Gerando resumo
Bianca e Tássia, eleita melhor confeiteira e melhor chef da América Latina
Crédito: Paulo Henrique
Para os cozinheiros latino-americanos, a final de campeonato rolou no comecinho do mês, na Guatemala, quando o 50 Best Restaurants ranqueou os melhores estabelecimentos, a melhor chef mulher, o melhor confeiteiro, o restaurante que mais subiu na lista, o azarão que saiu do nada e apareceu ali, o chef escolhido pelos colegas como exemplo, o “campeão da mudança”, o restaurante mais sustentável e o mais hospitaleiro também.

No meio dos 50 melhores da América Latina, apenas 5 (cin-co!) casas são comandadas por mulheres. Das 11 premiações especiais, quatro ficaram com elas. Dentre estas, duas são do Brasil – temos Tássia Magalhães, do Nelita, como melhor chef, e Bianca Mirabili, do Evvai, como a rainha das doçuras. O fato, óbvio, merece ser comemorado – oremos inclusive para que seja bom prenúncio para a Copa do Mundo!
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Nesses paradoxos da vida, enquanto chefs homens seguem apontando as matriarcas familiares como grandes inspirações e todos seguem vendo tão poucas mães e avós nas cozinhas profissionais, nossas meninas brilham. Tracy De Groose, nova CEO do 50 Best, concorda que existe uma “esquisitice” no ar.
Reconhecida por sua atuação em transformação digital e comunicação, a executiva britânica reforça uma pauta que tem ganhado força no universo da gastronomia global: a necessidade de criar condições reais para que chefs mulheres prosperem no setor.
Vulnerabilidade é poder
À frente de uma das plataformas gastronômicas mais poderosas do mundo, Tracy defende que o 50 Best vá além da lista final — estimule debates e garanta representatividade: “Obviamente temos o prêmio de Melhor Chef Mulher. Algumas pessoas têm visões diferentes sobre ele, mas quando os números não são o que gostaríamos que fossem, temos um papel em criar uma plataforma para que mais mulheres sejam reconhecidas e atuem como modelos para jovens e chefs emergentes”.
Para a CEO, a escuta ativa é outra parte fundamental desse processo: “Tivemos uma sessão muito boa com algumas chefs da região para entender como elas se sentem, o que mais gostariam de ver na indústria e como o 50 Best pode apoiar, encorajar e inspirar mais mulheres nos restaurantes”.
Uma fala, aliás, chamou sua atenção: “Vulnerabilidade é poder”. Tracy não disse quem foi, tampouco traduziu em palavras o que sentiu. A ficha ainda estava caindo, mas era claro que a mulherada junta era mais forte, e que a única chef grávida na reunião, temorosa de se distanciar da cozinha, fisicamente era uma, mas era o bando todo. “Foi uma oportunidade de conexão”, emendou.
O 50 Best delas
Pía León, à frente do atual número 2 do ranking e do vencedor do prêmio Art of Hospitality (o limenho Kjolle), é há anos a única mulher no Top 10. A maternidade nunca a freou, no entanto, como já cansou de repetir, trouxe um olhar mais sensível para com a brigada. Ao mesmo tempo, uma nova compreensão de sustentabilidade: a de que um restaurante só é sustentável quando as individualidades de uma equipe são respeitadas – inclusive a sua.
Eleita Melhor Chef Mulher do Mundo em 2021, Pía afirma que a premiação: “Tem muito valor, é essencial. Falamos de visibilidade, inspiração, diversidade e liderança. Tudo isso abre caminhos, portas, diferentes olhares e possibilidades.
Fico muito contente com as menções deste ano: Bianca e Tássia são mulheres dedicadas, com muita paixão e, sobretudo, fortaleza”.
Álvaro Clavijo, chef do número um (El Chato, de Bogotá), também fez seu gesto: subiu ao palco com as mulheres de seu time: a chef de serviço, Cindy Alexandra Contreras, as sub-chefs, Ana Victoria Lozano e Yureny Roncacio, e a chef de confeitaria, Nicol López.

Rosa Moraes, uma das figuras mais influentes da gastronomia brasileira e presidente do The World’s 50 Best Restaurants e do Latin America’s 50 Best Restaurants no Brasil, assistiu tudo de camarote. Na primeira fila, emocionou-se sem cerimônia e analisou com precisão: “A presença de Tássia Magalhães e Bianca Mirabilli entre as premiadas de 2025 dá continuidade a um movimento que marca a gastronomia brasileira na última década. Desde Helena Rizzo [World’s Best Female Chef em 2014], passando por Roberta Sudbrack [América Latina em 2015] e por nomes que se destacaram nas categorias femininas nos anos seguintes, como Manu Buffara em 2022 e Janaína Rueda, em 2023 e 2024 [América Latina e Mundo]”.
A bem dizer, o Brasil é o país que reúne o maior número de premiadas nas categorias dedicadas a chefs mulheres no Latin America’s 50 Best Restaurants – e nossas meninas de ouro honram a trajetória. Tássia reforça que a desigualdade ainda é evidente: “Falta muito pelos números”.
Segundo ela, há “pouquíssimos restaurantes que são chefiados por mulheres dentro de premiações, de rankings ou estrelados”, e a equiparação ainda deve levar tempo. Ainda assim, ela vê sinais de mudança. Há mais conscientização, mulheres passaram a reconhecer “qual é o seu espaço na cozinha” e a buscar posições de liderança, enquanto os homens começam, ainda que gradualmente, a compreender essa transformação.
“A melhor sensação não foi pegar o troféu. Foram os momentos que antecedem, vai passando esse filme na cabeça, como eu entrei aqui, como eu me desenvolvi na profissão, como eu cresci, o quanto eu tenho ainda para crescer”, confessa Bianca. Mas pondera: “Tem cada vez mais mulheres em destaque dentro da cozinha hoje, não somente na confeitaria. Quando a gente olha para festivais, por exemplo, tem pouquíssimo, a gente está falando de 10%”.

O ranking feminino no Latin America’s 50 Best Restaurants 2025:
2. Kjolle – Lima, Peru – Pía León
12.Nelita – São Paulo, Brasil – Tássia Magalhães
23. Leo – Bogotá, Colômbia – Leonor Espinosa
39.Rosetta – Cidade do México, México - Elena Reygadas
48.Arami – La Paz, Bolívia - Marsia Taha Mohamed
Prêmios Especiais 2025
- Champions of Change – Inés Páez Nin (Chef Tita, República Dominicana), pela sua atuação social e impacto além da cozinha
- Art of Hospitality – Kjolle (Pía León, Lima)
- Latin America’s Best Female Chef – Tássia Magalhães (Nelita, São Paulo)
- Latin America’s Best Pastry Chef – Bianca Mirabili (Evvai, São Paulo)
- Sustainable Restaurant – Oda (Bogotá)
*head chef é Natalia Cocomá Hernández






