Como eram os transportes antes dos caminhões? Hoje, é até difícil imaginar essa situação. Mas, muito antes dos pesados tomarem conta das estradas, eram as tropas de mulas e outros animais que levavam mercadorias de um lugar para outro.
Leia também
Os tropeiros cruzavam o interior do País transportando alimentos, ferramentas e outros produtos, além de ajudar a levar riquezas das regiões mais distantes até os centros de comércio.
A atividade durou cerca de 250 anos e deixou marcas que vão além do transporte. Muitos caminhos percorridos pelas tropas deram origem a rodovias e pontos de parada que, com o tempo, se transformaram em cidades.
“Então, as tropas tomaram conta do Brasil por 250 anos. Tanto que muitas rodovias hoje, elas estão em cima de antigas trilhas de tropa”, conta Pedro Trucão, jornalista e radialista especializado em transporte rodoviário de cargas, em entrevista ao De Carona com o Jornal do Carro, da Rádio Eldorado.
O tropeirismo ganhou força entre o fim do século 16 e o começo do século 17, quando a ocupação do interior aumentou a necessidade de transportar mercadorias por longas distâncias. As tropas conseguiam chegar a lugares onde outros meios de transporte não atendiam à demanda, conectando regiões e ajudando no abastecimento de povoados.

E os caminhos deixaram pistas dessa história. Segundo Trucão, muitas cidades brasileiras cresceram em locais que antes serviam de parada para os tropeiros.
“Se você pegar a 101, a 116, todas elas, você vai ver que a cada 35, 40 quilômetros tem uma cidade, um município, que antes foi uma parada de tropeiro”, afirma.
A atividade também fez parte de um período marcado pela exploração colonial, pela retirada de riquezas e pela escravização de povos indígenas. Ao mesmo tempo, a circulação de pessoas e mercadorias ajudou a espalhar costumes e hábitos alimentares pelo território brasileiro.
Ouça o ‘De Carona com JC’ no Spotify ou no seu agregador de podcasts favorito.
Do caminho para o prato
Uma dessas heranças está na cozinha e na nossa cultura. Segundo Ludmilla Ferreira Fonseca, docente de Gastronomia do Centro Universitário Senac, “O feijão tropeiro representa mais do que uma praticidade, é uma expressão da memória e da identidade da cultura associada ao tropeirismo”.
O famoso prato é associado à alimentação das tropas, que precisavam de refeições práticas, capazes de sustentar o trabalho e acompanhar as longas jornadas.
Leia também
A combinação dos ingredientes ajudava a fornecer energia. Eles eram mais fáceis de transportar e conservar, também eram importantes para quem passava dias na estrada, longe dos centros de abastecimento.
“A combinação de feijão, farinha e gordura é uma combinação interessante que traz energia [...] para essa vida de jornadas muito longas”, explica Ludmilla.

A receita que conhecemos hoje, porém, foi se transformando ao longo do tempo. Não existe uma única versão que possa ser apontada como a original, e o preparo ganhou características diferentes de acordo com os costumes de cada região.
Nas versões atuais, o feijão tropeiro pode levar farinha de mandioca ou de milho, bacon, linguiça, torresmo, ovos e couve. A combinação varia de uma cozinha para outra, mas mantém a ideia de uma refeição reforçada.
Embora seja muito associado a Minas Gerais, o prato também faz parte da história e da cultura de outras regiões brasileiras. Sua popularidade chegou aos restaurantes, às festas e até aos estádios de futebol, onde virou uma opção tradicional para quem acompanha os jogos.
Mais do que uma receita, o feijão tropeiro ajuda a contar a história de quem cruzava o País transportando mercadorias e conectando diferentes lugares. Os caminhos mudaram, os animais deram lugar aos caminhões, mas parte dessa história continua presente na nossa mesa.
Carregando ofertas...

