Trump: 'Navios do mundo, liguem seus motores. Que o petróleo flua'
Presidente dos Estados Unidos comemorou acordo de paz com o Irã, que prevê cessar-fogo no Oriente Médio e reabertura total do Estreito de Ormuz. Crédito: AFP
Há mais de cem dias, a maior potência militar do mundo entrou em guerra contra o Irã com o objetivo declarado de eliminar o programa nuclear iraniano, destruir suas capacidades militares e — ao menos na retórica inicial — derrubar o regime em Teerã. Nenhum desses objetivos foi atingido.
Pelo contrário: não há sinais claros de que Teerã tenha de fato interrompido seu programa nuclear; as forças armadas iranianas seguem capazes de atacar territórios vizinhos em retaliação aos ataques dos Estados Unidos; e o regime iraniano, antes fragilizado e pressionado pelas grandes manifestações populares em janeiro, passou por um processo de renovação e radicalização em resposta à guerra. Quem parece acuado não é Teerã, e sim Washington.
Neste domingo, em que completa 80 anos, o presidente Donald Trump anunciou que o acordo estava “concluído” e autorizou de imediato a reabertura do Estreito de Ormuz e a retirada do bloqueio naval aos portos iranianos. O entendimento, mediado por Paquistão e Catar, prevê a assinatura formal na Suíça e estende por sessenta dias o cessar-fogo em vigor desde abril. Mas o anúncio, mais do que encerrar a crise por enquanto, expõe a posição em que Washington se enfiou: uma superpotência que ditou ultimatos, mas dependeu de mediadores de Islamabad e Doha para amarrar um texto cujos termos centrais — sobretudo o destino do urânio enriquecido — ficaram adiados para uma negociação que apenas começa.
Tudo isso é notável por dois motivos. Primeiro: os Estados Unidos haviam negociado um acordo nuclear aceitável com o Irã em 2015 (sob Obama), antes de Trump rasgá-lo em 2018. Segundo: a guerra impôs um custo significativo aos Estados Unidos em várias frentes — como escreveu Robin Wright na revista The New Yorker em maio, “A guerra de Trump já custou, até o momento, ao menos 28 bilhões de dólares, a vida de treze cidadãos dos Estados Unidos e de milhares de iranianos, o fechamento paralisante do Estreito de Ormuz, a interrupção do fornecimento global de energia, uma crise econômica que atingiu centenas de milhões de pessoas em todo o mundo e um dano possivelmente irreversível à reputação dos Estados Unidos.”

Além de perceber que está com influência limitada sobre Teerã, Trump enfrenta dificuldades de controlar o governo israelense e o Hezbollah, dois atores-chave no conflito. Recentemente, um ataque aéreo israelense sobre os subúrbios do sul de Beirute — ordenado por Netanyahu sem coordenação com Washington — quase descarrilou as negociações e obrigou Trump a declarar publicamente que o ataque “não deveria ter acontecido” e que todos os lados deveriam “recuar”, no exato momento em que emissários do Catar estavam em Teerã para fechar o texto. Que o entendimento tenha sobrevivido a esse episódio não apaga o fato de que Tel Aviv demonstrou, mais uma vez, poder de veto informal sobre qualquer movimento entre Washington e Teerã.
Internamente, a guerra deu força aos radicais da Guarda Revolucionária, que não temem continuar ou até intensificar o conflito que os levou ao centro do poder da nação persa. O que está sobre a mesa não é um tratado de paz, mas, em linha com o que antecipara a revista The Economist, um compromisso de continuar negociando: a trégua estendida por sessenta dias, a reabertura gradual do estreito à medida que o Irã remove as minas, princípios gerais sobre o programa nuclear e um alívio de sanções condicionado e faseado, com os detalhes adiados. Foi Trump quem mais recuou. Por exemplo, a entrega integral do urânio enriquecido, inicialmente inegociável, cedeu lugar à aceitação de que o Irã dilua o material em seu próprio território, sob supervisão internacional.
O resultado mais relevante do conflito, porém, não envolve o Irã, mas os aliados dos Estados Unidos no Golfo, os quais absorveram danos de uma guerra que não pediram – e acabaram por se dar conta de que ter uma base americana em seu território não os protegeu. Pelo contrário, tornou-os alvos de ataques iranianos. Ao perceber que os Estados Unidos não estavam dispostos a protegê-lo — ou não eram capazes disso —, o Catar tentou negociar um acordo com o Irã, oferecendo suspender a produção de gás em troca do compromisso iraniano de não voltar a atacar suas principais instalações de energia no país.
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Daí decorre a lição para empresas e investidores ao redor do mundo: ao longo do conflito, o petróleo tipo Brent disparou com a destruição da oferta e depois recuou diante da expectativa de acordo, num vaivém que não foi episódio isolado, mas sintoma de um novo regime de risco — a volatilidade veio para ficar. Contratos futuros, seguros e reservas amortecem choques, mas não substituem o fluxo físico naquelas águas em disputa. O presidente da empresa Saudi Aramco já advertiu que, mesmo com a reabertura, o mercado levará meses para reequilibrar e só se normalizará em 2027; prêmios de seguro e fretes, enquanto isso, viraram custo permanente.
Há, contudo, um beneficiário improvável dessa instabilidade: ao tornar imprevisíveis os preços de petróleo e gás, a guerra acelerou a corrida global por energia limpa, e países asiáticos castigados pela escassez passaram a enxergar painéis solares, baterias e veículos elétricos chineses como rota de fuga da dependência do Golfo.
Para Trump, sobrou um caminho amargo: levantar o bloqueio para destravar um estreito cuja travessia, antes da guerra, ninguém precisava negociar, enquanto a questão nuclear ficou para depois. Para o mundo, e para os investidores, a herança é mais fria e mais durável. Independentemente de como evoluam as negociações, o risco geopolítico elevado na energia deixou de ser um episódio e virou custo fixo.




