Paredão de fuzilamento e ajuda de Putin: como Kim Jong-un reergueu a ditadura mais fechada do mundo

Líder norte-coreano aproveitou oportunidades internas e externas para aumentar a repressão e transformar seu país

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Por Choe Sang-Hun (The New York Times)
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Quem está por trás do fã-clube da Coreia do Norte no Brasil?

Parte do trabalho internacional de propaganda feito por Pyongyang é organizado pela Korean Friendship Association (KFA); entenda. Crédito: Estadão

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Durante a pandemia, o líder norte-coreano Kim Jong-un, que há muito se autoproclamava invencível, fez um pedido de desculpas comovente e emocionado na televisão nacional.

“Sinto muito mesmo”, disse ele, enquanto o coronavírus, somado à escassez de alimentos e às sanções internacionais, devastava o país. “Meus esforços e sinceridade não foram suficientes para livrar nosso povo das dificuldades em suas vidas.”

Kim Jong-un é reconhecido interna e externamente como o líder mais poderoso da Coreia do Norte Foto: KCNA VIA KNS/AFP

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Mas enquanto os norte-coreanos comuns sofriam, Kim, de 42 anos, aproveitou a crise como uma oportunidade única. Agora, ele transborda confiança. É reconhecido interna e externamente como o líder mais poderoso da Coreia do Norte até hoje, superando até mesmo seu avô, o fundador do país, por ter alcançado o status de potência nuclear de fato.

Durante a pandemia, ele começou fechando a fronteira com a China, emitindo ordens para atirar para matar a fim de impedir que norte-coreanos fugissem para o outro lado da fronteira. Ele reprimiu o comércio e o contrabando na fronteira, forçando seu povo a depender menos de importações e a produzir mais bens internamente.

Sua campanha também teve como alvo os mercados informais, onde muitos sobreviviam com dificuldades — comercializando produtos chineses e entretenimento estrangeiro contrabandeado em pen drives — desde a devastadora fome da década de 1990.

Ao desmantelar esses mercados clandestinos, Kim fortaleceu o monopólio do regime sobre a economia e a ideologia. A repressão foi brutal. Aqueles flagrados distribuindo K-pop ou doramas eram executados publicamente.

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Ao mesmo tempo, ele desrespeitou as sanções internacionais para expandir continuamente seu arsenal nuclear. A Coreia do Norte construiu uma nova geração de mísseis capazes de atingir seus adversários mais próximos, Coreia do Sul e Japão, com ogivas nucleares. Também está desenvolvendo meios para atingir o território continental dos Estados Unidos, por meio de submarinos nucleares e tecnologia de mísseis balísticos intercontinentais.

Kim também aproveitou uma oportunidade inesperada no exterior. Enquanto a Rússia lutava em sua guerra contra a Ucrânia, ele forneceu armas e tropas ao Kremlin. Moscou retribuiu com tecnologia bélica para ajudar a modernizar as defesas aéreas da Coreia do Norte e outras partes vulneráveis ​​de suas forças armadas, além de alimentos, petróleo e até mesmo turistas, que eram extremamente necessários. As duas nações assinaram um tratado de defesa mútua e cooperação, atenuando o isolamento econômico de Pyongyang e elevando seu status internacional.

O status de destaque de Kim ficou evidente em Pequim em 2025, quando ele assistiu a um desfile militar ao lado de seus homólogos russo e chinês, Vladimir Putin e Xi Jinping Foto: KCNA via KNS via AP

Para descobrir como Kim conseguiu essa transformação, o The New York Times conversou com mais de uma dúzia de desertores pós-pandemia, entrevistou especialistas com contatos internos e analisou a mídia estatal e documentos vazados do regime.

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Jiro Ishimaru, editor-chefe da Asia Press International, com sede no Japão e correspondentes clandestinos dentro da Coreia do Norte, afirmou: “Nos últimos anos, Kim Jong-un passou do inferno ao paraíso”.

A ameaça invisível da covid

A Coreia do Norte alega ter derrotado a covid-19 sem vacinas, perdendo apenas algumas dezenas de pessoas.

Mas, à medida que o vírus se espalhava, Kim Il-hyeok viu pessoas morrerem em números incomuns em seu bairro na província de Hwanghae, uma região agrícola importante. As autoridades estavam desviando arroz da região para alimentar as elites em Pyongyang e os militares, disse ele.

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Como não havia testes de Covid disponíveis, era difícil dizer se morreram de fome ou do vírus. Aqueles que adoeciam não relatavam o problema às autoridades por medo de serem colocados em quarentena sem comida. Sem medicamentos, recorriam a remédios caseiros, como beber suco de casca de árvore, o que, muitas vezes, piorava seu estado.

“As famílias não tinham dinheiro para caixões”, disse Kim, de 36 anos, que fugiu para a Coreia do Sul de barco com oito parentes em 2023. “Alguns não tinham forças nem para cavar uma cova.”

A confiança dos norte-coreanos no governo vem diminuindo desde a fome da década de 1990, segundo desertores. Com o colapso do sistema de racionamento do governo, os norte-coreanos aprenderam a se virar sozinhos em mercados informais, onde negociavam mercadorias, inclusive contrabandeadas da China. Os mercados também se tornaram um terreno fértil para a corrupção, já que os funcionários recebiam propinas dos comerciantes.

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Junto com esses itens vieram pen drives contendo séries sul-coreanas, incluindo “Pousando no Amor” (Crash Landing on You), em que um acidente de parapente leva uma herdeira sul-coreana para a Coreia do Norte e para os braços de um oficial do Exército Popular. Os norte-coreanos os devoravam com avidez — escondidos a portas fechadas e debaixo de cobertores por medo da polícia secreta, que monitorava os bairros rotineiramente, disse Kim.

Em 2010, a cidade litorânea de Kim foi palco de um duelo de artilharia entre as duas Coreias. Os moradores correram para remover retratos de líderes do Estado para proteger as imagens, um sinal de sua devoção e lealdade. Em 2023, disse Kim, cerca de oito em cada dez pessoas em seu bairro assistiam a séries sul-coreanas — um sinal de quanta coisa havia mudado.

“A lealdade ao partido não era mais tão importante quanto ganhar dinheiro”, disse ela.

Essa mudança alarmou Pyongyang. Kim Jong-un estava cada vez mais preocupado com o conteúdo “não socialista” que corrompia os jovens norte-coreanos, comparando-o a um “câncer maligno”. Seu regime chamava de “traidores” aqueles que se expunham à influência externa e pedia que fossem “atacados impiedosamente”, de acordo com um documento confidencial datado de junho de 2024, obtido pela Human Rights Foundation, uma organização sem fins lucrativos com sede em Nova York. O New York Times também teve acesso a documentos internos semelhantes contrabandeados para fora da Coreia do Norte.

Uma sombra esquecida no passado do ditador

Para Kim, a ameaça representada pela liberdade de informação era profundamente pessoal — sua repressão, segundo analistas, foi motivada em parte pelo desejo de suprimir o conhecimento sobre sua linhagem.

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Sua mãe, Ko Yong-hui, nasceu no Japão, de acordo com historiadores estrangeiros. Isso a colocava em uma classe inferior na Coreia do Norte, um país construído sobre um profundo ódio ao Japão após décadas de domínio colonial. Seu pai aparentemente nunca apresentou Ko e o filho deles ao avô de Kim, Kim Il-sung, disseram desertores. O menino foi enviado para passar parte da adolescência na Suíça.

A história da mãe de Kim — mantida em segredo por muito tempo dentro da Coreia do Norte — tornou-se um ponto central da propaganda de ativistas sul-coreanos nos últimos anos. Eles lançaram panfletos com essas informações na Coreia do Norte por meio de balões, o que ajudou a desencadear a ampla repressão de Kim contra informações externas.

“Ele era uma criança escondida do avô, exilada no exterior e trazida de volta para casa após a morte do avô”, disse Kim Kang, um diplomata norte-coreano na Rússia que desertou para a Coreia do Sul.

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Antes de morrer em 2004, Ko ajudou a garantir que Kim Jong-il escolhesse o filho deles como herdeiro. Mesmo assim, o “complexo de Kim era o de filho de uma concubina real”, disse Kwak Gil-sup, especialista em Coreia do Norte do Centro Uma Coreia, com sede em Seul.

“Enquanto seu pai era vivo, ele lutou para conquistar seu favor”, disse Kwak. “Depois que assumiu o poder, ele se viu impulsionado a provar ser diferente e melhor que o pai.”

A Repressão pós-pandemia

Quando sucedeu seu pai em 2011, Kim prometeu aos norte-coreanos que eles não precisariam mais “apertar o cinto”. Ele se apresentou como um líder que priorizava as pessoas, sobrevoando áreas alagadas em lanchas, visitando vítimas em abrigos temporários e embalando bebês em seu colo.

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Mas sua dispendiosa busca por armas nucleares e seu próprio estilo de vida extravagante contrastavam com a realidade dos cidadãos comuns.

Enquanto agências humanitárias relatavam desnutrição generalizada no país, a circunferência abdominal de Kim aumentava, levantando questões sobre sua saúde. Herdando o gosto do pai por vinhos e jantares requintados, ele se fartava de bife Wagyu, atum toro, sopa de barbatana de tubarão, queijo suíço, lagosta, caviar e foie gras, de acordo com chefs familiarizados com seus hábitos alimentares. Ele consumia vinho Bordeaux e champanhe Cristal em grandes quantidades.

Ele exercia poder desencadeando o que as autoridades sul-coreanas chamavam de reinado de terror. Ele executou aqueles que o desagradavam, incluindo seu próprio tio, Jang Song-thaek. Enviou agentes para assassinar Kim Jong-nam, seu meio-irmão que, como primogênito de seu pai, representava uma ameaça ao trono dinástico de Kim.

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Ainda assim, o controle do Estado havia afrouxado nas décadas seguintes à fome. Então, a pandemia ajudou. Kim reafirmou seu poder.

Líder norte-coreano Kim Jong Un visitou, no último dia 6, uma fábrica do complexo militar-industrial para inspecionar a produção em um local não revelado Foto: KCNA VIA KNS/AFP

Ele promulgou leis com penas draconianas, incluindo execuções por fuzilamento, para aqueles que consumissem e distribuíssem conteúdo antissocialista, ou mesmo imitassem a fala e os estilos de vestimenta sul-coreanos. Segundo desertores, funcionários invadiram casas, revirando gavetas e cobertores em busca de pen drives com entretenimento estrangeiro.

Kim Il-hyeok, o desertor que fugiu de barco, disse ter presenciado dezenas de assassinatos em sua cidade nos três anos anteriores à sua fuga, em comparação com meia dúzia nas duas décadas anteriores. As execuções ocorreram em pátios de escolas e outros espaços abertos, onde os condenados eram denunciados diante de milhares de pessoas.

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Ele relatou como um jovem de 22 anos que ele conhecia foi executado em 2022 por distribuir três dramas sul-coreanos e 70 músicas de K-pop. Ele vestia uma longa túnica branca, semelhante a um saco, e tinha um capuz sobre a cabeça. Três homens armados dispararam cinco tiros cada.

“Quando você assiste a tantas execuções, fica insensível, incapaz de distinguir um ser humano de um animal”, disse ele.

A Bonança vinda de Moscou

Enquanto Kim sufocava a influência estrangeira internamente, ele tramava no exterior — manobrando para estancar a espiral descendente da economia do país.

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Com todas as suas principais exportações bloqueadas pelas sanções internacionais, a Coreia do Norte buscou receita contrabandeando carvão e coletando os salários de seus trabalhadores na China, que continuaram a trabalhar para o governo de Kim durante a pandemia. Kim mobilizou um exército de hackers e engenheiros de computação online para roubar bilhões de dólares em criptomoedas e ganhar dinheiro fazendo trabalhos freelance de TI com identidades falsas.

Mas Kim precisava de mais para reanimar uma economia que havia sido prejudicada pelo duplo golpe das sanções mais severas do mundo e da pandemia.

Ele viu uma oportunidade após a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia em 2022, oferecendo tropas e munições norte-coreanas.

As fábricas de munições operaram a todo vapor para atender à demanda do esforço de guerra russo. Cerca de 16 mil soldados norte-coreanos lutaram na guerra, testando suas armas em combate e adquirindo conhecimentos valiosos sobre a guerra moderna, incluindo o uso de drones, segundo autoridades da inteligência sul-coreana. A Coreia do Norte também enviou trabalhadores para a Rússia para gerar renda para o regime, disseram eles. Especialistas militares temem que, com a ajuda russa, a Coreia do Norte esteja construindo seu primeiro submarino nuclear e outros navios de guerra modernos, bem como uma frota de drones militares.

Em 2024, a economia da Coreia do Norte cresceu 3,7%, a maior taxa de crescimento em oito anos, de acordo com as estimativas mais recentes do banco central da Coreia do Sul.

A parceria militar entre Rússia e Coreia do Norte tem minado abertamente as sanções da ONU — uma das principais ferramentas diplomáticas de Washington. O aprofundamento dessa relação também serve ao objetivo estratégico mais amplo de Kim Jong-un: equilibrar os laços entre a China e a Rússia.

“A Coreia do Norte tem hoje a maior influência que teve nos últimos 30 anos”, disse Frank Aum, ex-especialista em Coreia do Pentágono.

Uma melhora nítida na economia

Nos últimos dois anos, houve claros sinais de melhoria econômica na Coreia do Norte. Kim Jong-un concluiu alguns de seus projetos prioritários, há muito adiados, como grandes cidades litorâneas, resorts de esqui e spas, e complexos de estufas construídos em aeroportos, incluindo um do tamanho de 400 campos de futebol. Novos prédios de apartamentos surgiram não apenas em Pyongyang, mas também em cidades do interior. Kim Jong-un mobilizou soldados para esses projetos de construção, financiando-os com remessas de norte-coreanos que trabalham no exterior e doações forçadas de indivíduos que enriqueceram com contrabando e atividades de mercado, de acordo com desertores e analistas.

A Coreia do Norte adicionou mais terminais de petróleo em seus portos e há mais carros, ônibus, caminhões e equipamentos de construção visíveis em todo o país, disse Joung Eunlee, analista do Instituto Coreano de Estudos da Unificação, com sede em Seul, que estudou imagens de satélite e entrevistou visitantes recentes. Em Pyongyang, que antes era pouco iluminada à noite, os letreiros de néon brilham mais intensamente do que nunca.

Os elevadores dos prédios residenciais funcionam pelo menos por algumas horas por dia, segundo desertores e visitantes recentes. Há mais postos de gasolina e mais carros particulares, alguns deles elétricos vindos da China. Filas se formam em frente aos bares de Pyongyang. Famílias usam aplicativos de celular para fazer compras e pedir comida por delivery.

Altos funcionários e suas famílias em Pyongyang ainda vivem uma vida que o resto do país mal consegue imaginar: apartamentos espaçosos com saunas, empregadas domésticas, eletrônicos chineses e japoneses e elevadores funcionando 24 horas por dia, 7 dias por semana, disse o ex-funcionário do comércio que desertou no ano passado.

Em um discurso no Parlamento norte-coreano, em março, Kim Jong-un falou em termos triunfantes sobre uma “transformação milagrosa”. Ele apontou para o aumento significativo nos investimentos e para a construção residencial em larga escala.

“O nosso país já não é suscetível a ameaças externas”, afirmou.

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