Comer muito não é compulsão alimentar; entenda o que define o quadro

Especialistas esclarecem que exageros ocasionais à mesa não caracterizam o transtorno e indicam quando é necessário buscar ajuda

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Foto do autor Dalila Santana
Atualização:

Você sofre com pensamentos persistentes sobre comida?

A nutricionista Desire Coelho explica o que é o "food noise" e como ele pode impactar o dia a dia. Crédito: Desire Coelho/Estadão e Motion Array

Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

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Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que cerca de 4,7% da população brasileira convive com algum transtorno alimentar. São pessoas com problemas como bulimia, anorexia ou transtorno de compulsão alimentar, quadro ainda cercado por desinformação e frequentemente confundido com episódios isolados de exagero à mesa.

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Segundo Sophie Deram, nutricionista e coordenadora do projeto de genética do Programa de Transtornos Alimentares (Ambulim) da Universidade de São Paulo (USP), existe uma diferença importante entre o chamado comer transtornado e os transtornos alimentares diagnosticados clinicamente.

“Comer transtornado é tudo aquilo que não é transtorno alimentar. Já os transtornos alimentares possuem critérios diagnósticos muito bem definidos e devem ser avaliados por um psiquiatra”, afirma.

O diagnóstico segue critérios estabelecidos por manuais internacionais de psiquiatria e considera fatores como frequência dos sintomas, intensidade dos episódios e impacto na qualidade de vida da pessoa.

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Sophie acrescenta que o comer transtornado engloba uma série de comportamentos disfuncionais relacionados à alimentação, ao peso e à imagem corporal que não necessariamente preenchem os critérios para um diagnóstico psiquiátrico.

“É quando a atitude da pessoa diante da comida, do peso ou do próprio corpo passa a ser guiada por regras rígidas e excesso de controle”, explica.

Nesse grupo estão comportamentos como: contar calorias de forma obsessiva, eliminar grupos alimentares sem indicação médica, sentir culpa ao comer determinados alimentos ou acreditar que o próprio valor está diretamente ligado ao peso corporal. Embora esses comportamentos possam gerar sofrimento e comprometer a qualidade de vida, eles não configuram obrigatoriamente um transtorno alimentar.

Já a compulsão alimentar é caracterizada pela ingestão de uma quantidade de comida significativamente maior do que a maioria das pessoas consumiria em circunstâncias semelhantes, em um período de duas horas, com sensação de perda de controle. O transtorno de compulsão alimentar pode ser diagnosticado quando as compulsões acontecem pelo menos uma vez por semana, durante três meses.

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Além disso, o episódio costuma estar associado a comportamentos como comer mais rapidamente do que o habitual, continuar comendo mesmo sem fome física, alimentar-se até sentir desconforto intenso, comer escondido por vergonha e experimentar sentimentos de culpa, tristeza ou repulsa após o episódio.

Descontrole, culpa e vergonha

Para a neuropsicóloga Tatiana Serra, o principal elemento que diferencia a compulsão de um exagero ocasional é justamente a sensação de descontrole.

“A pessoa sente que não consegue parar de comer ou controlar o que está fazendo. Ela não come porque está com fome, mas muitas vezes porque está tentando lidar com emoções difíceis, mesmo que isso traga sofrimento depois”, afirma.

Na compulsão alimentar, é comum a pessoa comer descontroladamente como forma de lidar com emoções difíceis. Foto: Photo for everything/Adobe Stock

Os fatores emocionais desempenham um papel importante no desenvolvimento do transtorno. Ansiedade, estresse, tristeza, solidão, frustração e baixa autoestima estão entre os gatilhos mais relatados pelos pacientes.

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“Durante o episódio, há uma sensação momentânea de conforto ou distração. Depois, as emoções retornam, muitas vezes acompanhadas por culpa e vergonha. É por isso que costumamos dizer que a compulsão alimentar não está relacionada apenas à comida, mas à forma como a pessoa lida com suas emoções”, complementa Tatiana.

Food noise

Outro fenômeno frequentemente observado em pessoas com compulsão alimentar é o chamado food noise, expressão usada para descrever pensamentos persistentes e invasivos relacionados à comida.

“O indivíduo passa grande parte do tempo pensando no que vai comer, no que não deveria comer ou tentando controlar a alimentação. É como se a comida ocupasse um espaço excessivo na mente”, esclarece Sophie.

De acordo com a nutricionista, esse excesso de preocupação pode estar presente tanto em pessoas com compulsão alimentar quanto naquelas que apresentam comportamentos alimentares transtornados. A diferença é que, na compulsão, esses pensamentos costumam vir acompanhados de episódios recorrentes de perda de controle e sofrimento emocional significativo.

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Dietas restritivas e a relação com a comida

Embora a compulsão alimentar seja um transtorno complexo e multifatorial, especialistas apontam que dietas excessivamente restritivas podem contribuir para o agravamento do problema em pessoas geneticamente predispostas.

“Quanto mais a pessoa tenta controlar a alimentação o tempo todo, maior pode ser o risco de exageros e perda de controle”, adverte Sophie.

Ela afirma, inclusive, que a busca incessante pela alimentação perfeita tem contribuído para o aumento de comportamentos alimentares disfuncionais.

“Hoje vemos pessoas extremamente preocupadas com o que comem, com medo de determinados alimentos e consumidas pela culpa. Essa relação de sofrimento com a comida também merece atenção”, alerta.

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Quando procurar ajuda?

Identificar o momento de buscar ajuda nem sempre é simples. Muitas pessoas convivem durante anos com sintomas antes de compreender que precisam de acompanhamento profissional.

Entre os principais sinais de alerta estão: sensação frequente de perda de controle ao comer, episódios recorrentes de alimentação excessiva, comer escondido e utilizar a comida como principal estratégia para lidar com emoções difíceis.

“Outro sinal importante é quando a preocupação com comida, peso ou corpo começa a interferir na qualidade de vida, nos relacionamentos, no trabalho ou na saúde mental. Em qualquer uma das situações, recomenda-se procurar ajuda profissional.”, pontua Tatiana.

O tratamento da compulsão alimentar costuma ser multiprofissional e envolve psicólogos, psiquiatras e nutricionistas. O objetivo é reconstruir uma relação mais saudável com a comida e com o próprio corpo.

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“A recuperação envolve manutenção de hábitos e autocuidado contínuo. É importante que a pessoa aprenda a reconhecer seus gatilhos emocionais, desenvolva estratégias saudáveis para lidar com estresse e ansiedade, mantenha uma alimentação equilibrada sem extremismos e preserve uma relação mais flexível com a comida”, conclui Tatiana.

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