Europa faz o oposto do Brasil e limita carros chineses; modelo pode servir ao País

UE estabelece cota de 350 mil híbridos chineses por ano; no Brasil, que regula o mercado só com impostos, importações da China cresceram 106% em 2026

Mercado automotivo chinês enfrenta excesso de capacidade industrial e queda nas vendas de veículos. Foto: Qilai ShenMercado automotivo chinês enfrenta excesso de capacidade industrial e queda nas vendas de veículos Foto: Qilai Shen

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Foto do autor Pietra Alcantara
Por Pietra Alcantara

A União Europeia fechou um acordo com a China para limitar a entrada de veículos híbridos e híbridos plug-in chineses no mercado europeu, com cota inicial de 350 mil unidades por ano. O Brasil segue na direção oposta: as importações de veículos chineses cresceram 106,4% entre janeiro e setembro de 2026, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

O entendimento europeu foi anunciado neste mês e prevê restrições por quatro anos, que podem começar já em 1º de dezembro de 2026. O objetivo é conter o crescimento das vendas das fabricantes chinesas, que ampliaram as exportações de híbridos depois que o bloco impôs tarifas adicionais aos carros totalmente elétricos, em 2024. Segundo a Reuters, o acordo foi negociado entre autoridades comerciais da União Europeia e da China.

Europa estabelece limite de 350 mil híbridos por ano

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A cota de 350 mil veículos equivale a menos da metade dos cerca de 800 mil híbridos chineses que a União Europeia projeta importar em 2026. O limite subirá 6% ao ano a partir do segundo ano, chegando a 371 mil unidades.

A restrição vale para as importações destinadas aos 27 países do bloco. O critério é o local de fabricação, não a marca: híbridos de montadoras europeias feitos na China entram na conta, enquanto os carros de marcas chinesas produzidos dentro da União Europeia ficam de fora.

Além das tarifas sobre os elétricos chineses, a UE passa a usar limites quantitativos para controlar a entrada de híbridos | 

A diferença é importante para fabricantes que estão instalando fábricas na Europa, como a BYD. A produção local permite que essas empresas continuem ampliando suas operações sem depender da importação de veículos prontos da China.

A medida também muda a estratégia europeia. Além das tarifas sobre os elétricos chineses, o bloco passa a usar limites quantitativos para controlar a entrada de híbridos.

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Brasil importou 254,9 mil carros chineses em nove meses

No Brasil, a entrada de veículos produzidos na China cresce em ritmo acelerado. Segundo a Anfavea, o País importou 254,9 mil veículos chineses entre janeiro e setembro de 2026, ante 123,5 mil no mesmo período de 2025, uma alta de 106,4%.

Os veículos fabricados na China já representam 55% de todos os importados pelo Brasil e 11,3% dos emplacamentos no mercado nacional.

ECONOMIA BYD recebe primeiro navio próprio para exportar carros elétricos Explorer No. 1 tem capacidade para 7 mil veículos e vai ajudar a ampliar exportações da BYD. Marca chinesa é a líder global de eletrificados FOTO BYD - Divulgação  Foto: BYD

O crescimento acompanha a expansão de fabricantes como BYD e GWM, que ampliaram suas redes de concessionárias e passaram a investir em operações industriais no País.

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A presença chinesa também cresce no fornecimento de componentes. Segundo balanço do Sindipeças, elaborado com dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), o Brasil importou US$ 3,78 bilhões em autopeças chinesas entre janeiro e agosto de 2026, alta de 31,1% em relação ao mesmo período de 2025. Em agosto, a China respondeu por 26,9% das importações brasileiras de componentes automotivos.

Brasil cobra 35% de imposto sobre elétricos e híbridos importados

 

O governo brasileiro também adotou medidas para estimular a produção nacional e reduzir a vantagem dos importados.

Em julho de 2026, o imposto de importação de carros elétricos e híbridos completos chegou a 35%, alíquota que também passou a valer para veículos semidesmontados, conhecidos pela sigla SKD. Para os veículos completamente desmontados, chamados CKD, a alíquota cheia está prevista para janeiro de 2027.

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A estratégia brasileira, porém, é diferente da europeia. A União Europeia combina tarifas com cota de importação. O Brasil usa principalmente a tributação: quem paga o imposto pode importar carros completos, sem um limite geral de unidades como o do acordo europeu.

Montadoras chinesas ampliam produção no Brasil

A presença das marcas chinesas não se dá apenas pelas importações.

A GWM mantém uma fábrica em Iracemápolis, no interior de São Paulo, onde produz o Haval H6, a picape Poer P30 e o SUV Haval H9. Já a BYD iniciou as atividades em Camaçari, na Bahia, montando veículos a partir de conjuntos importados, e trabalha para incorporar novas etapas de fabricação. Outras fabricantes, como Geely, Leapmotor e GAC, também anunciaram projetos ou parcerias para usar instalações industriais no Brasil.

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante visita à linha de produção e cerimônia de inauguração da Fábrica da GWM Brasil. Fábrica da GWM Brasil – Iracemápolis (SP) Foto: Ricardo Stuckert / PR Foto: Ricardo Stuckert / PR

Há, porém, uma diferença entre fabricar um veículo, com etapas como soldagem, pintura e uso de componentes nacionais, e apenas montar conjuntos enviados do exterior. Essa distinção está no centro do debate sobre os benefícios da chegada das montadoras chinesas para a indústria brasileira.

Carros chineses podem buscar novos mercados?

As restrições europeias levantam uma questão para países como o Brasil: parte dos veículos que deixarem de entrar na União Europeia pode ser direcionada a outros mercados?

A possibilidade não foi confirmada pelas fabricantes e depende de fatores como demanda, custos logísticos, homologação dos modelos e estratégias comerciais. O que já se sabe é que a China ampliou sua capacidade de produção de veículos eletrificados e passou a buscar consumidores fora do mercado doméstico.

A comparação com a Europa, porém, tem um limite. Ao restringir os híbridos chineses, o bloco protege uma indústria formada em grande parte por montadoras europeias. O Brasil não tem grandes fabricantes de capital nacional. Aqui, a indústria automotiva é formada por fábricas de grupos estrangeiros instaladas no País. Proteger a produção nacional, no caso brasileiro, significa proteger a fabricação local, os empregos e a cadeia de fornecedores, independentemente da origem da marca.

Essa lógica, aliás, está presente no próprio acordo europeu, que usa o local de fabricação como critério e deixa de fora da cota os carros de marcas chinesas produzidos dentro do bloco.

É nesse ponto que se concentra a preocupação da Anfavea. A entidade vê com cautela o crescimento da montagem de veículos a partir de conjuntos importados, nos regimes SKD e CKD. Segundo o presidente da Anfavea, Igor Calvet, dos 173 mil veículos a mais produzidos no País entre janeiro e setembro de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025, 123 mil vieram dessas modalidades, cerca de 71% do aumento. Para a entidade, essas operações podem gerar menos empregos e usar menos componentes nacionais do que a fabricação com maior participação da indústria brasileira de autopeças.

A chegada de novas marcas, por sua vez, amplia a oferta de eletrificados e acirra a disputa por preços.

Com o acordo, a Europa mostra que há outras ferramentas além do imposto para regular a entrada de carros chineses. No Brasil, a discussão passa menos pela origem das marcas e mais por quanto da produção acontece, de fato, no País.

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