Escreve toda semana sobre as relações internacionais e sobre as encruzilhadas da História no mundo contemporâneo

Escreve toda semana sobre as relações internacionais e sobre as encruzilhadas da História no mundo contemporâneo

Racismo na Copa do Mundo é retrato da confusão contemporânea entre nacionalidade e origem étnica

O que é, em 2026, ser francês? O que seria uma seleção formada por “franceses de verdade”?

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Foto do autor Filipe Figueiredo

Argentina é o anti-herói da Copa do Mundo

Há explicações racionais para o sucesso da seleção argentina? Rodrigo Capelo analisa.

A Copa do Mundo de 2026 chegou ao fim, mas o triunfo da Espanha não encerra as várias oportunidades para discussões políticas e históricas abertas pela competição. Uma dessas discussões, na realidade, estava aberta há alguns anos. Em 2022, após o título argentino, os atletas do país vizinho entoaram uma canção com teor preconceituoso, especialmente contra os atletas negros franceses, derrotados naquela final. Infelizmente, essa questão permanece e foi repetida no torneio mais recente. Afinal, quem são os franceses?

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Quatro anos atrás, os atletas argentinos se filmaram, sorridentes e felizes, entoando que “jogam pela França, mas são todos de Angola”, “sua mãe é nigeriana, teu pai é camaronês, mas eu seu documento a nacionalidade é francês”. O principal jogador da França, Kylian Mbappé, ainda é alvo de ofensas homofóbicas, por um suposto relacionamento com uma modelo transsexual. O vídeo circulou pelas redes sociais e levantou também um debate sobre o silêncio de Lionel Messi, principal referência daquela equipe.

Em 2026 as mesmas polêmicas xenófobas e racistas se repetiram. O ex-primeiro-ministro da Espanha, Mariano Rajoy, escreveu que o time francês tem um “plantel de altíssimo nível”, mas “não tem nenhum jogador francês”, ao ponto de motivar um pedido de desculpas do governo de seu país. A senadora paraguaia Celeste Amarilla criou uma crise diplomática entre seu país e a França. Após a vitória francesa contra o Paraguai, disse que Mbappe era um “camaronês colonizado fazendo um grande esforço para parecer francês” e que “bruto, não aprendeu nem a escrever. Em vez de leite materno, tomava coco, e a coisa mais educada que ouviu foram chimpanzés”.

O atacante francês nº 10 Kylian Mbappé comemora o primeiro gol de sua equipe durante a disputa de terceiro lugar da Copa do Mundo de 2026 entre França e Inglaterra, no Miami Stadium, em Miami, em 18 de julho de 2026 Foto: Chandan KHANNA / AFP

Esses são apenas alguns exemplos de grande visibilidade por políticos. Tampouco são comentários novos ou exclusivos de estrangeiros. O líder fascista francês Jean Marie Le Pen, pai da presidenciável Marine Le Pen e fundador do partido de ambos, já havia dito, em 1998, que não celebrou o título mundial francês pois não teriam sido jogadores franceses que o conquistaram. Claro, se referia a jogadores como Lilian Thuram, nascido em Guadalupe, e Zinedine Zidane, nascido em Marselha e de pais argelinos.

O que é, em 2026, ser francês? O que seria uma seleção formada por “franceses de verdade”? Ter todos os atletas baixinhos, de pele branca e cabelo escuro encaracolado, como Michel Platini? Primeiro, isso parte de uma visão mitológica dos franceses sobre si próprios, como se a França fosse magicamente e historicamente um país homogêneo que se formou de maneira “orgânica”. Não, o processo de criação da França foi violento, com a supressão de identidades regionais como a bretã, com invasões e com miscigenações entre várias populações. Gauleses, romanos, germânicos, bascos, occitanos e berberes tiveram parte nisso. O próprio nome França é de origem germânica, “terra dos Francos”. O fato é que não existe um francês branco autóctone ou de ancestralidade pura. Isso é mito. Os franceses são resultado de processos históricos, tanto violentos quanto pacíficos, de confluência de povos.

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Nos últimos cento e cinquenta anos, como resultado de um processo de expansão imperial iniciado pela própria França, essa confluência recebeu novos elementos, vindos dos domínios franceses na África, na América, na Ásia e na Oceania. Essas pessoas serviram à França e aos franceses. A primeira mesquita de Paris não foi construída como parte de uma “invasão muçulmana estrangeira”, mas como agradecimento aos cidadãos franceses muçulmanos do Senegal e do Marrocos que foram essenciais para a defesa da capital contra os alemães no final de 1914, durante a Grande Guerra.

E nesse parágrafo entra a palavra essencial para a correta compreensão desse assunto. Cidadãos. A França define sua nacionalidade por critérios jurídicos, não por raça, etnia ou religião. A Constituição francesa estabelece a igualdade entre todos os cidadãos, e o Estado francês inclusive evita classificar oficialmente a população por categorias raciais ou étnicas. E essa cidadania pode ser transmitida pela descendência, pelo solo ou pela naturalização, com diferentes critérios. Especialmente quando se trata de pessoas de origem dos territórios que um dia foram parte do império francês.

Os comentários que afirmam que a seleção francesa “não representa a França” porque muitos jogadores são negros “confundem” nacionalidade com origem étnica. As aspas se dão pois essa confusão na verdade é racismo e xenofobia, muitas vezes como parte de um projeto político. A nacionalidade depende da lei e a cidadania não depende da cor da pele. A França contemporânea é resultado de uma vasta e turbulenta História, marcada pelo colonialismo e pela violência, e sua seleção nacional reflete essa História.

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Opinião por Filipe Figueiredo

Filipe Figueiredo é graduado em história pela USP, comentarista de política internacional e criador dos podcasts Xadrez Verbal e Fronteiras Invisíveis do Futebol, sobre política internacional e história