Interpretação crítica e científica das instituições e do comportamento político

Interpretação crítica e científica das instituições e do comportamento político

Centrão sendo Centrão: Partidos seguem estratégia ao não escolher entre Lula e Flávio

Neutralidade é caminho para manter relevância depois que as eleições passarem

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Foto do autor Carlos Pereira
Atualização:

A decisão da União Progressista e do Republicanos de permanecerem neutros na eleição presidencial — e em boa parte das disputas estaduais — parece confirmar uma velha máxima da política brasileira: Centrão sendo Centrão.

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Mas por que o Centrão se comporta assim? A explicação usual aponta para pragmatismo, fisiologismo ou falta de identidade programática. Há, porém, uma interpretação menos normativa. Em presidencialismos multipartidários, partidos podem seguir duas trajetórias distintas para conquistar poder.

A primeira é majoritária: lançar um candidato competitivo à Presidência e tentar controlar diretamente o Executivo. É uma estratégia de alto risco e alto retorno. Quem vence fica com o maior prêmio. Quem perde pode passar quatro anos amargando a oposição. É a estratégia historicamente seguida por partidos como PT e, durante muitos anos, PSDB. Mais recentemente, o PL passou a ocupar esse espaço à direita.

Imagem mostra o Congresso Nacional; quem permanece neutro nas eleições preserva opções Foto: Antônio Cruz/ Agência Brasil

A segunda consiste em concentrar recursos na eleição da maior bancada possível no Congresso e se transformar em pivô da coalizão formada depois da eleição. O prêmio é menor, mas o risco também.

Em artigo com Bertholini, Bugarin e Pessôa, mostramos que esses dois caminhos oferecem incentivos distintos. Quem disputa a Presidência e perde terá que negociar, no dia seguinte, com alguém que passou meses combatendo. Há um custo reputacional nessa conversão, especialmente em ambientes polarizados.

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Quem permanece neutro preserva opções. Ao não se comprometer nacionalmente com nenhum dos polos, partidos do Centrão podem concentrar esforços na eleição de deputados e senadores e chegar ao dia seguinte disponíveis para negociar com o vencedor. Quanto maior a bancada, maior seu valor. Durante décadas, o MDB foi o caso paradigmático desse caminho. Mais recentemente, partidos associados ao Centrão passaram a desempenhar função semelhante.

É justamente aí que a neutralidade nacional ganha importância. Ao mesmo tempo, liberar diretórios para diferentes alianças estaduais permite aos partidos acomodar preferências locais sem transformar a organização nacional em adversária de nenhum dos candidatos presidenciais.

Não significa que suas lideranças sejam indiferentes ao resultado. Significa que, como organizações, esses partidos parecem considerar seu principal ativo não a capacidade de eleger o presidente, mas a de serem necessários a ele. Talvez, portanto, a pergunta não seja por que o Centrão se recusa a escolher um lado. Em um presidencialismo fragmentado e polarizado, não escolher antes pode ser a melhor maneira de continuar escolhendo depois.

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Opinião por Carlos Pereira

Cientista político e professor titular da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (FGV EBAPE) e sênior fellow do CEBRI.