O legislador Johannes Kaiser está subindo nas pesquisas antes da eleição presidencial de novembro em meio a preocupações crescentes com o crime e a imigração.
Ele foi chamado de “Gabriel Boric da direita” — talvez porque, como o jovem presidente do Chile, ele use barba e tenha feito seu nome criticando o establishment político do país.
Mas Johannes Maximilian Kaiser Barents-von Hohenhagen, 49 anos, se opõe a essa comparação.
“Trabalhei como operário, como garçom, como vendedor de valores mobiliários, fiz mil coisas diferentes”, disse Kaiser, um legislador na câmara baixa do Chile. “[Boric] era um ativista estudantil, entrou no Congresso e se tornou presidente. Ele nunca trabalhou um dia na vida.”

Kaiser, que se descreve orgulhosamente como um “reacionário”, agora está ganhando destaque depois que uma pesquisa recente mostrou que ele empatou na liderança das intenções de voto para a eleição presidencial de outubro. Ele é o mais recente populista de direita na América Latina a canalizar a frustração generalizada com o crime, a imigração e a política como praticada habitualmente, embora sua história tenha algumas reviravoltas distintamente chilenas.
A ascensão de Kaiser é resultado da reação ao movimento de protesto de rua do Chile em 2019, que por vários anos seguintes pareceu destinado a refazer a política do país em novos moldes mais progressistas, com políticas propostas para reduzir a desigualdade, oferecer melhores pensões e produzir uma nova constituição para substituir a carta de 1980, que data da ditadura de Augusto Pinochet. O próprio Boric foi eleito em 2021 prometendo uma cruzada contra o neoliberalismo e uma nova geração de liderança chilena.
Mas a iniciativa de reforma falhou, com os eleitores rejeitando duas novas constituições propostas, uma elaborada principalmente pela esquerda e a outra pela direita. Enquanto isso, as taxas de homicídio, embora ainda baixas para os padrões latino-americanos, aumentaram cerca de 50% desde 2018.

Kaiser foi um dos poucos políticos chilenos que se opôs consistentemente a todo o processo e ganhou reconhecimento no YouTube pela primeira vez por vídeos nos quais ele condenava o apoio da esquerda chilena à imigração ilegal e defendia as melhorias na qualidade de vida do Chile desde a década de 1990 contra as críticas generalizadas à ineficácia da rede de segurança social.
Hoje, sua postura antes solitária parece justificada aos olhos de muitos eleitores, dos quais apenas 20% ou mais agora dizem apoiar os objetivos do movimento de protesto, menos da metade do registrado há seis anos. Em uma entrevista, Kaiser disse à AQ que acredita que os protestos de 2019 foram uma “revolução colorida” financiada pela Venezuela e Bolívia, e criticou a direita chilena por negociar mudanças na constituição do país.
Kaiser converteu seus seguidores no YouTube em votos para obter uma cadeira legislativa em 2021. No ano passado, ele começou um novo partido com um nome semelhante ao seu canal no YouTube. Agora ele acha que seu próximo trabalho pode ser o de presidente.
Boric está impedido de concorrer a um segundo mandato consecutivo, e a ex-presidente de centro-esquerda, Michelle Bachelet, desistiu da disputa, deixando a ministra do interior de Boric, a veterana Carolina Tohá, como a principal candidata de centro-esquerda, embora muitos eleitores possam culpá-la por preocupações contínuas com a segurança pública. O ex-candidato de direita, José Antonio Kast, parece estar perdendo força para Kaiser nas pesquisas, enquanto a política de centro-direita Evelyn Matthei está se saindo bem e tem o apoio de grande parte do establishment político e empresarial do Chile.

De expatriado a deputado
Kaiser é o filho mais velho de uma família germano-chilena. De acordo com um perfil recente publicado no La Tercera, do Chile, ele se mudou para a Áustria no final dos anos 1990 e passou vários anos trabalhando em diferentes empregos dentro e fora da indústria do turismo e estudando, sem concluir um diploma.
Inspirado por Ron Paul, o político libertário dos EUA, Kaiser começou um canal no YouTube em 2013 como um hobby, enquanto dirigia a recepção noturna de um hotel, tornando-se um dos primeiros críticos da imigração em massa. Desde então, a imigração, em grande parte do Haiti e da Venezuela devastados por crises, transformou a sociedade chilena, com os imigrantes representando cerca de 9% da população até o final de 2022, ante 2% em 2012.
Quando o movimento de protesto ocorreu em 2019, Kaiser estava de volta ao Chile, visitando a Europa em setembro. Seus seguidores no YouTube triplicaram após os protestos, para 90.000, disse ele ao La Tercera.
“Naquela época, praticamente não havia uma voz para aqueles de nós que estavam resistindo”, disse Kaiser à AQ. “E aqueles de nós que tinham canais no YouTube ou plataformas de redes sociais se tornaram a voz daqueles que não se viam representados, nem mesmo pela direita política.”
O fato de não morar no país o libertou para ser mais firme em sua posição, ele disse: “Se eu estivesse no Chile fazendo essas críticas, teria sido atacado, talvez fisicamente.”
Uma guinada à direita para a direita chilena
Toda a classe política do Chile teve que se adaptar à mudança de humor público. Boric teve que se contentar com ajustes mais modestos, como uma reforma recente no sistema previdenciário.
Enquanto isso, a direita se tornou mais intransigente. Depois que José Antonio Kast rompeu com o partido de direita UDI para fundar o Republicanos, mais conservador, em 2019, ele concorreu à presidência em 2021, enfrentando Boric em um segundo turno.
Kaiser tinha acabado de ganhar uma cadeira legislativa como parte do Republicanos de Kast, com a ajuda de seus seguidores no YouTube. Mas ele renunciou ao partido antes do segundo turno, após controvérsia a respeito de seus comentários questionando se as mulheres deveriam ter o direito de votar (Kaiser disse à AQ que as observações foram tiradas do contexto).
Retornando ao partido no Congresso após a derrota de Kast, Kaiser rompeu com o Republicanos novamente em janeiro de 2024 para fundar seu próprio Partido Libertário Nacional, agora com seis membros na câmara baixa, defendendo um conservadorismo mais puro.
O rompimento de Kaiser com o Republicanos foi paralelo ao rompimento anterior de Kast com o UDI, disse Tomás Gold, especialista em movimentos de direita latino-americanos na Brown University. “Ele disse: ‘Estamos fazendo a mesma coisa novamente, estamos negociando com a esquerda’.”
Kaiser se opôs ao envolvimento próximo do Republicanos na redação da segunda proposta constitucional do Chile, por um órgão eleito sob regras de paridade de gênero.
“Os direitos políticos são individuais, não coletivos”, disse Kaiser à AQ. “Você não pode ter paridade de gênero nos resultados das eleições.”
“Kaiser surgiu como o candidato de direita mais puro”, disse Patricio Navia, professor da NYU e da Universidade Diego Portales do Chile.
Sua origem de outsider parece aumentar sua credibilidade aos olhos de muitos apoiadores. O establishment de direita do Chile está ligado às elites empresariais do país e à Igreja Católica, mas Kaiser é ortodoxo e criticou elementos dentro da comunidade empresarial do Chile.
“Às vezes, certos interesses econômicos não estão comprometidos com a liberdade econômica”, disse Kaiser à AQ. “Alguns grupos preferem estabilidade de curto prazo e não conseguem ver o impacto de médio e longo prazo.
Leia também
Maduro ordenou o assassinato internacional de um dissidente em território chileno?
Como Lula e presidentes de esquerda neutralizaram candidato do trumpismo na eleição da OEA
Imaginando um reavivamento do centrismo na América Latina
O futuro de Kaiser
Como presidente, Kaiser disse: “A principal prioridade seria combater o crime... controlar as fronteiras e expulsar os imigrantes que estão aqui ilegalmente”.
Ele se recusou a competir com o grupo de direita Chile Vamos em uma primária contra Evelyn Matthei, uma política de centro-direita vista como a favorita para a eleição de 2025.
Ele citou o apoio do grupo à recente reforma previdenciária de Boric, que aumenta as contribuições obrigatórias para contas de poupança individuais, com parte do aumento destinado a um “fundo de proteção estatal” e a melhorar as pensões das mulheres.
“Como podemos apoiar uma reforma que viola os direitos de propriedade dos trabalhadores sobre suas contribuições?”, ele disse à AQ. “O Chile Vamos violou os direitos de propriedade.”
Ele pode ir para uma primária com Kast, em relação a quem ele tem uma liderança nas pesquisas atuais. Isso pode criar uma corrida tripla entre Matthei, Tohá e Kaiser.
“Ele pode chegar a um segundo turno”, disse Navia. “Mas não vejo Kaiser vencendo uma eleição presidencial no Chile.”
Kaiser acha que suas chances são melhores do que isso. “Isso nos daria uma possibilidade de sucesso”, ele disse à AQ sobre a eventualidade de uma disputa tripla. “Acreditamos que podemos vencer essa campanha, e é para isso que estamos trabalhando.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL





