Minha maior preocupação nas eleições de 2026 é a disseminação de fake news. Está cada vez mais difícil distinguir o que é real. As informações fluem de forma incrivelmente acelerada. Alguns diriam que a culpa é da internet. Outros dirão que a vida era melhor antes dela. Os mais jovens simplesmente não concebem o mundo sem ela. A pergunta que raramente fazemos, porém, é mais fundamental: estamos culpando o alvo certo?
O diagnóstico corrente confunde infraestrutura com modelo de negócio. A internet – a rede de redes que conecta bilhões de pessoas e dispositivos – é uma infraestrutura projetada para transmitir dados de forma distribuída e resiliente. Sobre ela, nas últimas três décadas, floresceram plataformas privadas que transformaram essa infraestrutura pública em máquinas de captura de atenção e dados. São essas plataformas – não a internet em si – que estão no centro dos problemas que enfrentamos hoje.
Os sintomas são visíveis e crescentes. A desinformação que contamina o debate eleitoral não é gerada pela internet: é amplificada por algoritmos projetados para maximizar o engajamento, independentemente da veracidade do conteúdo. A epidemia de depressão e ansiedade entre adolescentes, documentada em estudos recentes em diversos países, tem correlação direta com o tempo de exposição a plataformas que monetizam a insegurança e a comparação social. O endividamento acelerado de famílias brasileiras por meio de jogos online e apostas esportivas também encontra terreno fértil nesse mesmo ambiente, que foi desenhado para criar dependência, não bem-estar.

O problema está na arquitetura econômica dessas plataformas. O modelo de negócio baseado em publicidade direcionada exige vigilância constante, análise comportamental e, acima de tudo, atenção ininterrupta. As informações enviadas para cada indivíduo reforçam convicções e alimentam emoções intensas, em vez de promover o debate e abrir espaço para o contraditório. Não há incentivo de mercado para que essas plataformas sirvam ao interesse público – ao contrário, há incentivos poderosos para que sirvam ao seu próprio crescimento.
Para entender por que chegamos aqui, é preciso olhar para duas características estruturais da internet que, com frequência, são chamadas de falhas, mas que na verdade são escolhas de design: a rede não foi construída para identificar pessoas, nem para transferir valor. Essas lacunas abriram espaço para que intermediários privados se tornassem indispensáveis, capturando nesse processo tanto os dados dos usuários quanto as rendas que deveriam circular de forma menos concentrada.
A tecnologia blockchain tentou endereçar a segunda lacuna, a da troca de valor, com sucesso parcial. Criou redes descentralizadas capazes de registrar transações sem intermediários, mas produziu um ecossistema fragmentado, com centenas de redes que raramente se comunicam entre si, cada vez mais focado no segmento financeiro e distante das necessidades cotidianas da maioria das pessoas. Por outro lado, o ecossistema criado em torno da tecnologia blockchain nos ensina lições valiosas sobre governança descentralizada e colaborações internacionais.
Precisamos pensar em modelos alternativos para a captura que as plataformas impuseram à internet, em vez de nos limitarmos a reformas pontuais dentro do paradigma atual. O que seria uma camada adicional de infraestrutura, construída sobre a internet existente, capaz de resolver globalmente as questões de identidade digital e transferência de valor? Não uma nova plataforma privada, mas uma camada adicional de infraestrutura de caráter público, submetida a mecanismos de governança que aprendam com os erros do passado. Uma infraestrutura que incorpore, desde sua concepção, salvaguardas contra captura por interesses privados: limites à monetização de dados pessoais, interoperabilidade obrigatória, transparência algorítmica e participação democrática em suas regras de funcionamento.
A ideia não é utópica. A própria Internet nasceu de um projeto financiado pelo governo americano antes de se tornar o alicerce da economia global. No mundo atual, precisamos nos inspirar nas lições da construção da internet e ir além. O desafio é que, desta vez, a governança precisa ser pensada desde o início, de forma multinacional e com participação da sociedade civil, para que o interesse público não seja capturado antes mesmo da infraestrutura estar pronta.
A eleição de 2026 será travada, em grande medida, nas redes que temos, não nas redes que gostaríamos de ter. Mas esse é exatamente o momento de colocar na agenda o debate sobre que redes queremos para as próximas décadas. Candidatos, partidos e a sociedade civil precisam ir além da discussão sobre moderação de conteúdo e regulação de plataformas, que são questões importantes, mas que operam dentro do paradigma atual. A pergunta mais profunda é estrutural: quem deve controlar a infraestrutura sobre a qual nossa vida pública se organiza? A resposta a essa pergunta definirá não apenas como votamos em 2026, mas como viveremos nos anos que virão.



