As novas previsões econômicas para 2026 são um balde de água fria para a América Latina. Além de alguns números animadores, os dados indicam que a região será a de menor crescimento em todo o mundo em desenvolvimento. Simples assim, e triste assim.
A economia da América Latina crescerá apenas 2,3% em 2026, quase a metade da média dos países emergentes, de acordo com as novas projeções da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe das Nações Unidas (CEPAL).
Comparativamente, a Índia e o sudeste asiático crescerão cerca de 6%, a África Subsaariana 4,2% e a China, juntamente com seus vizinhos asiáticos, 4%, de acordo com outras agências da ONU.

“Não houve uma decolagem”, disse-me o secretário executivo da CEPAL, José Manuel Salazar-Xirinachs. “A recuperação que vimos após a pandemia foi um fato circunstancial e já ficou para trás”.
A principal razão para o atraso latino-americano será o menor crescimento econômico dos Estados Unidos e da China, que reduzirá a demanda por produtos da região.
A isso devem ser somadas as tarifas do presidente Donald Trump e as deportações em massa dos Estados Unidos, dois golpes adicionais às economias latino-americanas.
O comércio mundial crescerá apenas 0,5% em 2026 devido às tarifas de Trump, muito abaixo dos 2,4% deste ano, de acordo com a Organização Mundial do Comércio. Além disso, as deportações farão cair as remessas dos migrantes latino-americanos, uma grande fonte de renda para o México e a América Central.
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“O impacto mais forte das tarifas de Trump será sentido no próximo ano, porque este ano houve um adiantamento das importações de muitos países após o anúncio das tarifas”, disse-me Salazar-Xiriñachs.
De acordo com as novas previsões da CEPAL, a economia do México crescerá apenas 1,3% em 2026 — um dos piores desempenhos da região —, enquanto o Brasil crescerá 2%, o Chile 2,2%, o Peru 3% e a Argentina 3,8%.
Como sair do buraco? A receita é conhecida: entre outras coisas, aumentando os investimentos, melhorando a qualidade da educação e incentivando a inovação, além de diversificar as exportações para não depender das oscilações econômicas de um ou dois mercados.
Em todas essas frentes, a região ainda está engatinhando. Em muitos países, nem mesmo existe um consenso político de que — como me disse certa vez o ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso — “sem investimento não há crescimento, e sem crescimento não há redução da pobreza”. Paradoxalmente, em minhas visitas à China e ao Vietnã, países oficialmente comunistas, notei muito mais entusiasmo em atrair investimentos do que em boa parte da América Latina.
Em matéria de educação e inovação, um novo estudo da Rede Ibero-Americana de Indicadores de Ciência e Tecnologia (RICYT), intitulado “O Estado da Ciência”, revela que o investimento em pesquisa e desenvolvimento na América Latina é de apenas 4,4% do total mundial. E desse percentual, quase dois terços vêm de um único país: o Brasil.
Quanto à diversificação das exportações, o panorama não é melhor. A América Latina continua ancorada em seus mercados tradicionais: 60% de suas vendas externas vão para apenas dois países, Estados Unidos e China. Apenas 3% vão para o Vietnã, Tailândia, Indonésia e outros grandes países do sudeste asiático, de acordo com um novo relatório da consultoria McKinsey & Co.
Apesar das inúmeras cúpulas e grandes discursos sobre integração econômica, a América Latina é a região com menos comércio inter-regional do mundo: apenas 14% de suas exportações vão para outros países da região, de acordo com o estudo. Em comparação, a África atinge 21%, a Ásia 25%, a América do Norte 33% e a União Europeia 60%.
O relatório da McKinsey afirma que há grandes oportunidades para a região, especialmente em manufaturas avançadas — veículos elétricos, semicondutores, dispositivos médicos —, bem como em energia e minerais críticos.
Mas, para decolar, adverte, a região precisa ampliar e modernizar seus acordos comerciais e criar cadeias de valor regionais que atraiam investimentos.
Eu acrescentaria um primeiro passo mais básico: reconhecer a estagnação econômica. Só assim os países poderão despertar de sua complacência e aproveitar plenamente seus enormes recursos humanos e naturais.




