Do calhambeque ao GTI: como carros e músicas atravessam linhas sociais

Em entrevista ao ‘De Carona com o JC’, o doutor em música Thiagson fala sobre o uso dos carros como marcador social nas canções

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Foto do autor Amanda Lino
Por Amanda Lino

“Liguei o Golfão 00 GTI”. A frase entoada na música ‘Um Pião Di Vida Loka’, do Trilha Sonora do Gueto, foi o meu primeiro contato com o clássico da Volkswagen e se deu, não por coincidência, junto a um dos meus primeiros contatos com o rap e as expressões da luta social.

Sei que minha experiência não foi a única. A união entre o ronco do motor e as canções é tão antiga quanto “andar pra frente”, como diria minha avó. Contudo, o mais interessante, é que a música não é apenas um passatempo durante as horas de direção. Ela exerce funções práticas em diversos âmbitos.

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O Golf não foi uma escolha aleatória do TSG, a expressão em versos do RAP também não. Ele comunicava status e prestígio em corpos historicamente marcados pela desigualdade.

O calhambeque (bibi), de Roberto Carlos, fez o caminho inverso. Comunicou o desprestígio, mas trouxe sentimento. O velho carro no lugar do belo Cadillac não era sinônimo de rebaixamento, era a forma de mostrar que carro não é só um produto de quatro rodas.

A relação em músicas e carros foi tema do programa ‘De Carona com JC’ na rádio Eldorado com a participação do doutor em música e criador de conteúdo, Thiagson. Ouça o episódio completo no link abaixo.

Como carros e músicas se entrelaçaram?

A lista de músicas que citam carros é grande, mais de 380, segundo o último relatório do Instituto Mobih. Entretanto, nada disso seria possível sem um passo óbvio: os carros terem um rádio embutido.

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O que hoje é item básico, há alguns anos, era motivo de espanto. Lá nos longínquos anos 1922, com apenas 18 anos, George Frost instalou um aparelho de rádio em um Ford Model T. Apesar de ser difícil cravar quem foi a primeira pessoa a colocar um rádio dentro do carro, Frost ganhou destaque e impulsionou a invenção.

À época, a inovação não foi bem vista. Há quem acreditasse que ouvir músicas ou programas enquanto dirige geraria momentos de distração e, consequentemente, acidentes.

Contudo, as ressalvas não se sustentaram. Em apenas 5 anos, o que era novidade virou item de série.

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O carro e a promessa de liberdade

Como disse no início do texto, o carro também funciona como um marcador social, capaz de comunicar prestígio, poder aquisitivo e conquistas pessoais. Na música, essas representações ajudam a contar histórias sobre desejos, relações e o lugar que cada pessoa ocupa na sociedade.

“O carro não significa só a locomoção, ele significa um lugar social, um certo prestígio, e a promessa da liberdade, ainda que muita gente se endivide e fique preso em dívidas por conta disso”, explica Thiagson, criador de conteúdo e doutor e mestre em Música pela USP.

Doutor em música, Thiagson participa do 'De Carona com JC' falando sobre a relação das músicas e os carros Foto: Amanda Lino

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Essa relação fica especialmente evidente no funk, em que carros de luxo aparecem como símbolos de ascensão social.

Para Thiagson, essas referências precisam ser compreendidas considerando as desigualdades que marcam o acesso ao consumo no Brasil. “Acho que no funk a gente percebe muito os itens de consumo simbolizando muitas coisas, simbolizando inclusive questões raciais”, afirma. Segundo ele, o acesso a bens de consumo é mais restrito para a população racializada, que representa a maioria da população. Nesse contexto, conquistar um automóvel desejado pode ter um significado que ultrapassa o valor material do veículo.

Por que tantas músicas citam carros?

Thiagson, criador de conteúdo e doutor em música, fala sobre a relação dos carros e músicas. Crédito: Estadão

“Quando a gente vê um funkeiro com um carro de luxo, significa principalmente a mobilidade social, mostrar que é possível subir na vida e conseguir subir de forma considerável”, diz o músico. A ostentação, portanto, também pode ser entendida como uma expressão de conquista em uma sociedade na qual a ascensão econômica permanece distante de grande parte da população. Como observa Thiagson, “o processo de ascensão social, embora seja prometido na nossa sociedade, é muito raro”.

O significado dos carros nas músicas, porém, não depende apenas do preço ou do prestígio associado às marcas. Os modelos considerados luxuosos variam conforme o contexto social e as referências de cada comunidade. “Muitos funks citam carros que não são tão luxuosos, mas, na periferia, significam luxo”, explica. Modelos como Megane, Hyundai HB20 e Evoque aparecem nessa discussão, mostrando que o valor simbólico de um automóvel também é construído a partir das experiências e dos desejos de quem o consome.

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Doutor em música, Thiagson participa do 'De Carona com JC' falando sobre a relação das músicas e os carros Foto: Amanda Lino

Assim, a música transforma o carro em um recurso de expressão cultural. Nas letras, ele pode representar liberdade, desejo, intimidade e reconhecimento, mas também evidenciar as barreiras impostas pela desigualdade. Mais do que falar de automóveis, essas músicas revelam as diferentes formas de imaginar e conquistar um lugar na sociedade.

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