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Análise - Um ano para esquecer ou deixar saudades?

Texto publicado originalmente no Estadão Noite

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João Ricardo Costa Filho*,
O Estado de S.Paulo

16 Fevereiro 2016 | 22h00

O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou hoje que as vendas no chamado varejo restrito (sem veículos, motos, autopeças e material de construção em 2015) tiveram o pior resultado desde 2001. Em meio à recessão econômica que tem o potencial para superar o resultado registrado pelo Brasil durante a Grande Depressão (considerando as expectativas para 2016), era de se esperar. O prognóstico, no entanto, não traz nenhum alento.

As vendas no varejo são fortemente influenciadas pela dinâmica do mercado de trabalho. Quando a expectativa é desfavorável, os agentes protelam as suas decisões relacionadas a bens mais duráveis. Não à toa, móveis e eletrodomésticos, por exemplo, registraram queda de 14% em 2015. A contenção no mercado de crédito também contribuiu para a queda. Quando olhamos os dados do varejo ampliado, veículos, motos, partes e peças caíram 17,8% e material de construção, 8,4%. Lembrando que estamos falando dos dados para volume e não receita.

A grande preocupação está nas perspectivas para as variáveis que influenciam as vendas do varejo. O desemprego tende a aumentar, o crédito deve ficar mais restrito, a inflação teimosamente acima da meta, o PIB segue em queda livre. O mercado de trabalho demorou para responder à desaceleração e, com ele, as vendas no varejo (que foram ruins), podem não ter sentido todos os efeitos da recessão econômica.

Na tese de Luka Barbosa (orientada por Gino Olivares no Insper), o autor mostra que a arrecadação pública depende diretamente da massa salarial e das vendas no varejo. Ou seja, se há ainda piora adicional tanto no varejo quanto no mercado de trabalho, a arrecadação pública deve continuar surpreendendo negativamente. A desconfiança com a situação fiscal irá aumentar, e na falta do ajuste fiscal que foi anunciado, mas não implementado propriamente, podemos chegar a uma crise fiscal.

Portanto, o pior ano da série histórica das vendas no varejo pode ainda deixar saudades. Não tem Black Friday que sustente um desemprego acima de 10%, com famílias endividadas e inflação de dois dígitos. A contração econômica chegou por último no varejo, mas veio com força. E para ficar.

* João Ricardo Costa Filho é professor da Faculdade de Economia da FAAP e associado da Pezco Microanalysis

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