‘O Brasil merece ser recompensado pelo serviço de geração de chuva’, diz economista ambiental


Consultor de multinacionais na área de sustentabilidade, indiano Pavan Sukhdev sugere que se pague pela geração de chuvas e pela polinização feita por insetos

Por Luciana Dyniewicz
Foto: Taba Benedicto/ Estadão
Entrevista comPavan SukhdevFundador da consultoria Gist Impact

A Amazônia é uma das três florestas do mundo responsáveis por gerar chuva para regiões produtoras de alimentos. Isso significa que mantê-la em pé garante a produção de US$ 250 bilhões por ano em alimentos. As populações que têm garantido a preservação da floresta, portanto, precisam receber por isso, de acordo com o indiano Pavan Sukhdev, fundador da consultoria Gist Impact.

“O Brasil hoje merece a maior recompensa pelos serviços ecossistêmicos de geração de água doce. Não apenas por gerar chuvas que garantem uma produção de alimentos equivalente a US$ 250 bilhões, mas por gerar o ciclo de chuvas que abastece tantas partes do mundo”, diz.

Formado em Física por Oxford, Sukhdev atuou como diretor geral de mercados globais do Deutsche Bank antes de migrar para a área de sustentabilidade corporativa. Foi presidente executivo e presidente do conselho da World Wide Fund for Nature (WWF International), ONG que atua na investigação e na recuperação ambiental, e chefe da iniciativa de economia verde do braço da ONU para o meio ambiente (Pnuma).

continua após a publicidade
Sukhdev: 'Agora o valor da floresta não é mais gratuito; é necessário cobrar dos que se beneficiam dela' Foto: Taba Benedicto/ Estadão

Hoje consultor de multinacionais na área de sustentabilidade, Sukhdev afirma que as empresas que já adotavam práticas ESG (de governança ambiental, social e corporativa) seguem com suas estratégias, apesar dos ataques do presidente americano, Donald Trump, a essas medidas. Diz, porém, que elas estão fazendo isso de forma silenciosa. “Existe um medo de que, se falarem sobre as boas ações, possa haver reações negativas ou até penalidades.”

Confira, a seguir, trechos da entrevista:

continua após a publicidade

Há anos, o sr. vem propondo que se dê um valor ao capital natural. Como isso funcionaria? Países como o Brasil seriam pagos por isso?

A natureza oferece muito à sociedade: captura carbono, poliniza, garante o fluxo de nutrientes e de água doce, estabiliza o clima. Oferece também a geração de chuvas. Todos os dias, 20 bilhões de toneladas de água evaporam da Floresta Amazônica. Essa evaporação, quando encontra os ventos alísios que vêm do Atlântico, forma nuvens. As nuvens seguem até os Andes, onde provocam a chuva que cai em Mato Grosso, Brasil, Uruguai, Paraguai, Argentina – e toda essa região da Bacia do Prata é, basicamente, um dos maiores celeiros do planeta. A economia agrícola gerada por essa chuva vale US$ 250 bilhões por ano. Quanto esses países pagam ao Amazonas e aos outros Estados onde está localizada a floresta? Nada. Não estamos recompensando os guardiões da floresta que tornam isso possível. Espero que essa conversa ganhe força e se torne uma questão discutida por governos, porque isso diz respeito às nações.

Isso não geraria uma economia mais excludente, dado que muitos países não teriam recursos para pagar por esses serviços?

continua após a publicidade

O ponto central é valorizar os serviços que a natureza presta à economia e à sociedade — e lembrar que dois terços da economia são do setor privado. É claro que as corporações estão lucrando. Elas estão recebendo recursos sem pagar por eles, porque a natureza não emite faturas.

Isso não seria privatizar a natureza?

Não privatizaríamos a natureza. O que faríamos seria reconhecer o valor desses serviços ecossistêmicos. A natureza é um bem público. Não pode ser privatizada. Pense bem: suponha que alguém plante uma floresta na Mata Atlântica, e essa floresta gere evaporação e nuvens. A chuva não cairá necessariamente sobre essa área. Podemos valorizar esse serviço ecossistêmico, porque, se destruirmos toda a Mata Atlântica ou toda a Amazônia, os serviços que essas florestas prestam deixam de existir.

continua após a publicidade

Nesse exemplo da chuva, quem receberia por isso?

Se estamos falando da Amazônia, seria o Estado do Amazonas. E o Amazonas precisaria garantir que fossem recompensados aqueles que estão assegurando a sobrevivência da floresta. Ao mesmo tempo, seria necessário cobrar daqueles que utilizam a floresta, porque agora o valor da floresta não é mais gratuito.

'Mundo desenvolvido deveria ter menos liberdade para explorar formas de energia claramente danosas, como petróleo e gás' Foto: Taba Benedicto/ Estadão
continua após a publicidade

Se o capital natural fosse valorizado, quais seriam as oportunidades para o Brasil?

Seriam imensas. Se olharmos para a maior parte da produção agrícola nos trópicos, existem três grandes “fábricas de chuva” responsáveis por essa produção: a Amazônia, a floresta tropical da África subsaariana e o arquipélago indonésio. Portanto, são os países que protegem essas florestas tropicais, que preservam a capacidade de geração de chuva dessas regiões, que merecem o crédito.

Pela sua proposta, quais outros recursos naturais teriam um valor?

continua após a publicidade

A evaporação de água e o ciclo de chuvas são os maiores serviços ecossistêmicos. Mas existem outros, como a polinização. Os serviços de polinização prestados por insetos são extremamente importantes, pois influenciam a produção de frutas. Existem estudos que mostram que o número de polinizadores caiu 70%. Há um problema que precisa ser enfrentado. Estamos falando da nossa comida. E os preços dos alimentos vão subir se não cuidarmos disso.

Mas, se tivermos de pagar por isso, os preços também vão subir.

Menos. A escassez que ocorrerá como resultado da perda desses serviços ecossistêmicos nos afetará de forma mais grave do que o pequeno valor que precisamos pagar para manter os serviços funcionando.

O Brasil tem energia renovável e natureza, o que favorece para que seja um ator relevante em uma economia global “verde”. O que o País precisa fazer para se transformar em um líder neste novo mundo?

Na minha opinião, é papel e responsabilidade do governo brasileiro transformar isso (cobrança por serviços naturais) em um grande tema. Na próxima COP, não deveria se falar apenas da captura de carbono das florestas, mas também dos serviços de geração de água prestados por elas. O presidente Lula e sua equipe deveriam falar sobre o valor que o serviço ecossistêmico de geração de água doce do Brasil representa para o planeta inteiro. O Brasil hoje merece a maior recompensa por esses serviços – não apenas pelos US$ 250 bilhões da economia agrícola da Bacia do Prata, mas por gerar o ciclo de chuvas que abastece tantas partes do mundo. Vou aplaudir da plateia no dia em que o presidente disser: “Quero que meu país seja pago por esse serviço”.

Desde a pandemia, o mundo, incluindo as empresas, parecia mais preocupado com os recursos naturais. Isso mudou, principalmente neste ano. Como vê o cenário global?

A pandemia foi muito trágica e milhões de pessoas morreram, mas aprendemos uma lição: ficamos mais conscientes do poder da natureza e do poder destrutivo que ela pode ter quando algo dá errado. Mas parece que isso foi ofuscado pela política do presidente Trump. Precisamos saber lidar com esse tipo de política. Precisamos continuar na nossa direção, fazendo o que estamos fazendo, porque, apesar de a economia dos EUA ser muito grande, existe o resto do mundo. Nós também precisamos sobreviver.

Mas as empresas estão se afastando do modelo ‘Corporação 2020′ (título de livro de Sukhdev sobre modelo corporativo em que empresas aumentam o bem-estar humano e diminuem os riscos ambientais)?

As empresas apenas começaram a adotar o modelo de 2020. Algumas já vêm fazendo isso há muito tempo, como a Patagonia...

As empresas citadas por especialistas como modelos são poucas e sempre as mesmas…

Sim. Quando publiquei Corporation 2020, conversei com muitas pessoas sobre o caminho que as empresas deveriam seguir. Elas concordaram com a direção que os negócios deveriam tomar para serem sustentáveis. Então fiz a conta de quanto dava o faturamento dessas companhias. Esse universo representava de 4% a 5% da economia global. Minha esperança era que esse universo aumentasse. Ele até cresceu um pouco, mas agora a pressão está na direção contrária. Isso é preocupante. O que as empresas têm me dito é: “Não vamos desistir do nosso caminho. Estamos fazendo o que é certo, mas não estamos falando sobre isso”. Existe um medo de que, se falarem sobre as boas ações, possa haver reações negativas ou até penalidades.

O sr. já disse que as duas últimas COPs foram dirigidas por CEOs de empresas de petróleo e gás. Qual a expectativa para a COP agora?

O que espero é que ela amplie a conscientização global sobre o fato de que a mudança climática não é apenas sobre energia. É sobre desmatamento também.

O Brasil também explora petróleo. Como vê o apoio do presidente Lula à exploração na foz do Rio Amazonas?

O Brasil é um produtor de petróleo, mas há muito mais no Brasil do que apenas isso. Acho que o presidente Lula é uma pessoa muito complexa. Ele está apoiando a floresta, por exemplo, ao vetar partes da nova lei de licenciamento ambiental, que basicamente abria as portas do inferno. Lula precisa ser visto em sua totalidade. O que ele quer, estou supondo como um observador externo, é uma economia mais equilibrada e inclusiva. Ele reconhece que o petróleo, pelo menos por enquanto, vai continuar fazendo parte da solução energética. Então, provavelmente quer proteger a si mesmo e o país contra o risco de choques do petróleo.

Cientistas apontam que, se o mundo quer deter o aquecimento global, a exploração de novos campos deveria parar agora…

Qual é o custo social e ambiental da exploração de petróleo? De certa forma, no Oriente Médio, há menor custo ambiental, porque é uma região desértica e já existe infraestrutura com poços perfurados. Onde está a maior necessidade do ponto de vista social? Argumentaria que um país em desenvolvimento tem mais necessidade do que um país desenvolvido, que tem recursos para usar outras formas de energia. Portanto, acho que o mundo desenvolvido deveria ter menos liberdade para explorar formas de energia que são claramente danosas, como o petróleo e o gás.

A Amazônia é uma das três florestas do mundo responsáveis por gerar chuva para regiões produtoras de alimentos. Isso significa que mantê-la em pé garante a produção de US$ 250 bilhões por ano em alimentos. As populações que têm garantido a preservação da floresta, portanto, precisam receber por isso, de acordo com o indiano Pavan Sukhdev, fundador da consultoria Gist Impact.

“O Brasil hoje merece a maior recompensa pelos serviços ecossistêmicos de geração de água doce. Não apenas por gerar chuvas que garantem uma produção de alimentos equivalente a US$ 250 bilhões, mas por gerar o ciclo de chuvas que abastece tantas partes do mundo”, diz.

Formado em Física por Oxford, Sukhdev atuou como diretor geral de mercados globais do Deutsche Bank antes de migrar para a área de sustentabilidade corporativa. Foi presidente executivo e presidente do conselho da World Wide Fund for Nature (WWF International), ONG que atua na investigação e na recuperação ambiental, e chefe da iniciativa de economia verde do braço da ONU para o meio ambiente (Pnuma).

Sukhdev: 'Agora o valor da floresta não é mais gratuito; é necessário cobrar dos que se beneficiam dela' Foto: Taba Benedicto/ Estadão

Hoje consultor de multinacionais na área de sustentabilidade, Sukhdev afirma que as empresas que já adotavam práticas ESG (de governança ambiental, social e corporativa) seguem com suas estratégias, apesar dos ataques do presidente americano, Donald Trump, a essas medidas. Diz, porém, que elas estão fazendo isso de forma silenciosa. “Existe um medo de que, se falarem sobre as boas ações, possa haver reações negativas ou até penalidades.”

Confira, a seguir, trechos da entrevista:

Há anos, o sr. vem propondo que se dê um valor ao capital natural. Como isso funcionaria? Países como o Brasil seriam pagos por isso?

A natureza oferece muito à sociedade: captura carbono, poliniza, garante o fluxo de nutrientes e de água doce, estabiliza o clima. Oferece também a geração de chuvas. Todos os dias, 20 bilhões de toneladas de água evaporam da Floresta Amazônica. Essa evaporação, quando encontra os ventos alísios que vêm do Atlântico, forma nuvens. As nuvens seguem até os Andes, onde provocam a chuva que cai em Mato Grosso, Brasil, Uruguai, Paraguai, Argentina – e toda essa região da Bacia do Prata é, basicamente, um dos maiores celeiros do planeta. A economia agrícola gerada por essa chuva vale US$ 250 bilhões por ano. Quanto esses países pagam ao Amazonas e aos outros Estados onde está localizada a floresta? Nada. Não estamos recompensando os guardiões da floresta que tornam isso possível. Espero que essa conversa ganhe força e se torne uma questão discutida por governos, porque isso diz respeito às nações.

Isso não geraria uma economia mais excludente, dado que muitos países não teriam recursos para pagar por esses serviços?

O ponto central é valorizar os serviços que a natureza presta à economia e à sociedade — e lembrar que dois terços da economia são do setor privado. É claro que as corporações estão lucrando. Elas estão recebendo recursos sem pagar por eles, porque a natureza não emite faturas.

Isso não seria privatizar a natureza?

Não privatizaríamos a natureza. O que faríamos seria reconhecer o valor desses serviços ecossistêmicos. A natureza é um bem público. Não pode ser privatizada. Pense bem: suponha que alguém plante uma floresta na Mata Atlântica, e essa floresta gere evaporação e nuvens. A chuva não cairá necessariamente sobre essa área. Podemos valorizar esse serviço ecossistêmico, porque, se destruirmos toda a Mata Atlântica ou toda a Amazônia, os serviços que essas florestas prestam deixam de existir.

Nesse exemplo da chuva, quem receberia por isso?

Se estamos falando da Amazônia, seria o Estado do Amazonas. E o Amazonas precisaria garantir que fossem recompensados aqueles que estão assegurando a sobrevivência da floresta. Ao mesmo tempo, seria necessário cobrar daqueles que utilizam a floresta, porque agora o valor da floresta não é mais gratuito.

'Mundo desenvolvido deveria ter menos liberdade para explorar formas de energia claramente danosas, como petróleo e gás' Foto: Taba Benedicto/ Estadão

Se o capital natural fosse valorizado, quais seriam as oportunidades para o Brasil?

Seriam imensas. Se olharmos para a maior parte da produção agrícola nos trópicos, existem três grandes “fábricas de chuva” responsáveis por essa produção: a Amazônia, a floresta tropical da África subsaariana e o arquipélago indonésio. Portanto, são os países que protegem essas florestas tropicais, que preservam a capacidade de geração de chuva dessas regiões, que merecem o crédito.

Pela sua proposta, quais outros recursos naturais teriam um valor?

A evaporação de água e o ciclo de chuvas são os maiores serviços ecossistêmicos. Mas existem outros, como a polinização. Os serviços de polinização prestados por insetos são extremamente importantes, pois influenciam a produção de frutas. Existem estudos que mostram que o número de polinizadores caiu 70%. Há um problema que precisa ser enfrentado. Estamos falando da nossa comida. E os preços dos alimentos vão subir se não cuidarmos disso.

Mas, se tivermos de pagar por isso, os preços também vão subir.

Menos. A escassez que ocorrerá como resultado da perda desses serviços ecossistêmicos nos afetará de forma mais grave do que o pequeno valor que precisamos pagar para manter os serviços funcionando.

O Brasil tem energia renovável e natureza, o que favorece para que seja um ator relevante em uma economia global “verde”. O que o País precisa fazer para se transformar em um líder neste novo mundo?

Na minha opinião, é papel e responsabilidade do governo brasileiro transformar isso (cobrança por serviços naturais) em um grande tema. Na próxima COP, não deveria se falar apenas da captura de carbono das florestas, mas também dos serviços de geração de água prestados por elas. O presidente Lula e sua equipe deveriam falar sobre o valor que o serviço ecossistêmico de geração de água doce do Brasil representa para o planeta inteiro. O Brasil hoje merece a maior recompensa por esses serviços – não apenas pelos US$ 250 bilhões da economia agrícola da Bacia do Prata, mas por gerar o ciclo de chuvas que abastece tantas partes do mundo. Vou aplaudir da plateia no dia em que o presidente disser: “Quero que meu país seja pago por esse serviço”.

Desde a pandemia, o mundo, incluindo as empresas, parecia mais preocupado com os recursos naturais. Isso mudou, principalmente neste ano. Como vê o cenário global?

A pandemia foi muito trágica e milhões de pessoas morreram, mas aprendemos uma lição: ficamos mais conscientes do poder da natureza e do poder destrutivo que ela pode ter quando algo dá errado. Mas parece que isso foi ofuscado pela política do presidente Trump. Precisamos saber lidar com esse tipo de política. Precisamos continuar na nossa direção, fazendo o que estamos fazendo, porque, apesar de a economia dos EUA ser muito grande, existe o resto do mundo. Nós também precisamos sobreviver.

Mas as empresas estão se afastando do modelo ‘Corporação 2020′ (título de livro de Sukhdev sobre modelo corporativo em que empresas aumentam o bem-estar humano e diminuem os riscos ambientais)?

As empresas apenas começaram a adotar o modelo de 2020. Algumas já vêm fazendo isso há muito tempo, como a Patagonia...

As empresas citadas por especialistas como modelos são poucas e sempre as mesmas…

Sim. Quando publiquei Corporation 2020, conversei com muitas pessoas sobre o caminho que as empresas deveriam seguir. Elas concordaram com a direção que os negócios deveriam tomar para serem sustentáveis. Então fiz a conta de quanto dava o faturamento dessas companhias. Esse universo representava de 4% a 5% da economia global. Minha esperança era que esse universo aumentasse. Ele até cresceu um pouco, mas agora a pressão está na direção contrária. Isso é preocupante. O que as empresas têm me dito é: “Não vamos desistir do nosso caminho. Estamos fazendo o que é certo, mas não estamos falando sobre isso”. Existe um medo de que, se falarem sobre as boas ações, possa haver reações negativas ou até penalidades.

O sr. já disse que as duas últimas COPs foram dirigidas por CEOs de empresas de petróleo e gás. Qual a expectativa para a COP agora?

O que espero é que ela amplie a conscientização global sobre o fato de que a mudança climática não é apenas sobre energia. É sobre desmatamento também.

O Brasil também explora petróleo. Como vê o apoio do presidente Lula à exploração na foz do Rio Amazonas?

O Brasil é um produtor de petróleo, mas há muito mais no Brasil do que apenas isso. Acho que o presidente Lula é uma pessoa muito complexa. Ele está apoiando a floresta, por exemplo, ao vetar partes da nova lei de licenciamento ambiental, que basicamente abria as portas do inferno. Lula precisa ser visto em sua totalidade. O que ele quer, estou supondo como um observador externo, é uma economia mais equilibrada e inclusiva. Ele reconhece que o petróleo, pelo menos por enquanto, vai continuar fazendo parte da solução energética. Então, provavelmente quer proteger a si mesmo e o país contra o risco de choques do petróleo.

Cientistas apontam que, se o mundo quer deter o aquecimento global, a exploração de novos campos deveria parar agora…

Qual é o custo social e ambiental da exploração de petróleo? De certa forma, no Oriente Médio, há menor custo ambiental, porque é uma região desértica e já existe infraestrutura com poços perfurados. Onde está a maior necessidade do ponto de vista social? Argumentaria que um país em desenvolvimento tem mais necessidade do que um país desenvolvido, que tem recursos para usar outras formas de energia. Portanto, acho que o mundo desenvolvido deveria ter menos liberdade para explorar formas de energia que são claramente danosas, como o petróleo e o gás.

A Amazônia é uma das três florestas do mundo responsáveis por gerar chuva para regiões produtoras de alimentos. Isso significa que mantê-la em pé garante a produção de US$ 250 bilhões por ano em alimentos. As populações que têm garantido a preservação da floresta, portanto, precisam receber por isso, de acordo com o indiano Pavan Sukhdev, fundador da consultoria Gist Impact.

“O Brasil hoje merece a maior recompensa pelos serviços ecossistêmicos de geração de água doce. Não apenas por gerar chuvas que garantem uma produção de alimentos equivalente a US$ 250 bilhões, mas por gerar o ciclo de chuvas que abastece tantas partes do mundo”, diz.

Formado em Física por Oxford, Sukhdev atuou como diretor geral de mercados globais do Deutsche Bank antes de migrar para a área de sustentabilidade corporativa. Foi presidente executivo e presidente do conselho da World Wide Fund for Nature (WWF International), ONG que atua na investigação e na recuperação ambiental, e chefe da iniciativa de economia verde do braço da ONU para o meio ambiente (Pnuma).

Sukhdev: 'Agora o valor da floresta não é mais gratuito; é necessário cobrar dos que se beneficiam dela' Foto: Taba Benedicto/ Estadão

Hoje consultor de multinacionais na área de sustentabilidade, Sukhdev afirma que as empresas que já adotavam práticas ESG (de governança ambiental, social e corporativa) seguem com suas estratégias, apesar dos ataques do presidente americano, Donald Trump, a essas medidas. Diz, porém, que elas estão fazendo isso de forma silenciosa. “Existe um medo de que, se falarem sobre as boas ações, possa haver reações negativas ou até penalidades.”

Confira, a seguir, trechos da entrevista:

Há anos, o sr. vem propondo que se dê um valor ao capital natural. Como isso funcionaria? Países como o Brasil seriam pagos por isso?

A natureza oferece muito à sociedade: captura carbono, poliniza, garante o fluxo de nutrientes e de água doce, estabiliza o clima. Oferece também a geração de chuvas. Todos os dias, 20 bilhões de toneladas de água evaporam da Floresta Amazônica. Essa evaporação, quando encontra os ventos alísios que vêm do Atlântico, forma nuvens. As nuvens seguem até os Andes, onde provocam a chuva que cai em Mato Grosso, Brasil, Uruguai, Paraguai, Argentina – e toda essa região da Bacia do Prata é, basicamente, um dos maiores celeiros do planeta. A economia agrícola gerada por essa chuva vale US$ 250 bilhões por ano. Quanto esses países pagam ao Amazonas e aos outros Estados onde está localizada a floresta? Nada. Não estamos recompensando os guardiões da floresta que tornam isso possível. Espero que essa conversa ganhe força e se torne uma questão discutida por governos, porque isso diz respeito às nações.

Isso não geraria uma economia mais excludente, dado que muitos países não teriam recursos para pagar por esses serviços?

O ponto central é valorizar os serviços que a natureza presta à economia e à sociedade — e lembrar que dois terços da economia são do setor privado. É claro que as corporações estão lucrando. Elas estão recebendo recursos sem pagar por eles, porque a natureza não emite faturas.

Isso não seria privatizar a natureza?

Não privatizaríamos a natureza. O que faríamos seria reconhecer o valor desses serviços ecossistêmicos. A natureza é um bem público. Não pode ser privatizada. Pense bem: suponha que alguém plante uma floresta na Mata Atlântica, e essa floresta gere evaporação e nuvens. A chuva não cairá necessariamente sobre essa área. Podemos valorizar esse serviço ecossistêmico, porque, se destruirmos toda a Mata Atlântica ou toda a Amazônia, os serviços que essas florestas prestam deixam de existir.

Nesse exemplo da chuva, quem receberia por isso?

Se estamos falando da Amazônia, seria o Estado do Amazonas. E o Amazonas precisaria garantir que fossem recompensados aqueles que estão assegurando a sobrevivência da floresta. Ao mesmo tempo, seria necessário cobrar daqueles que utilizam a floresta, porque agora o valor da floresta não é mais gratuito.

'Mundo desenvolvido deveria ter menos liberdade para explorar formas de energia claramente danosas, como petróleo e gás' Foto: Taba Benedicto/ Estadão

Se o capital natural fosse valorizado, quais seriam as oportunidades para o Brasil?

Seriam imensas. Se olharmos para a maior parte da produção agrícola nos trópicos, existem três grandes “fábricas de chuva” responsáveis por essa produção: a Amazônia, a floresta tropical da África subsaariana e o arquipélago indonésio. Portanto, são os países que protegem essas florestas tropicais, que preservam a capacidade de geração de chuva dessas regiões, que merecem o crédito.

Pela sua proposta, quais outros recursos naturais teriam um valor?

A evaporação de água e o ciclo de chuvas são os maiores serviços ecossistêmicos. Mas existem outros, como a polinização. Os serviços de polinização prestados por insetos são extremamente importantes, pois influenciam a produção de frutas. Existem estudos que mostram que o número de polinizadores caiu 70%. Há um problema que precisa ser enfrentado. Estamos falando da nossa comida. E os preços dos alimentos vão subir se não cuidarmos disso.

Mas, se tivermos de pagar por isso, os preços também vão subir.

Menos. A escassez que ocorrerá como resultado da perda desses serviços ecossistêmicos nos afetará de forma mais grave do que o pequeno valor que precisamos pagar para manter os serviços funcionando.

O Brasil tem energia renovável e natureza, o que favorece para que seja um ator relevante em uma economia global “verde”. O que o País precisa fazer para se transformar em um líder neste novo mundo?

Na minha opinião, é papel e responsabilidade do governo brasileiro transformar isso (cobrança por serviços naturais) em um grande tema. Na próxima COP, não deveria se falar apenas da captura de carbono das florestas, mas também dos serviços de geração de água prestados por elas. O presidente Lula e sua equipe deveriam falar sobre o valor que o serviço ecossistêmico de geração de água doce do Brasil representa para o planeta inteiro. O Brasil hoje merece a maior recompensa por esses serviços – não apenas pelos US$ 250 bilhões da economia agrícola da Bacia do Prata, mas por gerar o ciclo de chuvas que abastece tantas partes do mundo. Vou aplaudir da plateia no dia em que o presidente disser: “Quero que meu país seja pago por esse serviço”.

Desde a pandemia, o mundo, incluindo as empresas, parecia mais preocupado com os recursos naturais. Isso mudou, principalmente neste ano. Como vê o cenário global?

A pandemia foi muito trágica e milhões de pessoas morreram, mas aprendemos uma lição: ficamos mais conscientes do poder da natureza e do poder destrutivo que ela pode ter quando algo dá errado. Mas parece que isso foi ofuscado pela política do presidente Trump. Precisamos saber lidar com esse tipo de política. Precisamos continuar na nossa direção, fazendo o que estamos fazendo, porque, apesar de a economia dos EUA ser muito grande, existe o resto do mundo. Nós também precisamos sobreviver.

Mas as empresas estão se afastando do modelo ‘Corporação 2020′ (título de livro de Sukhdev sobre modelo corporativo em que empresas aumentam o bem-estar humano e diminuem os riscos ambientais)?

As empresas apenas começaram a adotar o modelo de 2020. Algumas já vêm fazendo isso há muito tempo, como a Patagonia...

As empresas citadas por especialistas como modelos são poucas e sempre as mesmas…

Sim. Quando publiquei Corporation 2020, conversei com muitas pessoas sobre o caminho que as empresas deveriam seguir. Elas concordaram com a direção que os negócios deveriam tomar para serem sustentáveis. Então fiz a conta de quanto dava o faturamento dessas companhias. Esse universo representava de 4% a 5% da economia global. Minha esperança era que esse universo aumentasse. Ele até cresceu um pouco, mas agora a pressão está na direção contrária. Isso é preocupante. O que as empresas têm me dito é: “Não vamos desistir do nosso caminho. Estamos fazendo o que é certo, mas não estamos falando sobre isso”. Existe um medo de que, se falarem sobre as boas ações, possa haver reações negativas ou até penalidades.

O sr. já disse que as duas últimas COPs foram dirigidas por CEOs de empresas de petróleo e gás. Qual a expectativa para a COP agora?

O que espero é que ela amplie a conscientização global sobre o fato de que a mudança climática não é apenas sobre energia. É sobre desmatamento também.

O Brasil também explora petróleo. Como vê o apoio do presidente Lula à exploração na foz do Rio Amazonas?

O Brasil é um produtor de petróleo, mas há muito mais no Brasil do que apenas isso. Acho que o presidente Lula é uma pessoa muito complexa. Ele está apoiando a floresta, por exemplo, ao vetar partes da nova lei de licenciamento ambiental, que basicamente abria as portas do inferno. Lula precisa ser visto em sua totalidade. O que ele quer, estou supondo como um observador externo, é uma economia mais equilibrada e inclusiva. Ele reconhece que o petróleo, pelo menos por enquanto, vai continuar fazendo parte da solução energética. Então, provavelmente quer proteger a si mesmo e o país contra o risco de choques do petróleo.

Cientistas apontam que, se o mundo quer deter o aquecimento global, a exploração de novos campos deveria parar agora…

Qual é o custo social e ambiental da exploração de petróleo? De certa forma, no Oriente Médio, há menor custo ambiental, porque é uma região desértica e já existe infraestrutura com poços perfurados. Onde está a maior necessidade do ponto de vista social? Argumentaria que um país em desenvolvimento tem mais necessidade do que um país desenvolvido, que tem recursos para usar outras formas de energia. Portanto, acho que o mundo desenvolvido deveria ter menos liberdade para explorar formas de energia que são claramente danosas, como o petróleo e o gás.

Entrevista por Luciana Dyniewicz

Repórter de Economia & Negócios. Formada em jornalismo pela UFSC e em ciências econômicas pela PUC-SP. Foi correspondente em Buenos Aires. É vencedora dos prêmios Citi Journalistic Excellence, Boeing Abear de Jornalismo e CNT de Jornalismo na categoria meio ambiente. Bolsista do World Press Institute (WPI) em 2024.

Atualizamos nossa política de cookies

Ao utilizar nossos serviços, você aceita a política de monitoramento de cookies.