Durante anos, Alex Karp, CEO da Palantir, declarou que a empresa de mineração de dados estava “empenhada em apoiar valores progressistas”, e afirmou várias vezes ter “recusado” contratos que visavam minorias ou antiéticos. Mesmo quando a Palantir assumiu extensos contratos de gestão de dados para o governo federal, a empresa sustentou não estar disposta a permitir que suas poderosas ferramentas fossem usadas para rastrear imigrantes em massa pelos EUA.
Esse compromisso não se sustenta mais. O software da Palantir está auxiliando a Agência de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) a rastrear imigrantes sem documentos e deportá-los com maior rapidez, segundo registros de aquisições federais e entrevistas com pessoas a par do projeto, que falaram sob condição de anonimato. O software, chamado Immigration OS, desempenha um papel central no apoio à agenda de deportação em massa do governo Trump.
Ex-democrata declarado, Karp dizia há dez anos não respeitar “nada” em Donald Trump, e uma campanha de deportação “não fazia sentido”. Hoje, tem defendido com veemência as políticas de imigração do presidente. Ao declarar que a Palantir é “completamente anti-woke”, em referência ao progressismo radical, ele elogiou repetidamente a repressão contínua de Trump aos imigrantes, inserindo a empresa no centro de uma das questões mais controvertidas do país.

Essa mudança nas alianças políticas não sinaliza, de forma alguma, uma alteração em suas crenças fundamentais, disse Karp em comunicado ao The Washington Post, retratando seu apoio ao controle da imigração como parte de sua devoção de longa data à justiça social.
“Por mais de duas décadas, implorei à nossa elite política que levasse a sério a verdadeira posição progressista sobre a imigração: uma posição de extremo ceticismo. Sem sucesso”, disse Karp. “A imigração irrestrita na Europa, onde morei por mais de uma década, tem sido um desastre — reduzindo os salários da classe trabalhadora e resultando em deslocamento social em massa. Continuo sendo um progressista econômico, isolado entre os autoproclamados progressistas que são tudo, menos isso”.
As mudanças na Palantir foram impulsionadas por vários fatores, segundo cinco pessoas familiarizadas com os projetos da empresa. Os executivos da Palantir interpretaram a eleição de Trump para um segundo mandato como um aval dos eleitores para um controle mais rígido das fronteiras, disseram as fontes. Como muitas outras empresas, a Palantir alterou algumas políticas em resposta a ordens executivas que visavam a diversidade nas contratações e outras questões. Acrescentaram ainda que o apoio de Karp a Israel após o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023 o aproximou da ala “falcão” dos republicanos em segurança nacional.
Os negócios da Palantir com o governo federal floresceram durante o governo Trump. O total de novos contratos federais em setembro foi de US$ 128 milhões, a maior soma mensal já registrada, segundo o site USASpending.gov. O preço das ações da empresa subiu mais de 120% este ano, impulsionado pela onda de contratos e pelo boom de empresas que, como a Palantir, focam no desenvolvimento e uso de IA.
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A Palantir há muito desafia uma caracterização política simples. Durante anos, trabalhou com governos de ambos os partidos em projetos que outras empresas do Vale do Silício evitavam, como o Project Maven, um sistema de identificação de alvos por IA do Pentágono. Mas seu apoio ao ICE, em uma repressão com fins de deportação marcada por confrontos violentos e severos desafios judiciais, gerou um debate entre funcionários atuais e antigos sobre se isso viola os valores da empresa e coloca em risco seu perfil bipartidário.
Sete meses após o início do projeto, renovado no final de setembro, alguns funcionários da Palantir ainda manifestam preocupações sobre o Immigration OS, segundo duas pessoas a par do assunto. Elas relatam que membros da equipe têm debatido se o contrato deveria ser descontinuado caso o uso da tecnologia pelo ICE descambe para ações extrajudiciais ou viole os princípios de liberdades civis da empresa. Não foi possível determinar se os executivos seniores participam dessas discussões. Uma porta-voz da Palantir recusou-se a comentar.
O ICE e seu órgão supervisor, o Departamento de Segurança Interna (DHS), se recusaram a responder perguntas sobre o Immigration OS. O DHS afirmou em nota que a Palantir é contratada há 14 anos, fornecendo “soluções para gestão de casos investigativos e operações de fiscalização” ao ICE. “O DHS analisa de forma holística as soluções tecnológicas e de dados que podem atender às demandas operacionais e da missão”, declarou.

O ICE concedeu à Palantir um contrato de US$ 30 milhões em 11 de abril para construir um “Sistema Operacional do Ciclo de Vida da Imigração” (ou Immigration OS). Seu objetivo, segundo os registros de aquisição da agência, é facilitar as “operações de seleção e detenção de estrangeiros ilegais” com base nas prioridades do ICE, minimizar o “gasto de tempo e recursos” em deportações e rastrear em “tempo quase real” quais indivíduos deixam o país voluntariamente. A Palantir ganhou o contrato sem licitação competitiva, com o ICE citando uma “necessidade urgente e imperiosa” e afirmando que “a Palantir é a única fonte capaz de fornecer os recursos necessários... sem causar atrasos inaceitáveis”. O ICE renovou o contrato em 25 de setembro, elevando seu valor total para cerca de US$ 60 milhões — uma quantia relativamente pequena no contexto da receita de US$ 2,87 bilhões da Palantir em 2024.
Em um comunicado interno aos funcionários, a Palantir apresentou o projeto como um “protótipo” e disse que “compromissos de longo prazo” ainda estavam “por ser determinados”, segundo uma cópia obtida pela 404 Media. A empresa disse estar “buscando esse esforço porque acreditamos que é fundamental para a segurança nacional e que nosso software pode fazer uma diferença significativa na segurança de todos os envolvidos em ações de fiscalização”.
O ICE e a Palantir recusaram-se a divulgar quantas pessoas o sistema rastreia, de quais agências ele extrai dados e se há salvaguardas contra erros de identificação ou coleta excessiva de dados de vigilância. Shyam Sankar, diretor de tecnologia (CTO) da Palantir, disse ao New York Times em entrevista recente que o Immigration OS rastreava encontros na fronteira, pedidos de asilo e solicitações de benefícios. O sistema não rastreia informações de cidadãos americanos que sejam parentes de imigrantes sem documentação, afirmou a Palantir em nota.
O ICE adotou o Immigration OS este ano, ao lançar uma campanha para identificar e deter o que classifica como “os piores dos piores”. A agência citou casos de imigrantes sem autorização legal que cometeram crimes graves como justificativa para amplas operações de deportação em Chicago, Charlotte, Portland e outras cidades. O ICE e a Palantir não informaram se o Immigration OS desempenhou algum papel na compilação das listas de alvos prioritários do ICE.
Trump disse no Dia de Ação de Graças que iria “suspender permanentemente” a migração de “países do terceiro mundo”, deportar imigrantes sem autorização legal e acabar com todos os benefícios e subsídios federais para não cidadãos. Isso marcaria uma escalada em uma campanha que muitas decisões de juízes federais proíbem sob acusação de exceder a autoridade legal do governo. O DHS condenou as decisões como provenientes de “juízes ativistas” e sustentou que suas ações têm sido legais.

Em entrevista à Wired publicada em novembro, Karp disse já ter “retirado coisas do ar” por uso em violação ao código de conduta da empresa, mas também rejeitou as alegações de que seu software de imigração estivesse fazendo isso. Questionado se precisava examinar mais de perto como os produtos da Palantir estavam sendo usados nos Estados Unidos, ele considerou a pergunta “correta” e acrescentou: “Estou dizendo que fiz isso e continuarei a fazer”.
Wendy R. Anderson, vice-presidente sênior de segurança nacional da Palantir até maio, disse que Karp nunca vacilou em sua convicção de que as empresas de tecnologia que trabalham na defesa têm um dever para com o país, e não para com a política partidária.
“Alex parte de uma premissa única e inegociável: os Estados Unidos têm que vencer”, disse ela, falando de modo geral e não em referência específica ao Immigration OS. “Não no sentido partidário, mas no sentido duradouro — a sobrevivência dos Estados Unidos e das instituições ocidentais que tornam possíveis as sociedades livres.”
A Palantir, fundada por Karp e pelo cofundador do PayPal, Peter Thiel, em 2003, após o 11 de setembro, é há muito tempo alvo de críticas de ativistas de direitos civis devido às poderosas ferramentas de mineração de dados vendidas a instituições como o Pentágono, a CIA e o ICE.

Karp — filho de pai judeu e mãe afro-americana, que o levava a protestos por direitos civis quando criança — sempre se identificou abertamente como democrata e defensor da privacidade. “Nós, como empresa, e eu, como indivíduo, sempre estivemos profundamente envolvidos no apoio a valores e causas progressistas”, disse Karp em 2011.
Em 2015, logo após Trump anunciar sua primeira candidatura à presidência, Karp disse à sua equipe que havia recusado uma oportunidade de se encontrar com Trump, pois “seria difícil inventar alguém que eu achasse menos atraente”, segundo um vídeo vazado publicado pelo BuzzFeed. Karp disse que se opunha à ampla plataforma de deportação de Trump, afirmando que não fazia “sentido” expulsar pessoas trabalhadoras. Ele afirmou que culpar os imigrantes pelos males da nação traria à tona “o pior que uma sociedade pode produzir”.
Durante o primeiro mandato de Trump, a Palantir afirmou que não trabalharia diretamente com o braço de Operações de Execução e Remoção (ERO) do ICE em deportações, citando o risco de violações dos direitos humanos. A empresa limitou seus contratos à divisão de Investigações de Segurança Interna (HSI) da agência, que focava em questões como terrorismo, tráfico sexual e contrabando de drogas — embora, na prática, houvesse algum cruzamento com batidas policiais contra imigrantes indocumentados.
A Palantir fez essa distinção, escreveu Courtney Bowman, diretora de privacidade e liberdades civis da empresa, em carta de 2020 à Anistia Internacional, “porque compartilhamos a preocupação de sua organização com as possíveis violações graves de direitos humanos contra migrantes, refugiados e requerentes de asilo na fronteira EUA-México e os riscos de uma aplicação desproporcional das leis de imigração dentro dos Estados Unidos”.

Críticos afirmam que o Immigration OS representa uma violação desses princípios. O projeto gerou reações negativas, incluindo a do cofundador da Y Combinator, Paul Graham, que escreveu no X que a Palantir estava “construindo a infraestrutura de um estado policial”. Em carta aberta, 13 ex-funcionários acusaram a liderança da Palantir de ser “cúmplice” na “normalização do autoritarismo” nos Estados Unidos.
Dentro da Palantir, executivos defenderam o projeto citando a mudança na opinião do eleitorado sobre a questão da fronteira e alterações na estrutura do ICE. Em uma de suas primeiras ordens executivas em janeiro, Trump ordenou que as Investigações de Segurança Interna (HSI) priorizassem a fiscalização da imigração em detrimento da segurança nacional.
“O debate nacional sobre a fiscalização da imigração, tanto na fronteira quanto no interior dos Estados Unidos, mudou”, escreveu a empresa em comunicado interno, segundo cópia obtida pela 404 Media. A Palantir disse ter percebido que, “para realmente apoiar a missão de fiscalização da imigração da agência, devemos expandir nossa abertura... isso significa apoiar fluxos de trabalho que são substancialmente distintos do nosso escopo histórico e entrar nas Operações de Execução e Remoção (ERO)”.
A reversão da política levou à saída de alguns funcionários. Brianna Katherine Martin, que atuou como estrategista de governo para a empresa por quase três anos, saiu em maio, citando a recente expansão do trabalho com o ICE.
“Durante a maior parte do tempo em que estive aqui, achei a maneira como a Palantir lidava com o peso de nossas capacidades revigorante, transparente e consciente”, escreveu Martin no LinkedIn. “Isso mudou para mim nos últimos meses.” Ela não respondeu aos pedidos de comentário.
A parceria aprofundada com o ICE ocorreu em meio a outras mudanças na empresa.
A Palantir revisou seu código de conduta em março, removendo compromissos de evitar tomadas de decisão tendenciosas e ações injustas baseadas em raça ou nacionalidade. A seção “Proteger os vulneráveis” dizia anteriormente: “Não criaremos nem perpetuaremos o tratamento injusto e/ou a estigmatização de indivíduos ou grupos, especialmente quando tais ações injustas forem baseadas em raça, cor, nacionalidade, religião, sexo, identidade de gênero, deficiência, idade, ascendência, estado civil, cidadania ou orientação sexual.” A nova versão promete, de forma mais geral, evitar ações injustas “baseadas em qualquer característica protegida por leis federais, estaduais ou locais”.
A Palantir também excluiu uma seção que instruía os funcionários a se esforçarem para superar vieses conscientes e inconscientes em suas tomadas de decisão. O texto agora diz apenas que os funcionários devem se relacionar com respeito.
As alterações no código de conduta foram feitas em resposta a ordens executivas de Trump não relacionadas aos negócios com o ICE, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto. Trump proibiu contratantes federais de adotarem práticas de diversidade (DEI) consideradas “ilegais” em janeiro.
O biógrafo de Karp, Michael Steinberger, cujo livro The Philosopher in the Valley foi publicado no mês passado, disse que suas entrevistas revelaram a crescente exasperação de Karp com o que via como a relutância do Partido Democrata em controlar a fronteira e a preocupação excessiva com políticas identitárias.
“Ele definitivamente moveu-se para a direita”, disse Steinberger. “Embora eu suspeite que ele estaria mais inclinado a dizer que acha que a esquerda o abandonou.”
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Publicação foi feita após pessoas saírem às ruas em protesto anti-Trump chamado de “No Kings”. Crédito: Donald Trump/Truth Social
Um fator importante na guinada de Karp à direita foi o ataque a Israel em 7 de outubro, há dois anos, escreveu Steinberger. “Agora estou muito disposto a ignorar minhas divergências com os republicanos em outras questões por causa da posição que eles tomaram nesta”, cita o livro.
Em carta enviada em julho à Anistia Internacional, respondendo a perguntas sobre seus contratos com o ICE, a Palantir declarou que, embora levasse a sério os riscos aos direitos humanos, seu papel era atuar como uma contratada federal responsável e cumprir a lei, não definir a política do governo dos Estados Unidos.
“A Palantir não é uma autoridade supervisora encarregada de examinar ou questionar os atores do poder executivo”, escreveu a empresa.





