WASHINGTON - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ordenou nesta sexta-feira, 8, que o Exército americano combata cartéis de drogas designados como organizações “terroristas” globais. Em resposta à medida, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, rejeitou o uso das forças militares dos EUA no seu país.
O republicano tem travado uma guerra contra os grupos desde que retornou ao poder em janeiro, principalmente para tentar impedir o tráfico de fentanil, um opioide sintético que causou quase 50 mil mortes por overdose em 2024 nos Estados Unidos. A decisão de envolver o Exército americano na luta é a medida mais agressiva até o momento na crescente campanha do governo contra os cartéis.
Em fevereiro, Trump designou oito grupos do crime organizado latino-americano como organizações “terroristas globais”, incluindo o Cartel de Sinaloa do México, o Cartel Tren de Aragua da Venezuela e a gangue MS-13, que atua na América Centeal. Em julho, ele adicionou o Cartel de Los Soles à lista, liderado, segundo Washington, pelo presidente venezuelano, Nicolás Maduro.

Diversos veículos de comunicação americanos relatam que Trump assinou secretamente uma ordem executiva para ampliar o combate aos cartéis. O New York Times, citando fontes anônimas, afirma que o presidente americano ordenou ao Pentágono que comece a usar força militar contra grupos designados como organizações terroristas.
Já o Wall Street Journal, citando uma autoridade não identificada, afirma que, por enquanto, Trump se limitou a pedir ao Departamento de Defesa que prepare opções de ofensivas. Uma delas envolveria o uso de forças especiais e unidades de inteligência, embora qualquer operação seja coordenada com os países envolvidos, acrescenta o jornal.
Mas ordenar que os militares reprimam o comércio ilícito também levanta questões legais, incluindo se seria considerado “assassinato” se as forças dos EUA agindo fora de um conflito armado autorizado pelo Congresso matassem civis — até mesmo suspeitos de crimes — que não representam uma ameaça iminente. Não está claro o que os advogados da Casa Branca, do Pentágono e do Departamento de Estado disseram sobre a nova diretriz ou se o Gabinete de Consultoria Jurídica do Departamento de Justiça produziu uma opinião confiável avaliando as questões legais.
A Casa Branca não se pronunciou. “A principal prioridade de Donald Trump é proteger a pátria, e é por isso que ele tomou a ousada decisão de designar vários cartéis e gangues como organizações terroristas estrangeiras”, disse a porta-voz Anna Kelly. No final de fevereiro, a Casa Branca ameaçou “abrir as portas do inferno” contra os cartéis para garantir a segurança na fronteira com o México.
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México rejeita a ordem de Trump
“Fomos informados de que esta ordem executiva estava chegando e que não tinha nada a ver com a participação de qualquer militar ou instituição em nosso território”, disse a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, nesta sexta-feira em sua coletiva de imprensa matinal.
“Os Estados Unidos não virão ao México com os militares; nós cooperamos, colaboramos, mas não haverá invasão. Isso está descartado, absolutamente descartado, e, além do que declaramos em todas as nossas ligações, não é permitido, nem faz parte de nenhum acordo”, ela acrescentou. A presidente ainda afirmou que as agências dos Estados Unidos com presença no México “são altamente regulamentadas”.

Autoridades mexicanas acreditavam ter superado o governo Trump no combate ao tráfico de drogas, tendo lançado uma repressão agressiva ao Cartel de Sinaloa, um dos maiores produtores mundiais de fentanil. O cartel, um dos mais antigos e poderosos do México, sofreu graves perdas desde que a presidente Claudia Sheinbaum enviou centenas de soldados para combatê-lo.
Autoridades americanas pareciam satisfeitas com o progresso e anunciaram uma queda de 50% nas apreensões de fentanil nos últimos meses, em comparação com os mesmos meses do ano passado. Não está claro se a queda se deve à pressão exercida pelos cartéis e à redução da produção, ou se eles estão encontrando maneiras novas e inovadoras de escapar da detecção.
A guerra às drogas no México tem sido historicamente liderada pelo Departamento de Justiça e a agência de combate às drogas, a Agência de Repressão às Drogas (DEA). Mas o esforço tem sido feito em estreita colaboração com as autoridades mexicanas.
Dessa forma, o sigilo em torno da diretiva do Pentágono levantou questões sobre se os Estados Unidos podem usar força militar unilateral, sem o conhecimento prévio do México — uma possibilidade que poderia prejudicar a confiança meticulosamente construída entre as autoridades dos dois países.
Os EUA há muito tempo operam drones para caçar redes de produção e contrabando de drogas dentro do México, mas esses programas secretos não estavam autorizados a realizar ações letais. Autoridades mexicanas alertaram o governo Trump que os programas letais de drones que os Estados Unidos administram em lugares como Afeganistão e Paquistão, onde grupos terroristas são frequentemente alvos em áreas rurais, enfrentariam circunstâncias e riscos muito diferentes. No México, os cartéis de drogas geralmente estão inseridos em centros urbanos densos, aumentando as chances de vítimas civis, e há muito mais cidadãos com dupla nacionalidade americana e mexicana e seus parentes vivendo em locais que podem ser alvos.
Mas a nova diretriz de Trump pode prever uma abordagem diferente, focada nas forças dos EUA capturando ou matando diretamente pessoas envolvidas no tráfico de drogas. A designação de organizações globais “terroristas” permite o uso de “elementos do poder americano, como agências de inteligência, o Departamento de Defesa, entre outros, para atacar esses grupos, se tivermos a oportunidade”, explicou o Secretário de Estado americano, Marco Rubio, em entrevista à EWTN na quinta-feira.
“Precisamos começar a tratá-los como organizações terroristas armadas, não simplesmente como organizações de tráfico de drogas”, disse Rubio. Para ele, “não é mais uma questão de aplicação da lei. Está se tornando uma questão de segurança nacional”.
Recompensa por Maduro
Vários integrantes republicanos do Congresso há muito tempo pressionam pela repressão ao tráfico de drogas e à violência. Na quinta-feira, o governo Trump aumentou a recompensa para US$ 50 milhões (cerca de R$ 272 milhões), por “informações que levem à prisão” de Nicolás Maduro, a quem acusa de colaborar com organizações de tráfico de drogas.
A procuradora-geral Pam Bondi afirmou que o líder chavista utiliza “organizações terroristas estrangeiras como o Trem de Aragua, o Cartel de Sinaloa e o Cartel dos Sóis para introduzir drogas letais e violência” nos Estados Unidos, acusação que Caracas rejeitou como “cortina de fumaça”. Em 2020, os Estados Unidos acusaram formalmente Maduro de “narcoterrorismo”. / AFP E NYT





