Do primeiro encontro não dá para esquecer. Quando estiveram frente a frente no debate Band/Estadão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro protagonizaram uma infâmia televisiva.
Quem assistiu, seja da coloração política que for, saiu convencido de que o desempenho dos dois pode ter mais afugentado eleitores do que atraído.
Na Band, o petista estava preparado para um debate convencional. Foi treinado para apresentar perguntas que poderiam expor fragilidades do adversário. Já o senador do PL parecia ter como coaches Nikolas Ferreira e Pablo Marçal, mestres da escola da lacração digital, mesmo que os escrúpulos sejam mandados às favas.

Para cada pergunta de Lula, Flávio tinha uma não resposta. No revide, jogou na cara do presidente da República a suspeita de tráfico de influência envolvendo a lobista e seu filho Lulinha.
O filho de Jair Bolsonaro insistiu tanto no personagem amolecado que Lula o chamou de “malandro carioca”. A irritação do petista acabou marcando sua atuação na maioria do embate. Impediu que o político que já enfrentou Collor, Fernando Henrique, José Serra, Geraldo Alckmin e Jair Bolsonaro soubesse por a bola no chão.
Lula perdeu o timing de expor as lacrações publicamente lembrando ao eleitor que está em jogo a presidência da República e não um concurso de engajamento, cliques e likes. O cargo é para ser levado a sério.
O ápice das gracinhas fora de hora veio na pergunta de Lula sobre a falta de vacinas na pandemia no governo do pai de Flávio. No começo, o senador ensaiou o reconhecimento de equívocos, mas tinha que terminar dizendo que Lula vacinado era como se tivesse um ‘bolsonaro dentro’ do petista? O assunto também era para ter sido levado a sério.
Nos pós-debate, Flávio tentou buscar um discurso, mas não encontrou. Lula insistiu na história do desafio factóide de abrir o sigilo. O senador capitulou e assinou um acordo sobre o tema que tem tudo para não ser nada além de mais uma peça da campanha eleitoral. Vale mais pelo simbolismo do que pelos resultados.
Os dois voltam a se encontrar nesta sexta-feira na TV Globo. Se Flávio Bolsonaro repetir o personagem corre o risco de posar para parte da população como um ‘playboy da Barra’ que quer brincar de ser presidente.
Já Lula precisará convencer o indeciso, se é que este estará assistindo a TV, de que não virou um político com validade vencida.



