Por que a Crimeia voltou ao centro da Guerra na Ucrânia?
Antigos moradores reagem à sugestão de Donald Trump de entregar península à Rússia após 11 anos de ocupação.
Gerando resumo
A professora Valentina Potapova, 62, não precisa se esforçar muito para lembrar aqueles dias de 2014. Nascida em Yalta, na Crimeia, ela viveu durante sete meses sob a ocupação russa da Península antes de fugir para Kiev. Desde então, são mais de 10 anos esperando voltar enquanto vê o mundo condenar a anexação ilegal de sua terra natal por Moscou. Até agora. Em abril, o presidente americano Donald Trump falou pela primeira vez que “a Crimeia ficará com a Rússia”.
Para ela e outros antigos moradores da península ouvidos pelo Estadão, desistir da Crimeia não é um cenário minimamente imaginável, já que parte de suas famílias e amigos continuam lá. E isso é ainda mais verdade no caso dos Tártaros da Crimeia, uma minoria autóctone que habita o local desde pelo menos o século 15 e já foi expulsa várias vezes.
Russos e ucranianos fracassaram em retomar as conversas sobre um possível acordo de paz, com mediação dos Estados Unidos. A Rússia voltou a exigir que a Ucrânia entregue 20% de seu território para só então falar em um cessar-fogo tão desejado pelos ucranianos A demanda não é nova. O novo é a recente disposição de Trump em aceitar essa exigência.

A fala surpreendeu. O próprio Trump, em seu primeiro mandato, emitiu uma “Declaração da Crimeia”, na qual prometia manter a política de não reconhecimento “até que a integridade territorial da Ucrânia fosse restaurada”.
Moscou pede, e Trump agora endossa, que a situação no front de batalha seja congelada como está atualmente, e a Rússia mantenha o controle sobre os territórios que já obteve. Isso inclui, além da península da Crimeia, as províncias de Donetsk, Luhansk e partes de Kherson e Zaporizhzhia.
Para a Ucrânia essa é uma concessão cara demais. Para a Europa e para o mundo, também. “Nada disso é normal. Estamos falando de fronteiras internacionais reconhecidas e isso é do direito internacional. Se agora dissermos ‘ok, estamos prontos para entregar a Crimeia’. Isso significa que, se você é uma potência, você pode fazer o que quiser em qualquer região do mundo”, observa a deputada ucraniana Tamila Tasheva, ex-Representante Permanente do Presidente da Ucrânia na República Autônoma da Crimeia.
Será como uma bola de neve, por exemplo, para a África, para o Oriente Médio e para muitas outras regiões do mundo, onde sempre há tensões entre vizinhos.
Tamila Tasheva, ex-Representante Permanente do Presidente da Ucrânia na República Autônoma da Crimeia
Disputa histórica e estratégica
A disputa pela Crimeia é tanto estratégica quanto histórica, conectada com a visão que Vladimir Putin tem da mítica Rus, o primeiro Estado eslavo do mundo, formado no século 9 d.C e cujo centro de poder era Kiev. Catarina, a Grande, a czarina russa de origem alemã que governou entre 1762 e 1796, incorporou a Crimeia ao território do império russo em 1783.
Idas e vindas, disputas e guerras fizeram o território mudar de mãos ao longo dos séculos, mas Josef Stalin também o incorporou à União Soviética. Com a queda do regime nos anos 1990, a península foi mantida como parte da Ucrânia, algo que Putin considera ter sido um erro.
A região é privilegiada. Além de reunir belas praias, muito desfrutadas por czares russos e líderes comunistas em férias, a Crimeia tem uma saída estratégica para o Mar Negro. Isso é essencial tanto para a segurança quanto para escoamento de grãos - a Ucrânia era conhecida como o “celeiro do mundo” antes da guerra.
Durante o seu período de anexação da Crimeia, a Rússia construiu a Ponte do Estreito de Kerch, que pela primeira vez conectou a península ao território russo diretamente. A ponte foi vital para promover a invasão em larga escala da Ucrânia depois de fevereiro de 2022, fornecendo um caminho rápido e fácil de abastecimento de suas tropas na Ucrânia. Não à toa, a ponte é um constante alvo militar, com ousados e bem-sucedidos planos de explosão dos ucranianos.

“Quando a invasão em larga escala aconteceu, entendemos como a Rússia usou a Península da Crimeia como trampolim para uma operação contra todo o território ucraniano”, observa Tasheva.
“E todos esses métodos de violação de direitos humanos, esse manual que eles usaram na Crimeia, após 2022, eles passaram a usar no sul da Ucrânia, na região de Kherson, de Zaporizhzhia, assim como usaram exatamente a mesma estrutura no leste da Ucrânia”, completa.
Além de um precedente perigoso para o mundo e um risco à segurança ucraniana no futuro, Tasheva diz que entregar o território aos russos seria o mesmo que fechar os olhos para os crimes de guerra cometidos ali. Há inúmeros relatórios de organizações internacionais que apontam para um método de “russificação” do território e de sua população.
Para Tasheva, isso é uma agressão também em nível pessoal. Ela é uma tártara da Crimeia.

Para os tártaros, uma ‘recolonização’
Os tártaros da Crimeia são os moradores originários da Península desde pelo menos os anos 1441 e, para eles, a ocupação russa é uma história que se repete. A família de Alim Aliev, 36, foi deportada da Crimeia em 1944, durante o regime comunista na União Soviética. Por isso, ele nasceu no Uzbequistão. Mas na primeira oportunidade que a família teve de retornar para sua terra natal, ela retornou.
“Minha família estava na primeira onda de retornados à Crimeia. Precisamos de 45 anos para retornar. E agora temos a mesma situação. Não é possível para mim ir à Crimeia, mas uma parte da minha família está lá. E nós, tártaros da Crimeia, temos esse lema: devemos morar na Crimeia.”
Para os tártaros da Crimeia, não é só uma ocupação. Para nós, é uma recolonização. E recolonização significa uma nova tentativa de colonização pelo império russo. Somos um povo autóctone da Ucrânia. Temos uma língua diferente dos ucranianos, religião diferente, cultura diferente, mas nos consideramos ucranianos políticos, parte da nação política da Ucrânia.
Alim Aliev, jornalista e ativista político
Aliev saiu da Crimeia antes da ocupação russa, mas visitava com frequência a família e os amigos lá. A última vez que pisou no local que chama de terra natal, apesar de ser uzbeque, foi em janeiro de 2014. “Até hoje, parte dos meus amigos e da minha família vive na Crimeia e desde então eu vivo uma vida dividida. Eu perdi minha casa e de certa forma perdi um pouco de mim mesmo porque, para nós, a Crimeia não é só um território, é parte da nossa identidade”, diz.
“Quando eu digo que vivo uma vida dividida é porque parte dos meus entes queridos estão em ocupação temporária, outra parte está em uma migração forçada, outra parte está espalhada pela Ucrânia, alguns estão no Exército e outros estão presos em prisões russas”, diz.
Junto com Tamila Tasheva, ele e amigos criaram nos primeiros dias da ocupação russa um grupo no Facebook chamado SOS Crimeia, que cresceu e hoje é uma ONG voltada a divulgar violações aos direitos humanos na península, bem como manter a cultura tártara viva. Um de seus maiores medos, conta Aliev, é ver seu povo ser apagado da história.
Antes da primeira onda de expulsão sob Catarina, a Grande, os tártaros representavam cerca de 95% da população da Crimeia. Hoje esse percentual é de 15%. Números que, segundo Alim e Tamila, demonstram o apagamento étnico de seu povo.
Antes de desligar a chamada, Alim se despede repetindo um bordão dos ucranianos “Espero te ver após a nossa vitória”, mas falando na língua dos tártaros da Crimeia, um idioma classificado como altamente ameaçado de desaparecer pela Unesco. “Espero que nos vejamos em um futuro próximo em nossa Crimeia livre”, traduz.
Um irmão ‘russificado’
Era fevereiro de 2014. Toda a Ucrânia fervilhava em protestos conhecidos como a Revolução Maidan, desencadeados pela recusa do então presidente pró-Moscou Viktor Yanukovich de assinar um acordo de associação do país à União Europeia. Em Yalta, cidade conhecida por dar nome à conferência que definiu as fronteiras de alguns países e as regras da geopolítica mundial no pós-2º Guerra, não era diferente. Os alunos universitários da professora Valentina Potapova marchavam em frente ao parlamento da Crimeia, em Simferopol.
Então, militares chegaram e tomaram o Parlamento. Em um primeiro momento ela não entendeu que eram russos: os militares não traziam nenhuma identificação em seus uniformes. Ela chegou a pensar que se tratava de algum cenário de gravação de filme.
Valentina relembrou esses primeiros dias da ocupação com muita rapidez e detalhes enquanto conversava, em ucraniano com auxílio de uma tradutora, por vídeo chamada com o Estadão. “Eu não preciso me esforçar muito para me lembrar, porque sonho até hoje com aqueles dias”, conta Valentina.

Algumas semanas depois, em março, a Rússia promoveu um referendo ilegal que anexou a província à Federação Russa. Apesar da anexação, Valentina decidiu ficar na Crimeia. Mesmo sabendo dos riscos, afinal, vários de seus alunos passaram a ser perseguidos e tiveram de fugir para Kiev. Ela então passou a ajudá-los, ilegalmente, a se transferir para as universidades da capital para continuar com os estudos.
A professora ficou por causa da mãe, que na época tinha 75 anos e não conseguia fugir. Mas o trabalho clandestino, ajudando os alunos a fugir, e suas aulas, que incitavam um levante contra a ocupação russa, a colocaram na mira da inteligência de Moscou. Para proteger o marido e a filha, decidiu ir embora em outubro. A mãe dela ficou.
“A última vez que eu vi a minha mãe foi em maio de 2016. Em 2019 ela morreu e eu não pude nem ir ao funeral dela”, lamentou. Ela se emocionou quando a reportagem do Estadão pediu a ela uma foto da mãe. Valentina já não tem quase nenhuma: a maioria havia ficado na Crimeia.

Além da mãe, Valentina sente que também perdeu o irmão. Até a invasão em larga escala de 2022, ele era contra a Rússia. Se manteve firme nesta opinião no primeiro mês da guerra. Mas a partir de abril daquele ano, Valentina diz que seu discurso mudou. “Ele começou a falar essas teses de propaganda russa”.
Com o tempo, ela decidiu cortar a comunicação com o irmão, mas ainda recebe notícias dele. Soube que seu sobrinho, que na época da anexação tinha 14 anos, agora luta ao lado dos russos. “Se tornou um dilema moral para mim. Se ele morrer, por um lado estava lutando contra mim, sua própria tia. Por outro, é o filho do meu irmão”, diz.
Quando questionada sobre a proposta de entregar a Crimeia definitivamente aos russos, Valentina é pragmática. Sabe que retirá-los agora é quase impossível, mas acredita que nenhum acordo deve ser assinado com tamanha concessão. “Não consigo aceitar essa proposta, porque, na minha cabeça, a Rússia roubou um pedaço de mim, e deve ser punida por isso”.








