Óvnis nos EUA? Audiência no Congresso apresenta testemunho histórico de oficiais do Pentágono

Foto: Jim Lo Scalzo/EFE
Por Shane Harris
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Foi a primeira vez em mais de 50 anos que oficiais americanos falaram publicamente no Congresso sobre sua investigação

Por Shane Harris
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THE WASHINGTON POST - O Congresso americano realizou uma rara audiência pública na terça-feira, 17, sobre a existência do que o governo chama de fenômenos aéreos não identificados, mais comumente conhecidos como óvnis, objeto de investigação do Pentágono e das agências de inteligência dos EUA após um aumento nos avistamentos de militares e pilotos nos últimos anos.

Ao receber depoimentos de altos funcionários do governo, os legisladores pretendiam “tirar das sombras” um setor do Departamento de Defesa que acompanha esses avistamentos, disse o deputado André Carson, presidente da subcomissão de Inteligência da Câmara sobre contraterrorismo, contra-inteligência e contraproliferação.

Esse esforço, revelado em 2017, coletou relatos de testemunhas oculares, incluindo de aviadores navais, que disseram ter visto objetos voadores que pareciam não ter meios visíveis de propulsão e desafiavam a compreensão humana de aerodinâmica e física.

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Subsecretário de Defesa para Inteliência Ronald Moultrie testemunha no Congresso sobre investigações relacionadas a óvnis
Subsecretário de Defesa para Inteliência Ronald Moultrie testemunha no Congresso sobre investigações relacionadas a óvnis Foto: Kevin Dietsch / AFP

A audiência foi a primeira vez em mais de 50 anos que oficiais dos EUA forneceram testemunhos para consumo público sobre sua investigação de óvnis. A Força Aérea encerrou sua investigação sobre o assunto, Projeto Blue Book, em 1970.

“Sabemos que nossos militares encontraram fenômenos aéreos não identificados”, disse Ronald S. Moultrie, subsecretário de Defesa para Inteligência e Segurança, ao painel bipartidário de legisladores. “Estamos comprometidos com um esforço para determinar suas origens.”

Embora a audiência tenha marcado um momento significativo nos esforços do governo para averiguar mais sobre o que se sabe sobre objetos inexplicáveis no céu, ela teve poucas revelações. Scott W. Bray, subdiretor de Inteligência naval, exibiu um breve vídeo do que descreveu como “um objeto esférico” com uma superfície reflexiva enquanto passava pela cabine de um caça F-18 dos EUA.

“Não tenho uma explicação para o que é esse objeto específico”, disse Bray.

Os legisladores pediram a Bray que reproduzisse o vídeo e fizesse uma pausa no objeto em movimento rápido, o que foi difícil devido à sua velocidade.

Scott W. Bray, subdiretor de Inteligência naval, exibe no Congresso um breve vídeo feito por um piloto de caça americano de um objeto não identificado
Scott W. Bray, subdiretor de Inteligência naval, exibe no Congresso um breve vídeo feito por um piloto de caça americano de um objeto não identificado Foto: Kevin Dietsch/AFP

O sigilo sobre o vídeo foi retirado recentemente e ele foi exibido pela primeira vez na audiência. Imagens anteriores de aeronaves e navios mostraram outros fenômenos inexplicáveis observados por períodos mais longos.

Um dos mais famosos desses avistamentos, feito por jatos do porta-aviões USS Nimitz em 2004, mostra um objeto que parece disparar pelo ar em várias direções a uma altíssima velocidade. Pesquisadores de óvnis o apelidaram de Tic Tac por causa de sua forma de cápsula.

Os pilotos altamente treinados que testemunharam o objeto – que Bray disse que permanece inexplicável – disseram publicamente que estavam perplexos e relutantes em discutir sua experiência, devido a uma cultura estigmatizada e persistente sobre aviadores que relatam óvnis.

Bray e Moultrie disseram que os militares querem mudar essa cultura. Nos últimos anos, o pessoal foi incentivado a relatar avistamentos, e os militares agora têm um sistema padronizado para rastrear e analisar informações. “A mensagem é clara: se você vir algo, precisa denunciá-lo”, disse Bray.

Ameaça à segurança

Os avistamentos de militares foram especialmente altos, levando alguns a especular que equipamentos e instalações militares podem ser de particular interesse para quem está por trás da nave não identificada, incluindo militares estrangeiros.

Bray disse que os EUA também têm relatórios de fontes não militares, mas não deu mais detalhes.

Autoridades disseram que os objetos não identificados podem representar uma ameaça à segurança nacional. Isso ajudou a estimular mais abertura sobre o assunto. Em seu testemunho, os oficiais do Pentágono se concentraram principalmente no perigo potencial que os objetos representam para equipamentos e pessoal militar, e evitaram especulações sobre se a nave era extraterrestre.

Bray observou que os pilotos militares dos EUA tiveram “11 quase acidentes” com óvnis. Não houve colisões, disse ele. Ele acrescentou que os militares nunca tentaram se comunicar com os objetos ou atiraram neles.

Autoridades dizem duvidar que o punhado de avistamentos para os quais não há explicação clara aponte para uma tecnologia militar sofisticada e secreta que a Rússia, a China ou outros adversários dos EUA possuem.

O relatório de inteligência do ano passado descobriu que os investigadores do governo dos EUA não tinham dados para indicar que a nave “faz parte de um programa de coleta estrangeira ou indica um grande avanço tecnológico por um adversário em potencial”.

Segredos

O governo não conseguiu determinar se mais de 140 óvnis eram eventos atmosféricos pregando peças em sensores ou naves pilotadas por adversários estrangeiros, ou se os objetos eram de origem extraterrestre.

Os investigadores do Departamento de Defesa não têm nenhuma evidência física que possa sugerir que visitantes de outros mundos vieram à Terra, disse Bray. Mas ele reconheceu implicitamente que os EUA coletaram objetos tangíveis no decorrer de sua investigação.

“Que tal destroços?” perguntou o deputado Raja Krishnamoorthi. “Encontramos algum destroço de qualquer tipo de objeto que agora esteja sendo examinado por vocês?”

Bray respondeu que os investigadores dos EUA não “têm nenhum destroço que não seja explicável, que não seja consistente com a origem terrestre”.

Krishnamoorthi perguntou se os militares tinham algum “sensor subaquático” que pudesse ter detectado objetos submersos. Moultrie interveio e disse que a questão seria melhor abordada em uma sessão fechada e confidencial que se seguiu à audiência pública.

Os oficiais têm sido historicamente cuidadosos em suas discussões públicas sobre óvnis para não revelar muito sobre sensores e outras tecnologias que os militares usam para rastrear adversários conhecidos. Moultrie disse que a mesma tecnologia que está coletando evidências de óvnis é usada para operações de inteligência de rotina.

“Não há sensores UAP separados”, disse ele, usando o acrônimo preferido do governo para fenômenos aéreos não identificados. “Não é um computador de processamento UAP separado. Não é uma cadeia de disseminação de UAP separada ou qualquer outra coisa.”

Embora a audiência tenha se concentrado principalmente nas evidências conhecidas associadas à estranha nave, foi difícil evitar o “alienígena” no meio da sala.

Vídeo de um objeto não identificado apresentado no Congresso: EUA querem mudar cultura estigmatizada de militares que fazem relatos de óvnis
Vídeo de um objeto não identificado apresentado no Congresso: EUA querem mudar cultura estigmatizada de militares que fazem relatos de óvnis Foto: Kevin Dietsch / AFP

No início de suas observações, Moultrie disse que, como muitos americanos, há muito tempo ele é fascinado pela busca dos humanos para explorar o espaço e buscar evidências de vida além do nosso planeta.

Mas as avaliações do Pentágono, disse ele, foram orientadas por dados e evidências, e não especulariam sobre as origens ou a natureza de objetos que não pudessem ser identificados positivamente.

Mas acenando para o óbvio fascínio por seres alienígenas, Moultrie disse que ele era um fã de ficção científica de longa data e havia participado de convenções, embora ele não “necessariamente se vestisse” como os participantes.

“Precisamos quebrar o gelo de alguma forma”, disse Moultrie para risos nervosos na sala de audiência.

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