Semicondutores de Taiwan podem não ser suficiente para protegê-lo da China; entenda

Os estrategistas do presidente chinês, Xi Jinping, observam o Estreito de Ormuz e estudam algo ainda mais valioso do que as fragatas navais: o processo de tomada de decisões americano

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colunista convidado
Por Todd G. Buchholz (Project Syndicate)

Qual o futuro do mundo em meio à rivalidade EUA e China?

Especialistas Gunther Rudzit e Cristina Pecequilo debatem a política americana, de George Washington a Donald Trump. Crédito: Estadão

Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

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SAN DIEGO — À medida que a guerra entre os Estados Unidos e o Irã ameaça desencadear uma crise energética mundial, outro ponto nevrálgico pode chegar ao ponto de ebulição: Taiwan. Durante uma visita recente a Taipé, não precisei ler mandarim para identificar a notícia principal de cada dia: mais um passo na campanha da China para intimidar a ilha.

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O que outrora teria sido considerado uma crise – aeronaves do Exército Popular de Libertação cruzando a linha mediana do Estreito de Taiwan, navios e balões de vigilância do EPL se aproximando cada vez mais, ou autoridades chinesas interrogando capitães de navios comerciais – virou um ritual diário. Para o governo chinês, isto, por si só, é uma vitória. A constante coação na “zona cinzenta” busca não só assustar Taiwan, mas também entorpecer o resto do mundo, fazendo com que o presidente taiwanês Lai Ching-te pareça o menino chato que gritava “dragão”.

Entretanto, os estrategistas do presidente chinês, Xi Jinping, observam o Estreito de Ormuz e estudam algo ainda mais valioso do que as fragatas navais: o processo de tomada de decisões americano. Com que rapidez os EUA respondem a ameaças e ataques? Quanta reação política adversa o presidente Donald Trump consegue tolerar? E quanto sofrimento econômico os aliados dos EUA estão dispostos a suportar? Cada míssil disparado contra o Irã traz novas informações. Os mulás iranianos, zombando dos ataques e desafiando a lógica política convencional, tornaram-se assistentes involuntários de pesquisa em prol da China.

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Foto cedida pelo Ministério da Defesa Nacional de Taiwan, feita e divulgada em 5 de agosto de 2026, mostra um veículo blindado CM21 trafegando por uma estrada durante o exercício militar anual Han Kuang, em Taichung, Taiwan Foto: Divulgação/Ministério da Defesa Nacional de Taiwan/AFP

Mas Taiwan é um caso à parte. É valioso demais para não ser vulnerável. O país domina o setor dos semicondutores, representando 92% da capacidade mundial de produção dos chips mais avançados. Se estas fábricas fecharem, as repercussões irão muito além do Vale do Silício. As economias modernas funcionam à base de semicondutores, como as economias do século 19 dependiam do carvão e do óleo de baleia. Sem os chips de Taiwan, frigoríficos parariam de esfriar e semáforos deixariam de funcionar. Veríamos colisões nas salas de operações das Bolsas e nos cruzamentos rodoviários.

Há décadas, Kuwait e Arábia Saudita descobriram que ter a mercadoria mais valiosa do mundo era ao mesmo tempo uma bênção e uma vulnerabilidade flagrante. O petróleo tornou estes reinos indispensáveis, transformando-os em alvos a se abater. Em 1990, Saddam Hussein, do Iraque, decidiu que não poderia resistir à tentação de tentar roubar um país inteiro. Taiwan enfrenta um dilema semelhante, porque a China sabe exatamente que prêmio procura.

Conter as ambições da China em relação a Taiwan requer um novo tipo de dissuasão. Assim como a Arábia Saudita está gastando bilhões de dólares para ser vista como mais do que o “posto de gasolina” do mundo, Taiwan tem de diversificar. O país precisa de uma segunda joia da coroa para se tornar indispensável ao mundo democrático. Como recomendei às autoridades taiwanesas, o software de defesa oferece essa oportunidade.

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A vantagem militar futura dependerá menos do aço e mais do código: redes no campo de batalha, IA, cibersegurança, logística, comunicações e software de comando e controle. Fábricas de chips podem ser replicadas – a própria Taiwan Semiconductor Manufacturing Company está em expansão no exterior –, mas ecossistemas de software de confiança, talento em engenharia, conhecimento institucional e décadas de colaboração não podem.

Os economistas chamam isso de “subir na cadeia de valor”. Eu chamaria também de “subir na cadeia de dissuasão”. Lideranças taiwanesas deveriam contatar Palmer Luckey, da Anduril, e Alex Karp, da Palantir, para obter conselhos.

Igualmente importante, Taiwan ocupa uma posição invulgar na Ásia. Japão e Coreia do Sul passaram décadas reabrindo e tratando das feridas da ocupação. Taiwan é um interveniente regional que nenhuma das partes vê com ressentimento, o que a torna um intermediário de confiança – uma raridade na política global.

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Em vez de esperar que os EUA assumam a liderança, Taiwan deveria criar um “Comitê para a Defesa da Liberdade”. Trata-se de uma instituição prática dedicada à tecnologia de defesa e a respostas coordenadas à coação econômica, e não de uma aliança militar formal que exija anos de negociações de tratados, comunicados de cúpulas e fotos em grupo na frente de hotéis de luxo.

Há oito séculos, a Liga Hanseática ligou cidades independentes em torno do Mar Báltico e do Mar do Norte para compartilhar informações e dissuadir a pirataria. Nenhum imperador as obrigou a isso; foram os interesses comuns que as uniram. As democracias asiáticas precisam de um reinício no século 21 – não para proteger navios mercantes dos piratas, mas para proteger sociedades livres da chantagem e da invasão.

A China construiu ilhas artificiais, uma escavação por vez. Taiwan e seus parceiros democráticos podem criar uma capacidade de dissuasão de forma semelhante: uma plataforma de software, um acordo de informações secretas, uma parceria de pesquisa por vez.

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O Irã tem servido de campo de testes para as forças armadas dos EUA, e os líderes chineses têm observado atentamente por cima do ombro de Trump. Taiwan não deve esperar a prova. Deve reescrever a ementa do curso.

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Opinião por Todd G. Buchholz

Ex-diretor de política econômica da Casa Branca durante a presidência de George H.W. Bush e diretor-geral do fundo de investimento especulativo Tiger, é autor de “Novas ideias de economistas mortos” (Record, 2000), “The Price of Prosperity” (“O preço da prosperidade”, em tradução livre do inglês) (Harper, 2016) e coautor do musical “Glory Ride”