Maus profissionais da saúde ganharam alcance com as redes sociais -- e podem te colocar em risco
A nutricionista Desire Coelho, colunista do Estadão, fala da banalização da área da saúde nas mídias digitais e como podemos nos proteger.
Uma das maiores proezas das redes sociais foi dar voz a quem antes não teria palco. E, ao mesmo tempo que isso tem seus méritos, abriu espaço para um problema muito sério: o do viés de autoridade. Na área da saúde isso é quase uma epidemia. Profissionais que usam do seu jaleco para encher o feed de promessas e iludir milhares ou até milhões de pessoas. Só que, muitas vezes, esses protocolos têm mais a ver com lucro do que com ciência — ou saúde.
Nos últimos tempos, dois casos me deixaram especialmente preocupada.
O primeiro aconteceu recentemente, quando fui questionada se existe algum nutrólogo que não prescreva esteroide anabolizante. A pessoa que me perguntou já havia se consultado com três profissionais diferentes. Todos haviam receitado algum tipo de “bomba”, mesmo sem qualquer necessidade clínica. Claro que esse paciente tinha uma preocupação estética, mas me garantiu ter deixado claro que não tinha pressa e sua saúde era mais importante. Hoje em dia, esses profissionais até ganharam apelido: “médicos bombólogos”. São aqueles que prescrevem hormônios para qualquer paciente, com a justificativa de “otimizar” faixas hormonais — mesmo quando os exames estão absolutamente normais. Spoiler: isso não é modulação hormonal (nome que eles utilizam para seduzir o paciente) e pode trazer consequências sérias em longo prazo.
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Soube recentemente que um desses médicos, bastante conhecido e seguido, foi internado por complicações relacionadas ao uso crônico dessas substâncias. Claro que não contou para os seguidores o real motivo da internação. Mas, nos bastidores, as informações correm. O problema é que o grande público, que não participa dessas conversas paralelas, segue confiando no jaleco — e pagando a conta com a própria saúde.
O segundo caso ocorreu com uma paciente minha. Ela me procurou após comprar um protocolo de emagrecimento criado por um médico influenciador. A estratégia era uma mistura de jejum intermitente com dieta cetogênica, aliada a uma bateria de suplementos.
Ela enviou ao profissional os seus exames, que estavam todos absolutamente normais: glicemia de 88, hemoglobina glicada de 4,8%, insulina de 8 — tudo dentro da faixa de referência. E, mesmo assim, o médico declarou: tendência à resistência à insulina. De onde tirou isso? A resposta veio logo depois...
Junto com o “laudo”, vieram sete fórmulas de suplementos. Cada uma com uma média de quatro substâncias diferentes, entre vitaminas, minerais e fitoterápicos — muitos deles sem respaldo científico sólido. Resultado final? Simplesmente 29 suplementos. Valor estimado: mais de R$ 2 mil. Coincidentemente — ou não —, o médico indicava locais para a compra dos produtos. Quem conhece o mercado sabe exatamente o que isso costuma significar: dinheiro no bolso dele.

A pergunta é: por que uma pessoa saudável, com exames normais, precisa de 29 suplementos? E se essa mesma pessoa estivesse, de fato, doente? Vale destacar que, muitas vezes, nosso corpo nem consegue absorver tudo o que consumimos. Quando falamos de suplementos, isso se torna mais complexo ainda.
Uma frase que esses profissionais adoram utilizar é que a “conduta é baseada em ciência”. Infelizmente, é muito fácil usar a palavra “ciência” para justificar qualquer conduta. A qualidade das publicações científicas tem caído muito. Existem revistas predatórias, que publicam qualquer artigo mediante pagamento — e muitas delas abrigam estudos que servem de “referência” para esse tipo de profissional. E como a educação tem caído muito de qualidade, a verdade é que a maioria dos profissionais não têm formação para avaliar criticamente a metodologia dessas pesquisas. Aí, acabam confiando no que parece técnico, sério e baseado em evidência, quando, na verdade, estão diante de trabalhos de péssima qualidade.
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O mais perigoso? Esses profissionais falam com convicção. Estufam o peito. Batem na mesa. Dizem que é seguro, comprovado, revolucionário. E quem escuta — cansado, frustrado, vulnerável — acredita. Afinal, como duvidar de alguém dentro dos padrões, cheio de si, carismático e seguido por milhões?
Bons profissionais não precisam vociferar nas redes sociais. Eles escutam, explicam e caminham ao lado, entendendo que o paciente é o protagonista durante todo o processo – não ele. Nesta nossa era de excesso de informações nas redes sociais, uma boa dica é a seguinte: desconfie de profissionais que têm certezas demais. Esse é o primeiro passo para identificar quem não está verdadeiramente comprometido com a saúde.

