Escreve toda semana sobre as mudanças no cenário geopolítico internacional

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A venezuelização de Trump: sanções ao Brasil são última mostra da decadência americana

Trump e Hugo Chávez têm muito em comum, e o carisma, o domínio da câmara e o narcisismo que ambos compartilham, são essenciais para o plano de destruição do Estado de direito que aniquilou a Venezuela e hoje e ameaça os EUA

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Foto do autor Luiz Raatz
Atualização:

Hugo Chávez era um cara de vanguarda. O século 20 mal tinha terminado quando ele criou as bases do que Steven Levitsky chamou de autoritarismo competitivo. Funciona mais ou menos assim: em vez de um regime abertamente fascista ou uma ditadura de partido único, a arquitetura formal do Estado democrático de direito segue de pé.

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As eleições continuam, e a oposição segue competitiva, mas as bases do Estado de direito são corroídas progressivamente, como um pedaço de madeira podre infestado por cupins.

A oposição pode até ganhar uma eleição ou outra, mas graças à hipertrofia do Executivo a competição se torna cada vez mais injusta. Os freios e contrapesos são quase anulados até que, no limite, a farsa acaba e o autoritarismo competitivo se converte numa ditadura.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao anunciar tarifas aos países em 2 de abril Foto: Mark Schiefelbein/AP

Chávez foi o primeiro, mas não foi o único a implementar esse modelo. A ele se seguiram Recep Erdogan, na Turquia, Viktor Orbán, na Hungria, Narendra Modi na India e Nayib Bukele, em El Salvador. Hoje, quem segue e aprimora a receita é Donald Trump.

Trump e Chávez têm muito em comum. O carisma, o domínio da câmera e o narcisismo que ambos compartilham são essenciais para o plano de destruição do Estado de direito que aniquilou a Venezuela e hoje e ameaça os Estados Unidos.

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Figuras populistas como Trump e Chávez só prosperam em ambientes altamente polarizados politicamente e em um mau momento econômico. Elas usam do carisma e de um contato direto com as massas para prometer saídas fáceis, geralmente culpando um inimigo imaginário.

Ao contrário dos outros países da América do Sul, durante a Guerra Fria Caracas tinha sido um oásis democrático na região, experimentando quase meio século sem golpes de Estado e levantes militares, numa era que ficou conhecida como Quarta República.

Mas no final da década de 90, o país já sofria as consequências de uma crise econômica que levou ao aumento da desigualdade social e corte de serviços públicos que ampliou a desconfiança da população nos políticos tradicionais.

Isso fez com que a população acreditasse nas promessas de Chávez, um outsider vindo do Exército, que inclusive já tinha tentado um golpe de Estado em 1992. Ele acabou vencendo a eleição.

Ainda que haja um abismo econômico, político e militar entre Venezuela e Estados Unidos, há um paralelo com a situação que levou Trump ao poder, primeiro em 2016, e depois em 2024.

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A polarização política americana aumentou ao longo de todo o século 21, e a crise de 2008 e a pandemia de 2020 ampliaram a desigualdade social e a descrença no establishment político. Nesse cenário, Trump, um outsider vindo do mundo empresarial, acabou chegando ao poder.

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Muitos argumentam que, no primeiro mandato, a força da democracia constrangeu Trump a dar vazão a seus impulsos autoritários. Até certo ponto isso é verdade. Os adultos no gabinete e no Pentágono impediram muita coisa, mas, ao mesmo tempo Trump conseguiu ampliar a maioria conservadora na Suprema Corte e consolidou seu domínio sobre o Partido Republicano.

Após a invasão do Capitólio, o partido do presidente não o puniu, o que permitiu que ele organizasse seu retorno à Casa Branca.

Agora, Trump está totalmente fora de controle.

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Seu gabinete conta apenas com apaniguados sem experiência no serviço público que dizem amém a tudo que o presidente deseja.

Desde o começo do mandato, Trump basicamente governa por decreto. Já foram 176 em pouco mais de seis meses de gestão. Muitos deles são inconstitucionais, mas a Suprema Corte pouco faz para contê-los.

Na Venezuela, inclusive, Chávez lotou o Tribunal Superior de Justiça de gente leal a ele, e seus decretos frequentemente ilegais raramente eram contestados.

Além disso, assim como Chávez, que usava seu programa televisivo “Alô, presidente” para divulgar seus decretos, Trump governa pela sua rede social Truth Social.

Em outro paralelo com o chavismo, que em 2002 expurgou boa parte do alto comando das Forças Armadas, logo no começo do mandato, Trump demitiu o chefe do Estado-Maior Conjunto, e outros cinco almirantes e generais. A partir do mês que vem, ele exigirá um encontro com os generais de quatro estrelas antes de promovê-los, num aparente teste de lealdade.

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Trump também lançou um ataque contra a imprensa livre. Cortou o acesso de veículos que ousaram contestar suas posições ao grupo de jornalistas que cobre a Casa Branca.

A sala de imprensa se transformou praticamente no cercadinho do alvorada, com blogueiros e influenciadores fazendo perguntas sobre como Trump é maravilhoso para a secretária de imprensa Karoline Leavitt.

Trump também tem ameaçado retirar as concessões de redes de TV como a ABC e a NBC, e apoiou a compra da CBS por um empresário que simpatiza com as suas políticas.

A medida é assustadoramente próxima ao famoso fim da concessão da RCTV, feito por Chávez em 2007. Anos depois, seu pupilo Nicolás Maduro se encarregaria de patrocinar a compra de jornais críticos ao regime por empresários amigos.

Restam, por fim, os inimigos imaginários.

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Toda vez que Chávez tinha um problema ele fabricava uma crise com a Colômbia ou com os Estados Unidos.

Por fim, Trump usa crises inexistentes para implementar sua agenda protecionista e perseguir inimigos da Máfia de Mar-a-Lago, da qual o Brasil e tornou a mais recente vítima.

Que a democracia brasileira responda à altura aos autoritários de plantão.

Opinião por Luiz Raatz

É jornalista formado pela PUC-SP. Subeditor de internacional do Estadão, tem 20 anos de experiência em coberturas na América Latina, Estados Unidos e Oriente Médio.