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Nas telas, uma experiência antropófaga

Em 'O Homem do Pau-Brasil' (1981), Joaquim Pedro de Andrade quis incorporar a totalidade de Oswald de Andrade - obra, vida e estilo

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

01 Julho 2011 | 15h46

E m relação à influência de Oswald de Andrade sobre a cultura brasileira, em especial a partir dos anos 1960, pode-se dizer que são poucas as versões de suas obras para o cinema. Contam-se nos dedos.

Oswaldianas (1992), filme de episódios: Princesa Radar, de Roberto Moreira, Daisy das Almas Deste Mundo, de Lucia Murat, Perigo Negro, de Rogério Sganzerla, Quem Seria o Feliz Conviva de Isadora Duncan?, de Julio Bressane, e Uma Noite com Oswald, de Inácio Zatz e Ricardo Dias. É obra irregular, na qual despontam os trabalhos de Bressane e Sganzerla.

Bressane, habitué da literatura de Oswald, retorna várias vezes ao escritor, ainda que de maneira oblíqua. Faz dele um personagem de Tabu e o cita, de modo alusivo, em Miramar. Oswald aparece como figura tutelar, modelo oculto de intelectual transgressor.

Antes disso, em 1973, Zelito Viana fizera, com Os Condenados, a adaptação de uma das partes da trilogia Isabel Ribeiro é Alma, em suas memórias das aventuras amorosas numa São Paulo do início do século 20.

Essa presença mais difusa de Oswald não deve mascarar sua influência marcante no imaginário dos anos 1960, em especial no final da década, quando se precisou traçar a linha demarcatória entre o realismo crítico e algo que ia além dele, e desaguou em seguida no tropicalismo. Em 1967, Glauber Rocha lança um filme extraordinário e paradoxal, Terra em Transe, bebendo na fonte antropofágica. É do mesmo ano a explosiva montagem de O Rei da Vela, por José Celso, referida acima. Essas obras abrem uma fenda criativa na cultura brasileira, que se torna efervescente tanto na política como na proposta estética de vanguarda.

Curiosamente, uma das inspirações maiores do Cinema Novo, nascido anos antes, havia sido o modernismo, com suas duas figuras tutelares, os dois Andrades de São Paulo, Mário e Oswald. Temperamentos tão opostos, obras tão contrárias e complementares, encontram em outro Andrade, o carioca, filho de mineiro Joaquim Pedro, o melhor caudal por onde passam e se refletem.

Em 1968, Joaquim faz a adaptação de Macunaíma, muito bem-sucedida. Uma releitura cinematográfica das ideias de Mário sobre os mitos fundadores brasileiros que os estendia para uma contemporaneidade em chamas, de luta armada contra o regime. Foi um dos grandes sucessos do Cinema Novo.

À medida que Joaquim mergulhava no universo de Mário, ia descobrindo a presença de Oswald. Era como um "outro" de Mário, um personagem antagônico, porém imprescindível para a compreensão de toda uma etapa da aventura intelectual brasileira. A tendência primeira seria simpatizar com Mário e hostilizar Oswald, pois os dois escritores deram origem a um dos mais persistentes Fla-Flus do panorama cultural do País. Era um ou outro. Mas Joaquim, que amava Mário (pois este havia até trabalhado com seu pai, Rodrigo M.F. de Andrade), começou a ceder aos encantos radicais de Oswald. Sua veia polêmica, sua criatividade feroz, sua personalidade histriônica - traços irresistíveis.

Fascinou-se a tal ponto que decidiu aprofundar-se na proposta estética e utilizar, de maneira cinematográfica, em O Homem do Pau-Brasil (1981), os mesmos recursos que Oswald usava em sua literatura. Para começar, bipartiu a caracterização do personagem, fazendo-o ser interpretado por um homem (Flávio Galvão) e uma mulher (Ittala Nandi). Um Oswald macho-fêmea, que percorre fatos de sua vida, como a noite com Isadora Duncan, Tarsila, Pagu, os romances maiores Memórias Sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande, a antropofagia e, por fim, as últimas teses sobre o matriarcado antropofágico, o primado das mulheres. É um filme raivoso, erótico, até delicadamente obsceno, que joga luz sobre o pensamento sem limites de Oswald. O Homem do Pau-Brasil não pretende adaptar uma ou várias obras do autor. Deseja celebrá-lo. E, por que não dizer?, devorá-lo. Amorosamente.

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