma semana na mesma rede social, a produtora mostra o compilado que circula nas redes sociais e esclarece que o alimento foi descartado porque não conseguiu vender. Ela lembra que ofereceu os chuchus para que as pessoas os retirassem de sua propriedade, mas ninguém compareceu.
Uma reportagem publicada pelo g1 em dezembro mostrou que a desvalorização dos preços do chuchu, causada pela baixa demanda e pelos altos custos de produção, prejudicou os produtores do Espírito Santo, estado líder na produção do legume no Brasil. Como resultado, muitos produtores precisaram descartar o alimento.
Entrevistados pela reportagem relataram dificuldades tanto no descarte quanto na doação. Um dos produtores, que descartou mais de 500 caixas no próprio terreno, contou que até para doar os chuchus estava difícil, já que, quando oferecido, as pessoas pediam que o produtor levasse o produto até elas, o que acarretaria em custos adicionais.

Pimenta foi para o lixo por causa do preço baixo
Um vídeo que mostra pimentas sendo descartadas também circula em um compilado com outros registros semelhantes. Na gravação, uma mulher menciona a data em que as imagens foram feitas, 18 de dezembro, e exibe o descarte de uma saca de pimentas ao lado de unidades de mamão. Em uma versão do vídeo publicada no TikTok, que oferece uma visão mais detalhada do local do descarte, a mulher afirma que a gravação ocorreu na Ceasa de Goiânia.
O mesmo perfil que compartilhou o vídeo na rede social publicou outros registros de descarte de pimentas (aqui e aqui), também em dezembro. Em uma das publicações, o autor informa na legenda que a venda da pimenta estava difícil devido ao baixo preço.
Ao responder a um comentário de uma usuária que questiona por que não se fazem doações em vez de descartar, ele explicou: ”Às vezes são sobras, outras vezes é porque o preço cai, e aí joga fora, infelizmente”.

Governo afirma apoiar produção e comercialização de alimentos
À reportagem, a Conab informou que o governo federal tem medidas de apoio à produção e comercialização de alimentos no País. Entre elas está o Programa de Garantia de Preços para Agricultura Familiar (PGPAF), que garante desconto no pagamento do financiamento do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) em caso de baixas nos preços de mercado.
De acordo com a companhia, o percentual de desconto dos produtos incluídos no PGPAF é calculado pelo órgão. Outra iniciativa é o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que realiza a compra direta de alimentos de produtores da agricultura familiar, sem necessidade de licitação, e destina esses produtos a pessoas em situação de insegurança alimentar e nutricional, além de atender à rede pública e filantrópica de ensino.



