Quem ficou na Vila Sahy, em São Sebastião, após tragédia de 64 mortos?
Aluguel mais baixo e vínculos afetivos estão por trás de permanência na área de alto risco; prefeitura diz monitorar e Estado atua na entrega de moradia social. Crédito: Gonçalo Junior | Estadão
Três anos depois do temporal que deixou 64 mortos em São Sebastião, a Vila Sahy é marcada por cicatrizes. Elas são geológicas, como as 853 falhas e crateras que se formaram nos morros após o deslizamento em 2023, e emocionais.
Apesar do risco de novos desastres, agravado pela crise climática, dezenas de famílias vivem a poucos metros do local onde a terra deslizou. Na vila, havia 52 vítimas. “Meu filho de 8 anos chora quando ouve um trovão”, conta a diarista Cleidiane Araújo, de 31 anos. No local, há até famílias que se mudaram para lá após a tragédia de três anos atrás.
A prefeitura de São Sebastião diz que os imóveis em área de risco alto estão em processo de regularização fundiária. O cadastro das cerca de 700 moradias começou em dezembro.
O poder municipal destaca ainda ter feito obras de contenção de enchentes e cita monitoramento meteorológico e de campo dos pontos de risco.
Por meio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Social (Sedes), o poder municipal afirma que continua realizando o acompanhamento social das famílias atingidas pela tragédia. Atualmente, o sistema atende 106 famílias com o Auxílio Aluguel.
O governo do Estado, por sua vez, informa ter entregue 704 moradias nos empreendimentos Baleia Verde e Maresias, destinados a famílias atingidas pela tragédia. E diz que serão erguidas mais 256 unidades habitacionais na cidade (leia mais abaixo).

Segundo especialistas, esse dilema se repete nas encostas e beira de rios de várias cidades do País. De um lado, há dificuldades do poder público em atender à demanda habitacional da região para tirar moradores de áreas de risco. De outro, muitos insistem em permanecer ou voltam à região, mesmo com o perigo. Entre as razões, estão a proximidade com o trabalho e o custo da moradia.
Atualizado no início de 2025, o Plano Municipal de Redução de Riscos de São Sebastião elaborado pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), mostra que a Vila Sahy é área de alto risco. Foram identificados 853 pontos de deslizamento só naquela região. No total, a cidade tem 21.387 imóveis em pontos de perigo.
Do ponto de vista geológico, a região é um maciço rochoso coberto por fina camada de solo, suscetível a deslizamentos em temporais. A camada de terra se desprende, arrastando tudo. A ocupação densa amplia o potencial de destruição.
A chuva histórica que devastou a região completa três anos nesta quinta-feira, 19. Na visita que fez ao município, o Estadão ouviu várias explicações econômicas e afetivas para continuar no local, além da sensação de mais segurança com as obras de contenção.
A celebração ecumênica que vinha sendo realizada no memorial das vítimas nos últimos três anos não será feita em 2026. “O ato mexe na ferida das famílias e estão tentando seguir em frente. Por mais que seja uma homenagem, é muita dor e sofrimento”, diz Daiane Vieira, da Associação de Moradores da Vila Sahy.

A tragédia expôs vulnerabilidades antigas e sobrepostas: a ocupação desordenada impulsionada pelo problema crônico de falta de moradia, casas erguidas sobre terrenos frágeis e a combinação de fatores geológicos foram potencializados pelo volume histórico de chuva no dia 19 de fevereiro de 2023.
Entre lembranças traumáticas, moradores não ignoram o risco, mas decidem que a vida ali pesa mais do que o medo.
O cearense Josenildo Gome diz que só saiu de seu sobrado por duas semanas após a tragédia. De lá, dá até vertigem ao se olhar para o morro imponente, distante uns 50 metros. “É o lugar onde moro, meu único lugar. Não sei viver em outro”, conta o pedreiro de 48 anos.
Para a dona de casa Cleidiane Araújo, partir foi mais doloroso do que ficar. Ela conta que tentou voltar para a terra natal na Bahia, mas não se adaptou. “É a minha história que está aqui. Cheguei em 2000, com 5 anos.”
O bairro, formado em meados dos anos 1990 por imigrantes nordestinos em busca de trabalho no litoral de São Paulo, é habitado por funcionários de casas de veraneio, pousadas e hotéis da praia Barra do Sahy, do outro lado da rodovia. São motoristas, pedreiros, jardineiros, manicures, porteiros e cozinheiras.
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Apesar de irregular, o bairro de cerca de 30 anos fica próximo à rodovia Rio-Santos e está consolidado, com ruas e vielas pavimentadas e ligação de energia elétrica.
A prefeitura afirma que a Vila Sahy constitui um núcleo urbano informal historicamente ocupado, passível de regularização fundiária.
Já o trabalho feito pelo IPT aponta perigo na permanência de famílias no local. “A maneira mais efetiva para a completa eliminação do risco identificado é a remoção do elemento sob risco, deslocando-o para uma área segura”, diz trecho do documento.

A vendedora Valdineia Gonçalves, de 40 anos, confessa que tem medo de morar ali. “Fico querendo dar uma de forte.” Ela conta que o ex-marido não podia nem ouvir o barulho do ventilador ligado depois de ter presenciado a dor do bairro inteiro.
‘O aluguel é metade do valor’, diz moradora
O alto da encosta, justamente a área mais vulnerável, tem aluguel bem mais barato. É por isso que a manicure Beatriz Gonçalves se mudou para o local há dois anos – ela não viveu a tragédia. “Vim morar aqui por questão de renda. O aluguel é metade do preço e as casas são até maiores”.
O aluguel no alto do morro custa em torno de R$ 600 – no caso de Beatriz, o valor inclui as taxas de água e luz. Lá embaixo, na Avenida Marginal, a conta chega a R$ 1,5 mil.

Ela aceitou o convite de parentes que já viviam no litoral e deixou Ibicaraí (BA) atrás de emprego. “Quando vi o alerta de chuva forte no celular pela primeira vez, peguei a bolsa e saí correndo”, conta. Agora, está ansiosa com a chegada do filho de 9 anos que vem morar com ela. “Sinto que ele estava mais seguro longe.”
Muitos moradores relatam menos preocupação após as obras. Algumas medidas foram adotadas pelos governos federal, estadual e municipal para a reparação do território, incluindo obras de contenção em Juquehy, Morro do Esquimó e Vila Sahy.
O poder municipal afirma ter investido R$ 123 milhões em obras emergenciais, como o sistema de macrodrenagem com travessia sob a Rodovia Rio-Santos (SP-55).
As construções se parecem com fortificações medievais robustas, feitas de pedra. Tecnicamente são barreiras de contenção para mitigar o risco de queda de blocos e movimentação de solo.
“A situação melhorou com as obras. Tivemos chuvas fortes, e a água escoou bem”, afirma a moradora Naíza Silva, que vive ali desde que nasceu.
O problema das barreiras físicas, como especialistas têm apontado nos últimos anos, está no ineditismo dos eventos climáticos extremos, que têm ocorrido com intensidade e frequência ainda difíceis de serem antecipadas pela meteorologia e pela engenharia. Um efeito do aquecimento global.
Discussão sobre indenização
Em setembro, a Justiça isentou a prefeitura de responsabilidade por falhas na prevenção e comunicação do risco, afirmando que a força das chuvas de 2023 teria sido “imprevisível”. Cabe recurso.
A ação havia sido movida pelo Ministério Público e a Defensoria Pública de São Paulo, que alegaram omissão do município em adotar medidas de prevenção. Na ação, as entidades pediam R$ 20 milhões em indenização por dano moral coletivo, além de outros R$ 10 milhões por dano social e indenizações individuais às famílias.
O argumento era de que a Prefeitura sabia do risco na Vila Sahy há anos e não tomou as devidas providências.
“São Sebastião é uma panela de pressão que pode explodir a qualquer momento”, diz Fernanda Carbonelli, cofundadora e diretora Executiva do Instituto de Conservação Costeira (ICC), entidade que luta pela conservação da Mata Atlântica. “Há um passivo de 40 anos (de reformas não realizadas) e nenhuma medida estruturante foi adotada”, afirma ela, também advogada e membro do Conselho Estadual de Meio Ambiente
Antes do colapso de 2023, o Grupo de Atuação Especial de Proteção ao Meio Ambiente do Ministério Público de São Paulo já tinha ajuizado 42 ações civis públicas para pedir intervenções em 52 áreas de São Sebastião com deficiências de infraestrutura e riscos aos moradores.
Segundo o levantamento do IPT, os setores de risco se espalham por 14 bairros. Os mais afetados são: Topolândia (2.115 moradias), Boiçucanga (1.683) e Cambury (1.003).
Críticas ao reassentamento das famílias
O governo de São Paulo informa a entrega de 704 moradias definitivas nos empreendimentos Baleia Verde e Maresias, destinados às famílias atingidas pela tragédia, com o uso de R$ 260,4 milhões.
Conforme o Estado, seguem em andamento 256 unidades habitacionais em Topolândia, também em São Sebastião, que recebem R$ 68,9 milhões.
Foram atendidas, segundo a prefeitura, 638 famílias (456 na Baleia e 182 em Maresias).
Outra iniciativa prevê 12 mil moradias, 6 mil no litoral norte. Já estão em andamento, ainda segundo o governo, empreendimentos em São Sebastião (512 unidades) e Caraguatatuba (200).
Os reassentamentos são vistos com reserva por parte das associações ligadas a movimentos sociais, principalmente por deixarem os moradores mais distantes das áreas de geração de renda, como as frequentadas pelos turistas.
Estudo feito pela Clínica de Acesso à Justiça da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), em parceria com o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), ouviu 94 famílias entre 2024 e 2025 e encontrou quebra de redes de apoio, alta de gastos com transporte, perda de empregos e dificuldade de acesso a escolas e serviços públicos.
“Famílias que faziam coleta de resíduos, por exemplo, não conseguem mais fazer isso porque o novo bairro não é tão adensado”, afirma Arthur Macfadem, um dos coordenadores do MAB no litoral norte.
Há ainda reclamações dos moradores sobre a cooptação dos jovens pelo crime organizado, que eles relatam avançar pela região da Baleia Verde. Por isso, muitas famílias também gostariam de voltar à Vila Sahy.
O município informa que “desenvolve políticas públicas permanentes nas áreas de assistência social, segurança alimentar, qualificação profissional, geração de emprego e renda e prevenção à violência, que atendem toda a população, incluindo as famílias reassentadas”.

Simulados reduzem danos, diz especialista
Para aumentar a segurança de comunidades vulneráveis como a Vila Sahy, exercícios simulados de evacuação são cruciais, segundo Irineu de Brito Junior, professor de Logística de Operações Humanitárias e Gerenciamento de Risco da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
“É ali que você identifica falhas. O que der errado no simulado não vai se repetir no dia do desastre”, afirma Brito Junior, que há anos atua em treinamentos com defesas civis do País.
Entre as medidas, criar rotas de evacuação conhecidas pelos moradores, adotar protocolos simples para o pós-desastre e comunicar bem as iniciativas reduzem danos.
“Uma única pessoa treinada pode conduzir de 100 a 200 pessoas em uma evacuação real”, explica ele, que deu treinamentos em São Sebastião e atou nas enchentes do Rio Grande do Sul, em 2024.
Para Brito Junior, um aspecto que precisa ser aperfeiçoado no Brasil é aumentar o envolvimento comunitário como estratégia. “As pessoas sabem como agir sozinhas, mas não como ajudar o vizinho idoso, cadeirante. Em desastres, tempo é tudo.”
Em São Sebastião, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Social (Sedes) informa que participa de simulados da Defesa Civil Municipal, com o “intuito de preparar as equipes em caso de situações em que haja a necessidade de retirar famílias de áreas atingidas”.
Como acabar com as cicatrizes das montanhas?
Ações de reflorestamento procuram apagar as memórias da tragédia que ficaram nas encostas e nos morros.
A Fundação Florestal, vinculada à Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil), afirma que monitora a regeneração do solo e da vegetação nativa em sete áreas afetadas pela tragédia de 2023: Juréia, Juquehy, Barra do Sahy, Baleia, Boiçucanga, Toque-Toque e Ilhas.
“As metas de cobertura vegetal do primeiro ano foram atingidas em todos os pontos passíveis de recuperação, incluindo encostas íngremes. Ainda em 2023, foram investidos R$ 980 mil em hidrossemeadura e contenção natural na Vila Sahy, com aplicação de biomanta em três cicatrizes de maior risco, garantindo a cobertura vegetal total dessas áreas em menos de um ano”, diz nota enviada pelo órgão.
Em parceria com o ICC e a iniciativa privada, o projeto de restauração prevê a cobertura de 208 hectares por semeadura aérea com drones, dos quais 168 hectares já foram restaurados.
A parceria também promove ações de educação climática em escolas da Costa Sul sobre áreas de risco e protocolos de prevenção.
