Bets e Copa do Mundo: combinação pode aumentar o risco de dependência?

Especialistas alertam que grandes eventos esportivos podem intensificar comportamentos compulsivos e afetar principalmente grupos mais vulneráveis

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Foto do autor Victória  Ribeiro
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Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

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A Copa do Mundo sempre foi um território fértil para palpites. Tem o bolão da firma, a aposta valendo churrasco entre amigos, as trocas de figurinhas... Faz parte do ritual. Mas, desde 2018, essa conversa ganhou um elemento a mais: as bets, plataformas de apostas esportivas.

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À primeira vista, elas podem parecer apenas uma versão modernizada dos tradicionais bolões. Porém, especialistas alertam que a combinação entre Copa do Mundo e apostas online pode criar um terreno fértil tanto para o agravamento de quadros de dependência quanto para o surgimento de novos casos.

“O problema não é apenas o aumento do volume de apostas. É a possibilidade de esse ambiente acelerar comportamentos problemáticos em pessoas que já são vulneráveis”, avalia o especialista em finanças comportamentais Ahmed El Khatib, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

O cenário, diga-se de passagem, já não é dos melhores. Apenas nos cinco primeiros meses de 2026, mais de 574 mil pessoas recorreram à Plataforma Centralizada de Autoexclusão do Ministério da Fazenda, um sistema que bloqueia automaticamente o acesso a todas as casas de apostas vinculadas ao CPF do usuário. Entre elas, 41% afirmaram que a solicitação foi motivada pela perda de controle sobre o jogo e pelos impactos negativos na vida pessoal, familiar e social.

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Além disso, nos últimos cinco anos, a procura por serviços de saúde mental do Sistema Único de Saúde (SUS) relacionados à dependência de jogos online cresceu cerca de 140%.

Copa do Mundo deve impulsionar o crescimento das apostas online, abrindo caminho para a dependência Foto: wpadington/Adobe Stock

Por que a Copa do Mundo é terreno fértil para atrair apostadores

Não é difícil entender por que esse período desperta preocupações maiores. Como destaca Khatib, é durante a Copa que o futebol deixa de ser apenas um esporte para se tornar um fenômeno social. Até pessoas que normalmente não acompanham competições passam a assistir aos jogos, comentar resultados e compartilhar previsões.

“É um evento coletivo, cultural e, acima de tudo, emocional”, diz Khatib. “Essa atmosfera cria um cenário ideal para as plataformas de apostas.”

Para se ter uma ideia, segundo levantamento do banco britânico Barclays, a Copa do Mundo do Catar, em 2022, movimentou cerca de US$ 35 bilhões em apostas esportivas no mundo — aproximadamente R$ 187 bilhões. O valor representou um crescimento de cerca de 65% em relação ao Mundial da Rússia, em 2018. Para 2026, a expectativa é de que esse mercado ultrapasse R$ 255,7 bilhões.

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Uma das estratégias das plataformas para aumentar o engajamento são as chamadas bet builders, apostas personalizadas que permitem combinar diferentes previsões em um único lance. Entre as opções estão o número de gols, passes, escanteios e até o pé utilizado para marcar. A partir daí, o apostador constrói uma narrativa própria para a partida.

“O problema é que cada nova variável adicionada aumenta a complexidade estatística da aposta. Muitas vezes, o usuário passa a acreditar que está aumentando suas chances de ganhar quando, na realidade, isso se torna cada vez menos provável”, avalia o professor.

Outro fator que contribui é a publicidade. Basta navegar pelos perfis das principais empresas de apostas nas redes sociais para encontrar um volume expressivo de publicações associadas à Copa. Em uma delas, por exemplo, é oferecido um “bolão diferente”, com mais de R$ 6 milhões em prêmios. As campanhas também ocupam outdoors, televisão aberta e até catracas e vagões do metrô.

A estratégia inclui ainda a participação de celebridades e atletas. Um dos exemplos é o atacante Neymar. Poucas horas após ser oficialmente convocado para a seleção brasileira, o jogador publicou um vídeo em suas redes sociais convidando os seguidores a “se divertir” utilizando um código promocional para apostar. Hoje, vários jogadores atuam em clubes que têm uma casa de apostas como patrocinadora.

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“Quando um jogador veste uma camisa com o logo de uma bet, ele também transfere parte de sua credibilidade para aquele produto. Além disso, as pessoas tendem a interpretar essa mensagem como uma forma de validação social”, avalia Khatib.

Saúde mental e dependência

Todo esse contexto, segundo especialistas, é um prato cheio para ampliar os casos de endividamento e dependência. A psicóloga Juliana Bizeto, autora do capítulo dedicado ao jogo patológico no livro Dependências Não Químicas e Compulsões Modernas (Editora Atheneu, 2016), explica que as apostas esportivas ativam áreas do cérebro relacionadas ao prazer, à recompensa e à expectativa.

E, nessa lógica, não é apenas o resultado final que importa. O simples fato de aguardar o desfecho de uma aposta já pode provocar uma sensação de excitação capaz de reforçar o comportamento. Você aposta R$ 10 e pode ganhar R$ 100, mas também pode arriscar R$ 500 e perder tudo.

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“Ao contrário do que o senso comum sugere, não é a vitória que sustenta o comportamento, é a possibilidade de vitória”, diz a psicóloga.

No livro, Bizeto descreve três fases comumente observadas entre jogadores compulsivos. A primeira é a da vitória. Por sorte ou habilidade, o jogador acumula ganhos e passa a acreditar que domina o jogo. Confiante, aumenta a frequência e o valor das apostas. Depois vem a fase das perdas: quanto mais perde, mais tenta recuperar o dinheiro. Por fim, chega a fase do desespero. Algumas pessoas recorrem a empréstimos, mentiras e até atos ilícitos para continuar apostando. Quando percebem a dimensão do problema, entram em pânico.

Isso, segundo Khatib, também se relaciona com um fenômeno conhecido como “ilusão de controle”. No caso do futebol, como é um dos assuntos mais familiares para grande parte dos brasileiros, muita gente acredita possuir uma capacidade acima da média para prever resultados: afinal, conhece a escalação, acompanha os campeonatos, sabe quem está em boa fase e lembra dos confrontos anteriores.

“O excesso de confiança pode levar a apostas mais frequentes e de maior valor”, alerta Khatib. “O problema é que o futebol raramente segue o roteiro esperado. Basta lembrar do 7 a 1 sofrido pela seleção brasileira contra a Alemanha na Copa de 2014.”

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Quanto mais jovem, maior o risco

Qualquer pessoa pode desenvolver uma relação problemática com as apostas. Mas, quando o assunto é dependência, alguns grupos ficam em desvantagem. Estão nessa lista pessoas endividadas, além de indivíduos com ansiedade, impulsividade elevada, depressão e outros transtornos emocionais. Também merecem atenção aquelas que têm histórico familiar de dependências, de qualquer natureza.

“Muitas vezes, quem enfrenta dificuldades financeiras não aposta apenas por entretenimento. A aposta passa a ser vista como uma possível saída para um problema urgente”, diz Khatib.

Mas há um público que acende um alerta ainda maior entre os especialistas: o de crianças e adolescentes. Embora as bets sejam proibidas para menores de 18 anos, essa barreira nem sempre funciona. Em outubro de 2025, o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, realizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), revelou que cerca de 33 milhões de brasileiros com 14 anos ou mais já haviam participado de algum jogo de apostas ao menos uma vez na vida. Entre os adolescentes de 14 a 18 anos, a taxa chegou a 10,9% — o equivalente a mais de um milhão de jovens.

E o contato com esse universo começa muito antes da primeira aposta. Uma pesquisa da Cetic.br apontou que, entre março e setembro de 2025, 53% das crianças e adolescentes já haviam sido expostos a algum tipo de publicidade de bets.

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“Estamos falando de metade dos adolescentes em um ano sem Copa. Com o torneio, essa exposição tende a aumentar em uma escala muito grande”, avalia o psicólogo Rodrigo Nejm, especialista em Educação Digital do Instituto Alana.

O problema é que, na adolescência, regiões do cérebro ligadas ao controle dos impulsos, ao planejamento e à regulação emocional ainda estão em desenvolvimento. Em outras palavras, justamente os mecanismos que ajudam a avaliar riscos e frear decisões precipitadas ainda não atingiram maturidade. “Ou seja, esse grupo é especialmente vulnerável a qualquer tipo de dependência”, resume Nejm.

Em setembro de 2024, uma reportagem do Estadão mostrou que jovens estavam recorrendo a agiotas para quitar dívidas acumuladas em apostas online. Entre as consequências relatadas estavam ameaças por parte dos agiotas, crises de ansiedade e depressão, distorção da realidade e até pensamentos suicidas.

Crianças e adolescentes são particularmente vulneráveis à dependência relacionada às bets Foto: Евгений Шемякин/Adobe Stock

Regulamentação não diminui os riscos

A Copa de 2026 será a primeira disputada sob as regras do mercado de apostas regulamentado no Brasil. Em teoria, isso significa mais fiscalização, regras de operação e mecanismos de proteção ao consumidor. Mas os especialistas alertam que isso não significa ausência de risco.

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“As regras reduzem riscos institucionais, como fraudes e falta de supervisão. Mas elas não eliminam os riscos comportamentais, emocionais e financeiros associados às apostas”, destaca Khatib. Na prática, é uma lógica semelhante à do cigarro e das bebidas alcoólicas: são produtos regulamentados, mas não estão isentos de causar danos.

Mas, para Nejm, há um componente crucial que foge da regulamentação: a associação cada vez mais estreita entre o mercado de apostas e o universo esportivo. Em sua avaliação, o esporte é, em essência, associado à celebração, ao lazer e, acima de tudo, à promoção da saúde mental — algo que vai na direção oposta da lógica das bets.

Diante desse cenário, o psicólogo acredita que, talvez, valha a pena recuperar algumas tradições que sempre fizeram parte da experiência de acompanhar uma Copa. Vale o bolão da firma, apostar uma pizza entre amigos e prometer um churrasco se a seleção for campeã. A diferença, segundo ele, está no espírito da coisa.

“O clássico bolão faz parte de uma celebração coletiva. O gostoso está justamente na informalidade. É muito diferente de uma prática institucionalizada, cujo modelo de negócio favorece apenas as empresas e os seus patrocinados. Nesse tipo de jogo, a população sempre sai perdendo.”

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