A adoção de inteligência artificial (IA) generativa nos EUA está afetando de forma desproporcional trabalhadores em início de carreira, segundo um estudo da Universidade de Harvard. A pesquisa analisou dados de currículos e anúncios de emprego que cobrem quase 62 milhões de trabalhadores em 285 mil empresas entre 2015 e 2025.
Os autores Seyed M. Hosseini e Guy Lichtinger identificaram que, a partir do primeiro trimestre de 2023, houve uma queda significativa na contratação de trabalhadores em início de carreira (conhecidos como “juniors”) em empresas que adotaram IA generativa, enquanto o cargo sênior continuou a crescer.

O estudo aponta que a redução de juniores nas empresas não decorreu de aumento de demissões, mas de uma desaceleração nas contratações. “O declínio é impulsionado principalmente pela diminuição de novos talentos ingressando nas empresas”, afirmam os pesquisadores.
Setores do varejo registraram os maiores impactos. Nessa área, a substituição de tarefas rotineiras por IA resultou em uma redução de cerca de 40% nas contratações de juniores por trimestre nas companhias que passaram a usar IA.
Houve também diferenças por nível educacional. Formados em universidades de qualidade média foram os mais afetados, enquanto aqueles com diplomas de instituições de elite ou de menor prestígio tiveram efeitos menores ou nulos.
O estudo sugere que a IA redistribui a demanda por trabalhadores em início de carreira, penalizando principalmente aqueles com capital humano intermediário. “O impacto não é uniforme e depende fortemente da origem educacional dos jovens”, explicam os autores.
Além da queda nas contratações, houve um leve aumento nas promoções internas de juniores. Empresas que adotaram IA preferem reter funcionários já existentes e promovê-los, em vez de contratar novos talentos para funções de entrada.
A contratação de profissionais experientes (os chamados “seniors”), por sua vez, não sofreu queda relevante. Houve um pequeno aumento, embora tenha sido registrada maior rotatividade nesse grupo, indicando que funções mais básicas foram substituídas por IA, enquanto cargos mais sofisticados se mantém.
Os salários médios anual de juniores variam conforme o prestígio da universidade. Formados em escolas elite recebiam cerca de US$ 85.896 por ano em 2022, enquanto formados de instituições de menor prestígio tinham remuneração próxima de US$ 42.955. A adoção de IA reduziu oportunidades especialmente para os jovens de universidades de qualidade média.
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A pesquisa detalha que, antes de 2023, as empresas que passaram a usar IA contratavam, em média, 27,1 novos iniciantes por trimestre, enquanto nas empresas que não adotaram a tecnologia a média era de 6,5. Após a implementação da IA, o número caiu em aproximadamente 22% para os juniors.
O estudo utilizou métodos de diferença-em-diferenças (DiD) e tripla diferença para comparar a evolução de empregos entre empresas que adotaram ou não a tecnologia, separando juniors e seniors.
A abordagem mostrou que a IA generativa prejudica principalmente os trabalhadores juniors, substituindo tarefas básicas que eles realizam, enquanto o emprego de profissionais mais experientes se mantém mais estável.
Entre 2015 e meados de 2022, juniors e seniors cresciam de forma semelhante no mercado de trabalho. A divergência começou em 2022, com a estagnação dos juniors e queda a partir de 2023, coincidindo com a expansão da IA generativa.
Embora apenas 3,7% das empresas tenham adotado a tecnologia, os efeitos dentro dessas organizações foram significativos, alterando a estrutura de contratações e destacando a importância da experiência profissional.

Por setores, a substituição de tarefas rotineiras foi mais intensa no varejo, enquanto as áreas de informação e serviços profissionais tiveram efeitos menores, embora visíveis.
O estudo amplia o conceito de mudança tecnológica que beneficia habilidades específicas, mostrando que a tecnologia não afeta apenas o nível de conhecimento, mas também a experiência, favorecendo profissionais mais experientes em comparação com jovens em início de carreira.
Além da queda de contratações, as empresas valorizam o conhecimento prático acumulado pelos seniors, que é menos substituível por IA do que o conhecimento codificado, mais comum entre juniors.
Os resultados indicam potenciais efeitos de longo prazo, incluindo menos oportunidades de crescimento na carreira para recém-formados e aumento da desigualdade de renda ao longo da carreira, reforçando a necessidade de políticas de treinamento e qualificação.
O estudo ainda evidencia que a adoção de IA pode acelerar a concentração de empregos de entrada em grupos de elite educacional, enquanto formados de universidades intermediárias enfrentam maiores dificuldades para ingressar no mercado.
No mês passado, outro estudo, dessa vez da Universidade Stanford, mostra que a vida de jovens programadores também piorou com a IA. Entre 2022 e 2025, as vagas para trabalhadores de 22 a 25 anos caíram até 20% em áreas como desenvolvimento de software, contabilidade e call center.
Profissionais mais experientes encontraram cenário estável ou favorável, enquanto funções menos tecnológicas, como auxiliares de enfermagem e cuidadores, tiveram aumento nas oportunidades. O levantamento aponta que o conhecimento codificado dos jovens é mais substituível por IA, enquanto o conhecimento prático dos experientes permanece valorizado.

