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Mobilização nas ruas, Janones e debate; especialistas analisam o que levou à virada de Lula

Deputado mineiro criou canal com 10 milhões de inscritos liderou movimento nas redes sociais que reverberou no mundo real, dizem cientistas políticos

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Foto do autor Bianca Gomes
Foto do autor Pedro Augusto Figueiredo
Atualização:

‘Vamos mudar o jeito de governar esse País’, diz Lula

Presidente diz que quer que povo ‘participe mais’ do governo e que dará mais espaço para a comunicação digital. Crédito: Imagens: Partido dos Trabalhadores via Youtube

Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

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A mobilização que saiu das redes sociais e chegou às ruas é uma das chaves para entender a virada inédita de Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) neste domingo. O movimento, puxado por André Janones (Redes-MG), contribuiu para derrubar a abstenção ao menor patamar em 20 anos, abrindo caminho para a vitória do presidente, dizem especialistas ouvidos pelo Estadão. O deputado mineiro criou um canal no WhatsApp que alcançou 10 milhões de inscritos às vésperas da votação.

“O poder de mobilização foi fundamental para o maior comparecimento e mudança de eleitores que votaram branco ou nulo”, afirma Maurício Moura, economista e fundador do instituto de pesquisa Ideia.

Lula e Janones (de camisa do Brasil) comemoram a vitória do petista Foto: Ricardo Stuckert Foto: Ricardo Stuckert

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Como mostrou o Estadão logo após o primeiro turno, convencer o eleitor de ir votar no segundo turno era o grande desafio de Lula para buscar uma virada, sobretudo porque o perfil de abstenção no Brasil tende a ser justamente eleitores de baixa renda, mais propensos a votar no PT. No primeiro turno, a taxa foi a maior desde 1998.

“Lula fez uma campanha focada em fazer as pessoas irem votar. O Janones, com o canal ‘Exército do Lula’ no WhatsApp, conseguiu engajar o eleitorado, que foi espontaneamente às ruas. Janones sai como vitorioso com o exército que montou e que conseguiu driblar as restrições da Meta ”, afirma Márcia Cavallari, Head de Opinião Pública da Ipsos.

O maior engajamento, acrescenta a especialista, foi reforçado por uma campanha de segundo turno em que temas como o Supremo Tribunal Federal e o escândalo do Banco Master tiveram menos protagonismo. “O primeiro turno foi morno e muito focado nos escândalos envolvendo STF, Master, INSS e Lulinha. Quando veio o resultado da votação, parte da população viu que Lula tinha ficado para trás e começou um segundo turno com mais discussões sobre o processo eleitoral e os problemas do País. Isso deu um gás nas pessoas.”

Renato Dorgan, cientista político e CEO do instituto Travessia, aponta alterações no estilo de campanha de Lula e postura arrogante de Flávio como determinantes para o resultado deste domingo. “Lula venceu pela quarta vez graças à sua mudança radical no segundo turno na mobilização de rua e, principalmente, sua atuação intensa nas redes sociais, numa correta estratégia de diminuir abstenção. O que o comando da campanha de Flavio negligenciou é que temos vários países dentro do Brasil, e classes sociais pensam de maneira diferente, reagindo de maneiras diversas ante as falas, projetos e reações dos candidatos numa eleição. A postura pouco afetuosa e muitas vezes arrogante de Flavio Bolsonaro no segundo turno desagradou eleitores indecisos mais pobres, verificamos isso no debate da Band/Estadão e Globo, quando realizamos qualitativas em tempo real para o Estadão junto a eleitores indecisos”.

Lula mencionou Janones no discurso da vitória e disse que ele teve “papel exponencial” ao “levantar diariamente a moral da nossa tropa”. O parlamentar mineiro emitiu diversas orientações ao longo do segundo turno sobre quais hashtags os inscritos deveriam publicar nas redes sociais e os conteúdos que precisavam ser curtidos.

Rodrigo Prando, cientista político do Mackenzie, avalia que a atuação de Janones foi fundamental. “Ele fez um papel no segundo turno que toda a campanha do Lula somada não fez”, disse. “A mobilização nas redes reverberou e levou muita gente às ruas”, acrescentou o cientista político.

Cavallari, da Ipsos, também diz que, em uma eleição acirrada, fatores de última hora fazem a diferença. Além da mobilização nas ruas, ela conta que o próprio debate da Globo, na sexta-feira, pode ter ajudado a impulsionar o presidente. Como mostrou pesquisa qualitativa feita pelo Instituto Travessia ao Estadão, Lula levou vantagem entre indecisos ao conseguir surfar nos erros de Flávio, principalmente em duas situações: quando o senador se referiu a Lula como “nove dedos” e quando respondeu sobre a morte da menina Ana Clara Gomes Machado, atingida por um disparo de fuzil que teria sido efetuado por um policial para quem Flávio advogou.

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“A referência a Lula como ‘nove dedos’ tende a sensibilizar as pessoas, especialmente as mais velhas. Confundir o nome da mãe da Ana Clara com o da filha também. E, além disso, houve um reforço na narrativa de que o que estava em jogo não era ser a favor de Lula, mas da democracia”, acrescentou Cavallari.

Outro fator que impulsionou a virada, na avaliação de Rodrigo Prando, foi o crescimento do temor de que a família Bolsonaro voltasse ao poder. O movimento foi captado pela Quaest na pesquisa divulgada no sábado, 24: 45% dos entrevistados apontaram esse como o desfecho mais temido, ante 40% no levantamento feito na véspera do primeiro turno. Já o medo de uma reeleição de Lula oscilou de 43% para 42%.

O cientista político também citou o crescimento da votação do petista no Nordeste e em Minas Gerais. No eleitorado mineiro, Lula reverteu uma desvantagem de 588 mil votos em relação a Flávio no primeiro turno e venceu o candidato do PL por 108 mil votos de diferença no domingo, 25.

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