Sueco ‘previu’ aquecimento global, mas achou que seria benéfico para humanidade; conheça a história


Svante Arrhenius, ganhador do Nobel de Química, fundou as bases da ciência do clima; veja como o ‘Estadão’ tratou do tema sustentabilidade ao longo da história

Por Eurípedes Alcântara

A consciência ecológica nasceu com esta indagação. “O que é vida?”. Essa pergunta simples, mas de profundidade insondável, foi o pano de fundo de um artigo do Estadão em 13 de abril de 1911 — há 114 anos. A resposta tinha tom poético, quase místico: “Enquanto a ciência medita e pesquisa, a vida existe e prossegue, fermenta, cresce, turbilhona, age, reage, pulula e se transforma por toda parte, desde os infinitamente pequenos, revelados pela objetividade dos grandes microscópios, até as formidáveis grandezas telescópicas do infinito”.

Mas seria justamente a ciência — aquela que “meditava e pesquisava” — que traria uma revelação profética, não apenas sobre a vida mas sobre sua viabilidade na Terra.

Humanidade levaria um século para perceber o terror embutido na descoberta de Svante Arrhenius (foto) Foto: DOMINIO PUBLICO
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O texto cita o cientista sueco Svante Arrhenius (1859-1927), ganhador do Prêmio Nobel de Química de 1903, autor de um estudo que chegou à conclusão: “Se a concentração de CO2 na atmosfera dobrar, a temperatura média global aumentará entre 4ºC e 6ºC”. Treinado em Física e Matemática, Arrhenius acertou. Os valores encontrados por ele em seus cálculos são surpreendentemente próximos das estimativas atuais, que apontam aumentos da temperatura global entre 3ºC e 7ºC.

O Estadão descreveu Arrhenius como “sábio”. Nem o jornal nem ele próprio sabiam, mas o sueco havia estabelecido um dos conceitos fundadores da ciência do clima. Mais tarde, a correlação entre aumento da concentração de CO2 e as altas temperaturas seria conhecida como “efeito estufa”.

Como tantos pioneiros, entretanto, Arrhenius não interpretou corretamente sua descoberta. Para ele, o aquecimento seria benéfico, propiciando o surgimento de uma agricultura mais exuberante e um clima ameno nas nações nórdicas. Que ironia trágica. Svante Arrhenius nos havia dado a ciência, mas a humanidade levaria um século para perceber o terror embutido na sua descoberta.

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Associado às atividades humanas, como o desmatamento, o aquecimento está desestabilizando o clima da Terra Foto: Daniel Teixeira/Estadão

O aquecimento hoje assusta porque, associado às atividades humanas, está desestabilizando o clima da Terra, com consequências imprevisíveis e potencialmente catastróficas para a economia e a segurança em escala global. Essa lacuna entre o cálculo correto e o significado equivocado define bem o longo caminho do aprendizado ambiental da humanidade.

Desde a conclusão otimista de Arrhenius até a ansiedade climática de hoje a jornada desenha um arco de consciência onde a imagem da Terra como um sólido, previsível e harmônico lar cósmico se transforma na imagem vulnerável e frágil do “pálido pontinho azul” descrito por Carl Sagan (1934-1996).

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Se a concentração de CO2 na atmosfera dobrar, a temperatura média global aumentará entre 4°C e 6°C

Svante Arrhenius (1859-1927), cientista sueco

Neste artigo exploraremos como chegamos a essa compreensão, como as respostas à pergunta “O que é vida?” foram se consolidando ao longo de mais de um século e como o Estadão cobriu essa jornada.

Abordagem utilitarista

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O Estadão sempre defendeu as iniciativas de melhoria da qualidade do ar, da água e lutou pela salubridade das áreas urbanas. Aplaudiu presidentes por terem criado parques e estabelecido reservas naturais. No entanto, com a incipiente pesquisa ambiental confinada entre muros acadêmicos das universidades de países europeus, o jornal, a exemplo de seus congêneres no mundo, demorou a acompanhar o crescimento do pensamento ambientalista.

Por muito tempo, a imprensa refletiu a visão dominante da natureza como um conjunto de forças a serem subjugadas e colocadas a serviço do progresso. Como na frase brutal de Simon Bolívar (1783-1830), que no século 19 liderou movimentos de independência na Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia: “Se a natureza for contra nós, seremos contra a natureza”.

Gradualmente, a abordagem utilitarista foi cedendo espaço a uma compreensão mais ampla.

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“Tem-se falado muito de ecologia no Brasil, mas o termo continua mergulhado numa certa bruma”, constatou o Estadão em 1939, quando a palavra ecologia apareceu pela primeira vez nas páginas do jornal. O artigo se referia especificamente à “ecologia humana”, definida como “a distribuição dos aspectos especiais das relações de simbiose dos seres e instituições”.

A linguagem estava evoluindo para capturar novos conceitos. O termo “biosfera”, hoje de uso corriqueiro, foi criado em 1875 pelo geólogo austríaco Eduard Suess (1831-1914). Ele o cunhou com o objetivo específico de descrever regiões geográficas onde prosperavam determinadas formas de vida.

Palavra 'ecologia' aparece pela primeira vez no Estadão em 1939; na foto, o Pantanal durante temporada de queimada em 2020 Foto: Dida Sampaio/Estadão
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No Estadão, a palavra biosfera apareceu já em sua concepção ampla pela primeira vez na edição de 2 de junho de 1957. Era um artigo sobre a possibilidade de vida em Marte, antecipando o que viria a ser uma obsessão sem qualquer evidência material até hoje de que a vida poderia não ser um fenômeno exclusivamente terrestre.

Décadas depois, em 1990, o Estadão publicou um artigo de Mikhail Gorbachev (1931-2022), quando ainda era presidente da União Soviética, enaltecendo os feitos do ucraniano Vladimir Vernadsky (1863-1945). Foi ele quem delineou o conceito atual de biosfera, enxergando-a como a soma das interações dos seres vivos com o ambiente. Vernadsky reformulou a ideia do domínio do homem sobre a natureza, não mais subjugando-a, mas “numa esfera regulada pela razão e pelos princípios morais universais”.

Enquanto essas ideias fermentavam nas publicações científicas, a compreensão mais detalhada da malha que interconecta os seres vivos começava a conquistar um público maior.

Em 1927, o britânico Charles Elton (1900-1991) descreveu os primeiros nichos ecológicos, mapeou cadeias alimentares e descobriu o papel coletivo de espécies individuais nos sistemas de vida integrados — ou “ecossistemas”, termo criado em 1935 por seu conterrâneo Arthur Tansley (1871-1955). Desde então, os organismos passaram a ser estudados não mais como entes isolados, mas como partes interdependentes de complexos arranjos. A vida, descobrimos, não era uma coleção de indivíduos isolados, mas uma teia.

Sob a rubrica Ecologia, o Estadão trouxe aos leitores em 1974 a reflexão oportuna do pesquisador Dirceu Brasil Vieira, um dos pioneiros dos estudos hídricos no Brasil, explicando aos leitores o significado da palavra ecossistema, que aparecia pela primeira vez nas páginas do jornal. “Todos os seres vivos animais e vegetais; macro e microrganismos, constituem, juntamente com o meio ambiente onde vivem, uma comunidade biológica, onde a interdependência dos componentes é vital. O conjunto desses componentes físico (meio) e biológico (animal e vegetal) interdependentes constitui o que os ecologistas definem por ecossistema.”

Década a década, as respostas à pergunta “O que é vida?” feita pelo Estadão em 1911 ganhavam mais solidez com a popularização dos trabalhos de Tansley, Elton, Vernadsky, Suess e Arrhenius. Eles e outros cientistas trabalharam no nível macro, no mundo das coisas tangíveis ou mensuráveis. Graças a eles, a explicação do conceito biológico da interdependência aproximou-se da formulação poética “Nenhum homem é uma ilha”, do inglês John Donne (1572-1631).

Todos os seres vivos animais e vegetais; macro e microrganismos, constituem, juntamente com o meio ambiente onde vivem, uma comunidade biológica, onde a interdependência dos componentes é vital. O conjunto desses componentes constitui o que os ecologistas definem por ecossistema

Dirceu Brasil Vieira, pesquisador, em reportagem de 1974 do Estadão

Mas ainda faltava algo. Faltava um mergulho no mundo dos mistérios “infinitamente pequenos” mencionados no artigo de 1911.

Esse passo essencial foi dado no universo do interior das células, nos genes. Essas moléculas da vida foram explicadas pelo Estadão em abril de 1935 ao reproduzir a aula magna do professor André Dreyfus (1897-1952) na Universidade São Paulo (USP). Dreyfus definiu os genes como “partes dos cromossomos” que têm “a função de transmissão dos fatores hereditários”. O jornal registrava o momento em que a vida começava a ser compreendida em sua dimensão molecular, passo essencial no avanço do pensamento ecológico.

Schrödinger e a entropia

Seria necessário ir ainda mais fundo. Um dos descobridores da forma em dupla hélice do DNA, James Watson, em entrevista publicada pelo Estadão em fevereiro de 2003, relembra como despertou para o fato de que seria essencial para a biologia explorar o nível molecular e das partículas subatômicas. Watson citou uma obra do físico quântico alemão Erwin Schrödinger (1887-1961), cujo título é o mesmo da indagação que apareceu no artigo do Estadão de 1911: ‘What Is Life?’ (O que é Vida?). Schrödinger propôs que a origem e sustentação da vida estaria em uma “estrutura molecular estável” em um “cristal aperiódico que carrega informações codificadas”. Antecipou em dez anos a descoberta do DNA.

Schrödinger deu ainda outra contribuição essencial para o crescimento da consciência ecológica, trazendo para a biologia o conceito físico da entropia, lei natural segundo a qual os sistemas tendem para o caos. A vida é matéria organizada que venceu a entropia. Por isso os seres vivos são chamados de organismos.

A entropia levou a outra reflexão fundamental para o crescimento do pensamento ecológico, a “Espaçonave Terra”. O conceito tem vários pais. O mais influente foi o economista inglês Kenneth Boulding (1910-1993). Em um famoso ensaio em 1965, ele contrastou a “economia da nave espacial” com a “economia de caubói”. A economia de caubói, argumentou ele, baseava-se na suposição de que os recursos seriam infinitos, alertando que essa concepção levaria a humanidade a práticas insustentáveis, tendo como consequência a degradação ambiental e inviabilização da vida na Terra.

Em 1975, o Estadão se referiu à “nave espacial Terra” em artigo assinado pelo jornalista britânico John Gribbin. A Terra é mostrada como uma casca de noz de baixa entropia boiando em um oceano de alta entropia. Diz Gribbin: “A analogia é boa. Como uma nave espacial, temos apenas recursos limitados, e a preservação do ar que respiramos, da água que bebemos e dos alimentos que comemos depende do funcionamento eficiente de um sistema de reciclagem que pode ser drasticamente afetado pela poluição se as atividades humanas se descontrolarem”.

Uma imagem fixaria para sempre a percepção da fragilidade de nosso planeta. Em 1968, a foto “Earthrise” (alvorecer da Terra), tirada pela Apollo 8, mostrou a Terra surgindo sobre o horizonte lunar — uma esfera azul e branca flutuando na escuridão entrópica do espaço. “Viemos explorar a Lua, mas o que realmente descobrimos foi a Terra”, disse William Anders (1933-2024), o astronauta autor da foto.

Foto “Earthrise” (alvorecer da Terra), tirada pela Apollo 8: esfera azul e branca flutuando na escuridão entrópica do espaço Foto: Nasa/NYT

Com esse estoque de espetaculares avanços na definição da vida em pouco mais de meio século de pesquisas, o pensamento ambiental estava pronto para conquistar a opinião pública e entrar em ação.

Uma bióloga marinha norte-americana chamada Rachel Carson (1907-1964) daria o pontapé inicial na revolução popular reunida em torno do objetivo de “Salvar o Planeta”. Em 24 de outubro de 1962, o livro de Rachel Carson que inaugurou a consciência ecológica, “Silent Spring” (“Primavera Silenciosa”), apareceu com força no Suplemento Agrícola do Estadão.

Ela denunciava o uso indiscriminado do DDT, um praguicida que havia trazido enormes ganhos de produtividade no campo. Mas é um veneno que mata indiscriminadamente e se infiltra nos alimentos e podia ser detectado em concentrações tóxicas no leite materno, na batata e na água.

O artigo tratou o alerta de Rachel Carson com certa desconfiança, definindo muito do que viu como exageros e colocando fé na ideia de que o uso cuidadoso e controlado do DDT seria o bastante para evitar os efeitos mais perigosos que a autora apontava. Mas o alerta estava dado. O DDT seria proibido nos Estados Unidos em 1972, apenas dez anos após a publicação de “Silent Spring”. No Brasil, seu uso agrícola seria banido em 1985. A proibição total veio em 2009.

Os recursos da Espaçonave Terra são escassos. Sua exploração precisa ser sustentável e renovável. O papel de proclamar com dados essas verdades coube ao Clube de Roma com o relatório “The Limits to Growth” (“Os Limites do Crescimento”), de 1972.

Em 13 de agosto daquele ano, o Estadão dedicou uma página inteira a uma pergunta nascida na cabeça de muitos depois de ler o relatório do Clube de Roma: “A sociedade de consumo deve ser extinta?” O jornal reproduzia a conclusão sombria do relatório: “A maior forma de poluição que existe é o homem”. A Terra, afirmavam os sábios do Clube de Roma, não mais poderá atender às necessidades criadas por essa explosão demográfica.

'A sociedade de consumo deve ser extinta?', discutia o Estadão em artigo de 1972, após publicação do relatório do Clube de Roma Foto: Nilton Fukuda/Estadão - 28/11/2019

A pedido dos italianos, o MIT simulou cinco grandes variáveis globais até 2100: população, produção industrial, alimentos, recursos naturais e poluição. Se nenhuma providência fosse tomada, os colapsos sistêmicos seriam inevitáveis. As mudanças climáticas atuais são evidências empíricas de que as previsões feitas em 1972 não eram fruto de alarmismo.

A pergunta “O que é vida?” ganhou uma dimensão de urgência. Tomaríamos juízo antes da degradação tornar-se irreparável? A resposta começou a se delinear em 1987, quando o Relatório Brundtland cunhou o conceito de “desenvolvimento sustentável”. Em 19 de abril daquele ano, o Estadão registrou o momento histórico em que a primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland, apresentou ao mundo uma nova equação: desenvolver e preservar não eram opostos, mas partes complementares. Esse deveria ser e vem sendo o caminho.

O documento foi o reconhecimento oficial de que a pergunta “O que é vida?” não podia ser respondida apenas pela biologia ou pela ecologia — ela demandava uma visão integrada de como organizamos nossas sociedades. O Relatório Brundtland abriu caminho para a Eco-92 no Rio, as COPs do Clima, o Protocolo de Kyoto e o Acordo de Paris. Os entendimentos internacionais foram gradualmente sendo incorporados e até superados pela iniciativa privada. O ESG tornou-se parte dos processos corporativos.

Gro Harlem Brundtland, ex-primeira-ministra da Noruega, durante a Eco 92: desenvolver e preservar não são opostos Foto: Carlão Limeira/Estadão

As páginas do Estadão registraram essa jornada que vem da poesia mística de 1911, passa pelo alerta profético de Arrhenius, pela ciência rigorosa de Schrödinger, o ativismo transformador de Rachel Carson e os modelos computacionais do MIT até as imagens reveladoras do espaço, culminando nos processos de governança das empresas e nos acordos internacionais.

O conhecimento está dado. A consciência despertou. Resta saber se a humanidade será capaz de honrar o pacto ancestral contra o caos entrópico, preservando esse improvável arranjo biológico mantido pela generosidade de uma estrela, o Sol, que alimenta um pálido ponto azul suspenso no vazio infinito.

As páginas futuras do Estadão dirão se conseguimos.

A consciência ecológica nasceu com esta indagação. “O que é vida?”. Essa pergunta simples, mas de profundidade insondável, foi o pano de fundo de um artigo do Estadão em 13 de abril de 1911 — há 114 anos. A resposta tinha tom poético, quase místico: “Enquanto a ciência medita e pesquisa, a vida existe e prossegue, fermenta, cresce, turbilhona, age, reage, pulula e se transforma por toda parte, desde os infinitamente pequenos, revelados pela objetividade dos grandes microscópios, até as formidáveis grandezas telescópicas do infinito”.

Mas seria justamente a ciência — aquela que “meditava e pesquisava” — que traria uma revelação profética, não apenas sobre a vida mas sobre sua viabilidade na Terra.

Humanidade levaria um século para perceber o terror embutido na descoberta de Svante Arrhenius (foto) Foto: DOMINIO PUBLICO

O texto cita o cientista sueco Svante Arrhenius (1859-1927), ganhador do Prêmio Nobel de Química de 1903, autor de um estudo que chegou à conclusão: “Se a concentração de CO2 na atmosfera dobrar, a temperatura média global aumentará entre 4ºC e 6ºC”. Treinado em Física e Matemática, Arrhenius acertou. Os valores encontrados por ele em seus cálculos são surpreendentemente próximos das estimativas atuais, que apontam aumentos da temperatura global entre 3ºC e 7ºC.

O Estadão descreveu Arrhenius como “sábio”. Nem o jornal nem ele próprio sabiam, mas o sueco havia estabelecido um dos conceitos fundadores da ciência do clima. Mais tarde, a correlação entre aumento da concentração de CO2 e as altas temperaturas seria conhecida como “efeito estufa”.

Como tantos pioneiros, entretanto, Arrhenius não interpretou corretamente sua descoberta. Para ele, o aquecimento seria benéfico, propiciando o surgimento de uma agricultura mais exuberante e um clima ameno nas nações nórdicas. Que ironia trágica. Svante Arrhenius nos havia dado a ciência, mas a humanidade levaria um século para perceber o terror embutido na sua descoberta.

Associado às atividades humanas, como o desmatamento, o aquecimento está desestabilizando o clima da Terra Foto: Daniel Teixeira/Estadão

O aquecimento hoje assusta porque, associado às atividades humanas, está desestabilizando o clima da Terra, com consequências imprevisíveis e potencialmente catastróficas para a economia e a segurança em escala global. Essa lacuna entre o cálculo correto e o significado equivocado define bem o longo caminho do aprendizado ambiental da humanidade.

Desde a conclusão otimista de Arrhenius até a ansiedade climática de hoje a jornada desenha um arco de consciência onde a imagem da Terra como um sólido, previsível e harmônico lar cósmico se transforma na imagem vulnerável e frágil do “pálido pontinho azul” descrito por Carl Sagan (1934-1996).

Se a concentração de CO2 na atmosfera dobrar, a temperatura média global aumentará entre 4°C e 6°C

Svante Arrhenius (1859-1927), cientista sueco

Neste artigo exploraremos como chegamos a essa compreensão, como as respostas à pergunta “O que é vida?” foram se consolidando ao longo de mais de um século e como o Estadão cobriu essa jornada.

Abordagem utilitarista

O Estadão sempre defendeu as iniciativas de melhoria da qualidade do ar, da água e lutou pela salubridade das áreas urbanas. Aplaudiu presidentes por terem criado parques e estabelecido reservas naturais. No entanto, com a incipiente pesquisa ambiental confinada entre muros acadêmicos das universidades de países europeus, o jornal, a exemplo de seus congêneres no mundo, demorou a acompanhar o crescimento do pensamento ambientalista.

Por muito tempo, a imprensa refletiu a visão dominante da natureza como um conjunto de forças a serem subjugadas e colocadas a serviço do progresso. Como na frase brutal de Simon Bolívar (1783-1830), que no século 19 liderou movimentos de independência na Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia: “Se a natureza for contra nós, seremos contra a natureza”.

Gradualmente, a abordagem utilitarista foi cedendo espaço a uma compreensão mais ampla.

“Tem-se falado muito de ecologia no Brasil, mas o termo continua mergulhado numa certa bruma”, constatou o Estadão em 1939, quando a palavra ecologia apareceu pela primeira vez nas páginas do jornal. O artigo se referia especificamente à “ecologia humana”, definida como “a distribuição dos aspectos especiais das relações de simbiose dos seres e instituições”.

A linguagem estava evoluindo para capturar novos conceitos. O termo “biosfera”, hoje de uso corriqueiro, foi criado em 1875 pelo geólogo austríaco Eduard Suess (1831-1914). Ele o cunhou com o objetivo específico de descrever regiões geográficas onde prosperavam determinadas formas de vida.

Palavra 'ecologia' aparece pela primeira vez no Estadão em 1939; na foto, o Pantanal durante temporada de queimada em 2020 Foto: Dida Sampaio/Estadão

No Estadão, a palavra biosfera apareceu já em sua concepção ampla pela primeira vez na edição de 2 de junho de 1957. Era um artigo sobre a possibilidade de vida em Marte, antecipando o que viria a ser uma obsessão sem qualquer evidência material até hoje de que a vida poderia não ser um fenômeno exclusivamente terrestre.

Décadas depois, em 1990, o Estadão publicou um artigo de Mikhail Gorbachev (1931-2022), quando ainda era presidente da União Soviética, enaltecendo os feitos do ucraniano Vladimir Vernadsky (1863-1945). Foi ele quem delineou o conceito atual de biosfera, enxergando-a como a soma das interações dos seres vivos com o ambiente. Vernadsky reformulou a ideia do domínio do homem sobre a natureza, não mais subjugando-a, mas “numa esfera regulada pela razão e pelos princípios morais universais”.

Enquanto essas ideias fermentavam nas publicações científicas, a compreensão mais detalhada da malha que interconecta os seres vivos começava a conquistar um público maior.

Em 1927, o britânico Charles Elton (1900-1991) descreveu os primeiros nichos ecológicos, mapeou cadeias alimentares e descobriu o papel coletivo de espécies individuais nos sistemas de vida integrados — ou “ecossistemas”, termo criado em 1935 por seu conterrâneo Arthur Tansley (1871-1955). Desde então, os organismos passaram a ser estudados não mais como entes isolados, mas como partes interdependentes de complexos arranjos. A vida, descobrimos, não era uma coleção de indivíduos isolados, mas uma teia.

Sob a rubrica Ecologia, o Estadão trouxe aos leitores em 1974 a reflexão oportuna do pesquisador Dirceu Brasil Vieira, um dos pioneiros dos estudos hídricos no Brasil, explicando aos leitores o significado da palavra ecossistema, que aparecia pela primeira vez nas páginas do jornal. “Todos os seres vivos animais e vegetais; macro e microrganismos, constituem, juntamente com o meio ambiente onde vivem, uma comunidade biológica, onde a interdependência dos componentes é vital. O conjunto desses componentes físico (meio) e biológico (animal e vegetal) interdependentes constitui o que os ecologistas definem por ecossistema.”

Década a década, as respostas à pergunta “O que é vida?” feita pelo Estadão em 1911 ganhavam mais solidez com a popularização dos trabalhos de Tansley, Elton, Vernadsky, Suess e Arrhenius. Eles e outros cientistas trabalharam no nível macro, no mundo das coisas tangíveis ou mensuráveis. Graças a eles, a explicação do conceito biológico da interdependência aproximou-se da formulação poética “Nenhum homem é uma ilha”, do inglês John Donne (1572-1631).

Todos os seres vivos animais e vegetais; macro e microrganismos, constituem, juntamente com o meio ambiente onde vivem, uma comunidade biológica, onde a interdependência dos componentes é vital. O conjunto desses componentes constitui o que os ecologistas definem por ecossistema

Dirceu Brasil Vieira, pesquisador, em reportagem de 1974 do Estadão

Mas ainda faltava algo. Faltava um mergulho no mundo dos mistérios “infinitamente pequenos” mencionados no artigo de 1911.

Esse passo essencial foi dado no universo do interior das células, nos genes. Essas moléculas da vida foram explicadas pelo Estadão em abril de 1935 ao reproduzir a aula magna do professor André Dreyfus (1897-1952) na Universidade São Paulo (USP). Dreyfus definiu os genes como “partes dos cromossomos” que têm “a função de transmissão dos fatores hereditários”. O jornal registrava o momento em que a vida começava a ser compreendida em sua dimensão molecular, passo essencial no avanço do pensamento ecológico.

Schrödinger e a entropia

Seria necessário ir ainda mais fundo. Um dos descobridores da forma em dupla hélice do DNA, James Watson, em entrevista publicada pelo Estadão em fevereiro de 2003, relembra como despertou para o fato de que seria essencial para a biologia explorar o nível molecular e das partículas subatômicas. Watson citou uma obra do físico quântico alemão Erwin Schrödinger (1887-1961), cujo título é o mesmo da indagação que apareceu no artigo do Estadão de 1911: ‘What Is Life?’ (O que é Vida?). Schrödinger propôs que a origem e sustentação da vida estaria em uma “estrutura molecular estável” em um “cristal aperiódico que carrega informações codificadas”. Antecipou em dez anos a descoberta do DNA.

Schrödinger deu ainda outra contribuição essencial para o crescimento da consciência ecológica, trazendo para a biologia o conceito físico da entropia, lei natural segundo a qual os sistemas tendem para o caos. A vida é matéria organizada que venceu a entropia. Por isso os seres vivos são chamados de organismos.

A entropia levou a outra reflexão fundamental para o crescimento do pensamento ecológico, a “Espaçonave Terra”. O conceito tem vários pais. O mais influente foi o economista inglês Kenneth Boulding (1910-1993). Em um famoso ensaio em 1965, ele contrastou a “economia da nave espacial” com a “economia de caubói”. A economia de caubói, argumentou ele, baseava-se na suposição de que os recursos seriam infinitos, alertando que essa concepção levaria a humanidade a práticas insustentáveis, tendo como consequência a degradação ambiental e inviabilização da vida na Terra.

Em 1975, o Estadão se referiu à “nave espacial Terra” em artigo assinado pelo jornalista britânico John Gribbin. A Terra é mostrada como uma casca de noz de baixa entropia boiando em um oceano de alta entropia. Diz Gribbin: “A analogia é boa. Como uma nave espacial, temos apenas recursos limitados, e a preservação do ar que respiramos, da água que bebemos e dos alimentos que comemos depende do funcionamento eficiente de um sistema de reciclagem que pode ser drasticamente afetado pela poluição se as atividades humanas se descontrolarem”.

Uma imagem fixaria para sempre a percepção da fragilidade de nosso planeta. Em 1968, a foto “Earthrise” (alvorecer da Terra), tirada pela Apollo 8, mostrou a Terra surgindo sobre o horizonte lunar — uma esfera azul e branca flutuando na escuridão entrópica do espaço. “Viemos explorar a Lua, mas o que realmente descobrimos foi a Terra”, disse William Anders (1933-2024), o astronauta autor da foto.

Foto “Earthrise” (alvorecer da Terra), tirada pela Apollo 8: esfera azul e branca flutuando na escuridão entrópica do espaço Foto: Nasa/NYT

Com esse estoque de espetaculares avanços na definição da vida em pouco mais de meio século de pesquisas, o pensamento ambiental estava pronto para conquistar a opinião pública e entrar em ação.

Uma bióloga marinha norte-americana chamada Rachel Carson (1907-1964) daria o pontapé inicial na revolução popular reunida em torno do objetivo de “Salvar o Planeta”. Em 24 de outubro de 1962, o livro de Rachel Carson que inaugurou a consciência ecológica, “Silent Spring” (“Primavera Silenciosa”), apareceu com força no Suplemento Agrícola do Estadão.

Ela denunciava o uso indiscriminado do DDT, um praguicida que havia trazido enormes ganhos de produtividade no campo. Mas é um veneno que mata indiscriminadamente e se infiltra nos alimentos e podia ser detectado em concentrações tóxicas no leite materno, na batata e na água.

O artigo tratou o alerta de Rachel Carson com certa desconfiança, definindo muito do que viu como exageros e colocando fé na ideia de que o uso cuidadoso e controlado do DDT seria o bastante para evitar os efeitos mais perigosos que a autora apontava. Mas o alerta estava dado. O DDT seria proibido nos Estados Unidos em 1972, apenas dez anos após a publicação de “Silent Spring”. No Brasil, seu uso agrícola seria banido em 1985. A proibição total veio em 2009.

Os recursos da Espaçonave Terra são escassos. Sua exploração precisa ser sustentável e renovável. O papel de proclamar com dados essas verdades coube ao Clube de Roma com o relatório “The Limits to Growth” (“Os Limites do Crescimento”), de 1972.

Em 13 de agosto daquele ano, o Estadão dedicou uma página inteira a uma pergunta nascida na cabeça de muitos depois de ler o relatório do Clube de Roma: “A sociedade de consumo deve ser extinta?” O jornal reproduzia a conclusão sombria do relatório: “A maior forma de poluição que existe é o homem”. A Terra, afirmavam os sábios do Clube de Roma, não mais poderá atender às necessidades criadas por essa explosão demográfica.

'A sociedade de consumo deve ser extinta?', discutia o Estadão em artigo de 1972, após publicação do relatório do Clube de Roma Foto: Nilton Fukuda/Estadão - 28/11/2019

A pedido dos italianos, o MIT simulou cinco grandes variáveis globais até 2100: população, produção industrial, alimentos, recursos naturais e poluição. Se nenhuma providência fosse tomada, os colapsos sistêmicos seriam inevitáveis. As mudanças climáticas atuais são evidências empíricas de que as previsões feitas em 1972 não eram fruto de alarmismo.

A pergunta “O que é vida?” ganhou uma dimensão de urgência. Tomaríamos juízo antes da degradação tornar-se irreparável? A resposta começou a se delinear em 1987, quando o Relatório Brundtland cunhou o conceito de “desenvolvimento sustentável”. Em 19 de abril daquele ano, o Estadão registrou o momento histórico em que a primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland, apresentou ao mundo uma nova equação: desenvolver e preservar não eram opostos, mas partes complementares. Esse deveria ser e vem sendo o caminho.

O documento foi o reconhecimento oficial de que a pergunta “O que é vida?” não podia ser respondida apenas pela biologia ou pela ecologia — ela demandava uma visão integrada de como organizamos nossas sociedades. O Relatório Brundtland abriu caminho para a Eco-92 no Rio, as COPs do Clima, o Protocolo de Kyoto e o Acordo de Paris. Os entendimentos internacionais foram gradualmente sendo incorporados e até superados pela iniciativa privada. O ESG tornou-se parte dos processos corporativos.

Gro Harlem Brundtland, ex-primeira-ministra da Noruega, durante a Eco 92: desenvolver e preservar não são opostos Foto: Carlão Limeira/Estadão

As páginas do Estadão registraram essa jornada que vem da poesia mística de 1911, passa pelo alerta profético de Arrhenius, pela ciência rigorosa de Schrödinger, o ativismo transformador de Rachel Carson e os modelos computacionais do MIT até as imagens reveladoras do espaço, culminando nos processos de governança das empresas e nos acordos internacionais.

O conhecimento está dado. A consciência despertou. Resta saber se a humanidade será capaz de honrar o pacto ancestral contra o caos entrópico, preservando esse improvável arranjo biológico mantido pela generosidade de uma estrela, o Sol, que alimenta um pálido ponto azul suspenso no vazio infinito.

As páginas futuras do Estadão dirão se conseguimos.

A consciência ecológica nasceu com esta indagação. “O que é vida?”. Essa pergunta simples, mas de profundidade insondável, foi o pano de fundo de um artigo do Estadão em 13 de abril de 1911 — há 114 anos. A resposta tinha tom poético, quase místico: “Enquanto a ciência medita e pesquisa, a vida existe e prossegue, fermenta, cresce, turbilhona, age, reage, pulula e se transforma por toda parte, desde os infinitamente pequenos, revelados pela objetividade dos grandes microscópios, até as formidáveis grandezas telescópicas do infinito”.

Mas seria justamente a ciência — aquela que “meditava e pesquisava” — que traria uma revelação profética, não apenas sobre a vida mas sobre sua viabilidade na Terra.

Humanidade levaria um século para perceber o terror embutido na descoberta de Svante Arrhenius (foto) Foto: DOMINIO PUBLICO

O texto cita o cientista sueco Svante Arrhenius (1859-1927), ganhador do Prêmio Nobel de Química de 1903, autor de um estudo que chegou à conclusão: “Se a concentração de CO2 na atmosfera dobrar, a temperatura média global aumentará entre 4ºC e 6ºC”. Treinado em Física e Matemática, Arrhenius acertou. Os valores encontrados por ele em seus cálculos são surpreendentemente próximos das estimativas atuais, que apontam aumentos da temperatura global entre 3ºC e 7ºC.

O Estadão descreveu Arrhenius como “sábio”. Nem o jornal nem ele próprio sabiam, mas o sueco havia estabelecido um dos conceitos fundadores da ciência do clima. Mais tarde, a correlação entre aumento da concentração de CO2 e as altas temperaturas seria conhecida como “efeito estufa”.

Como tantos pioneiros, entretanto, Arrhenius não interpretou corretamente sua descoberta. Para ele, o aquecimento seria benéfico, propiciando o surgimento de uma agricultura mais exuberante e um clima ameno nas nações nórdicas. Que ironia trágica. Svante Arrhenius nos havia dado a ciência, mas a humanidade levaria um século para perceber o terror embutido na sua descoberta.

Associado às atividades humanas, como o desmatamento, o aquecimento está desestabilizando o clima da Terra Foto: Daniel Teixeira/Estadão

O aquecimento hoje assusta porque, associado às atividades humanas, está desestabilizando o clima da Terra, com consequências imprevisíveis e potencialmente catastróficas para a economia e a segurança em escala global. Essa lacuna entre o cálculo correto e o significado equivocado define bem o longo caminho do aprendizado ambiental da humanidade.

Desde a conclusão otimista de Arrhenius até a ansiedade climática de hoje a jornada desenha um arco de consciência onde a imagem da Terra como um sólido, previsível e harmônico lar cósmico se transforma na imagem vulnerável e frágil do “pálido pontinho azul” descrito por Carl Sagan (1934-1996).

Se a concentração de CO2 na atmosfera dobrar, a temperatura média global aumentará entre 4°C e 6°C

Svante Arrhenius (1859-1927), cientista sueco

Neste artigo exploraremos como chegamos a essa compreensão, como as respostas à pergunta “O que é vida?” foram se consolidando ao longo de mais de um século e como o Estadão cobriu essa jornada.

Abordagem utilitarista

O Estadão sempre defendeu as iniciativas de melhoria da qualidade do ar, da água e lutou pela salubridade das áreas urbanas. Aplaudiu presidentes por terem criado parques e estabelecido reservas naturais. No entanto, com a incipiente pesquisa ambiental confinada entre muros acadêmicos das universidades de países europeus, o jornal, a exemplo de seus congêneres no mundo, demorou a acompanhar o crescimento do pensamento ambientalista.

Por muito tempo, a imprensa refletiu a visão dominante da natureza como um conjunto de forças a serem subjugadas e colocadas a serviço do progresso. Como na frase brutal de Simon Bolívar (1783-1830), que no século 19 liderou movimentos de independência na Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia: “Se a natureza for contra nós, seremos contra a natureza”.

Gradualmente, a abordagem utilitarista foi cedendo espaço a uma compreensão mais ampla.

“Tem-se falado muito de ecologia no Brasil, mas o termo continua mergulhado numa certa bruma”, constatou o Estadão em 1939, quando a palavra ecologia apareceu pela primeira vez nas páginas do jornal. O artigo se referia especificamente à “ecologia humana”, definida como “a distribuição dos aspectos especiais das relações de simbiose dos seres e instituições”.

A linguagem estava evoluindo para capturar novos conceitos. O termo “biosfera”, hoje de uso corriqueiro, foi criado em 1875 pelo geólogo austríaco Eduard Suess (1831-1914). Ele o cunhou com o objetivo específico de descrever regiões geográficas onde prosperavam determinadas formas de vida.

Palavra 'ecologia' aparece pela primeira vez no Estadão em 1939; na foto, o Pantanal durante temporada de queimada em 2020 Foto: Dida Sampaio/Estadão

No Estadão, a palavra biosfera apareceu já em sua concepção ampla pela primeira vez na edição de 2 de junho de 1957. Era um artigo sobre a possibilidade de vida em Marte, antecipando o que viria a ser uma obsessão sem qualquer evidência material até hoje de que a vida poderia não ser um fenômeno exclusivamente terrestre.

Décadas depois, em 1990, o Estadão publicou um artigo de Mikhail Gorbachev (1931-2022), quando ainda era presidente da União Soviética, enaltecendo os feitos do ucraniano Vladimir Vernadsky (1863-1945). Foi ele quem delineou o conceito atual de biosfera, enxergando-a como a soma das interações dos seres vivos com o ambiente. Vernadsky reformulou a ideia do domínio do homem sobre a natureza, não mais subjugando-a, mas “numa esfera regulada pela razão e pelos princípios morais universais”.

Enquanto essas ideias fermentavam nas publicações científicas, a compreensão mais detalhada da malha que interconecta os seres vivos começava a conquistar um público maior.

Em 1927, o britânico Charles Elton (1900-1991) descreveu os primeiros nichos ecológicos, mapeou cadeias alimentares e descobriu o papel coletivo de espécies individuais nos sistemas de vida integrados — ou “ecossistemas”, termo criado em 1935 por seu conterrâneo Arthur Tansley (1871-1955). Desde então, os organismos passaram a ser estudados não mais como entes isolados, mas como partes interdependentes de complexos arranjos. A vida, descobrimos, não era uma coleção de indivíduos isolados, mas uma teia.

Sob a rubrica Ecologia, o Estadão trouxe aos leitores em 1974 a reflexão oportuna do pesquisador Dirceu Brasil Vieira, um dos pioneiros dos estudos hídricos no Brasil, explicando aos leitores o significado da palavra ecossistema, que aparecia pela primeira vez nas páginas do jornal. “Todos os seres vivos animais e vegetais; macro e microrganismos, constituem, juntamente com o meio ambiente onde vivem, uma comunidade biológica, onde a interdependência dos componentes é vital. O conjunto desses componentes físico (meio) e biológico (animal e vegetal) interdependentes constitui o que os ecologistas definem por ecossistema.”

Década a década, as respostas à pergunta “O que é vida?” feita pelo Estadão em 1911 ganhavam mais solidez com a popularização dos trabalhos de Tansley, Elton, Vernadsky, Suess e Arrhenius. Eles e outros cientistas trabalharam no nível macro, no mundo das coisas tangíveis ou mensuráveis. Graças a eles, a explicação do conceito biológico da interdependência aproximou-se da formulação poética “Nenhum homem é uma ilha”, do inglês John Donne (1572-1631).

Todos os seres vivos animais e vegetais; macro e microrganismos, constituem, juntamente com o meio ambiente onde vivem, uma comunidade biológica, onde a interdependência dos componentes é vital. O conjunto desses componentes constitui o que os ecologistas definem por ecossistema

Dirceu Brasil Vieira, pesquisador, em reportagem de 1974 do Estadão

Mas ainda faltava algo. Faltava um mergulho no mundo dos mistérios “infinitamente pequenos” mencionados no artigo de 1911.

Esse passo essencial foi dado no universo do interior das células, nos genes. Essas moléculas da vida foram explicadas pelo Estadão em abril de 1935 ao reproduzir a aula magna do professor André Dreyfus (1897-1952) na Universidade São Paulo (USP). Dreyfus definiu os genes como “partes dos cromossomos” que têm “a função de transmissão dos fatores hereditários”. O jornal registrava o momento em que a vida começava a ser compreendida em sua dimensão molecular, passo essencial no avanço do pensamento ecológico.

Schrödinger e a entropia

Seria necessário ir ainda mais fundo. Um dos descobridores da forma em dupla hélice do DNA, James Watson, em entrevista publicada pelo Estadão em fevereiro de 2003, relembra como despertou para o fato de que seria essencial para a biologia explorar o nível molecular e das partículas subatômicas. Watson citou uma obra do físico quântico alemão Erwin Schrödinger (1887-1961), cujo título é o mesmo da indagação que apareceu no artigo do Estadão de 1911: ‘What Is Life?’ (O que é Vida?). Schrödinger propôs que a origem e sustentação da vida estaria em uma “estrutura molecular estável” em um “cristal aperiódico que carrega informações codificadas”. Antecipou em dez anos a descoberta do DNA.

Schrödinger deu ainda outra contribuição essencial para o crescimento da consciência ecológica, trazendo para a biologia o conceito físico da entropia, lei natural segundo a qual os sistemas tendem para o caos. A vida é matéria organizada que venceu a entropia. Por isso os seres vivos são chamados de organismos.

A entropia levou a outra reflexão fundamental para o crescimento do pensamento ecológico, a “Espaçonave Terra”. O conceito tem vários pais. O mais influente foi o economista inglês Kenneth Boulding (1910-1993). Em um famoso ensaio em 1965, ele contrastou a “economia da nave espacial” com a “economia de caubói”. A economia de caubói, argumentou ele, baseava-se na suposição de que os recursos seriam infinitos, alertando que essa concepção levaria a humanidade a práticas insustentáveis, tendo como consequência a degradação ambiental e inviabilização da vida na Terra.

Em 1975, o Estadão se referiu à “nave espacial Terra” em artigo assinado pelo jornalista britânico John Gribbin. A Terra é mostrada como uma casca de noz de baixa entropia boiando em um oceano de alta entropia. Diz Gribbin: “A analogia é boa. Como uma nave espacial, temos apenas recursos limitados, e a preservação do ar que respiramos, da água que bebemos e dos alimentos que comemos depende do funcionamento eficiente de um sistema de reciclagem que pode ser drasticamente afetado pela poluição se as atividades humanas se descontrolarem”.

Uma imagem fixaria para sempre a percepção da fragilidade de nosso planeta. Em 1968, a foto “Earthrise” (alvorecer da Terra), tirada pela Apollo 8, mostrou a Terra surgindo sobre o horizonte lunar — uma esfera azul e branca flutuando na escuridão entrópica do espaço. “Viemos explorar a Lua, mas o que realmente descobrimos foi a Terra”, disse William Anders (1933-2024), o astronauta autor da foto.

Foto “Earthrise” (alvorecer da Terra), tirada pela Apollo 8: esfera azul e branca flutuando na escuridão entrópica do espaço Foto: Nasa/NYT

Com esse estoque de espetaculares avanços na definição da vida em pouco mais de meio século de pesquisas, o pensamento ambiental estava pronto para conquistar a opinião pública e entrar em ação.

Uma bióloga marinha norte-americana chamada Rachel Carson (1907-1964) daria o pontapé inicial na revolução popular reunida em torno do objetivo de “Salvar o Planeta”. Em 24 de outubro de 1962, o livro de Rachel Carson que inaugurou a consciência ecológica, “Silent Spring” (“Primavera Silenciosa”), apareceu com força no Suplemento Agrícola do Estadão.

Ela denunciava o uso indiscriminado do DDT, um praguicida que havia trazido enormes ganhos de produtividade no campo. Mas é um veneno que mata indiscriminadamente e se infiltra nos alimentos e podia ser detectado em concentrações tóxicas no leite materno, na batata e na água.

O artigo tratou o alerta de Rachel Carson com certa desconfiança, definindo muito do que viu como exageros e colocando fé na ideia de que o uso cuidadoso e controlado do DDT seria o bastante para evitar os efeitos mais perigosos que a autora apontava. Mas o alerta estava dado. O DDT seria proibido nos Estados Unidos em 1972, apenas dez anos após a publicação de “Silent Spring”. No Brasil, seu uso agrícola seria banido em 1985. A proibição total veio em 2009.

Os recursos da Espaçonave Terra são escassos. Sua exploração precisa ser sustentável e renovável. O papel de proclamar com dados essas verdades coube ao Clube de Roma com o relatório “The Limits to Growth” (“Os Limites do Crescimento”), de 1972.

Em 13 de agosto daquele ano, o Estadão dedicou uma página inteira a uma pergunta nascida na cabeça de muitos depois de ler o relatório do Clube de Roma: “A sociedade de consumo deve ser extinta?” O jornal reproduzia a conclusão sombria do relatório: “A maior forma de poluição que existe é o homem”. A Terra, afirmavam os sábios do Clube de Roma, não mais poderá atender às necessidades criadas por essa explosão demográfica.

'A sociedade de consumo deve ser extinta?', discutia o Estadão em artigo de 1972, após publicação do relatório do Clube de Roma Foto: Nilton Fukuda/Estadão - 28/11/2019

A pedido dos italianos, o MIT simulou cinco grandes variáveis globais até 2100: população, produção industrial, alimentos, recursos naturais e poluição. Se nenhuma providência fosse tomada, os colapsos sistêmicos seriam inevitáveis. As mudanças climáticas atuais são evidências empíricas de que as previsões feitas em 1972 não eram fruto de alarmismo.

A pergunta “O que é vida?” ganhou uma dimensão de urgência. Tomaríamos juízo antes da degradação tornar-se irreparável? A resposta começou a se delinear em 1987, quando o Relatório Brundtland cunhou o conceito de “desenvolvimento sustentável”. Em 19 de abril daquele ano, o Estadão registrou o momento histórico em que a primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland, apresentou ao mundo uma nova equação: desenvolver e preservar não eram opostos, mas partes complementares. Esse deveria ser e vem sendo o caminho.

O documento foi o reconhecimento oficial de que a pergunta “O que é vida?” não podia ser respondida apenas pela biologia ou pela ecologia — ela demandava uma visão integrada de como organizamos nossas sociedades. O Relatório Brundtland abriu caminho para a Eco-92 no Rio, as COPs do Clima, o Protocolo de Kyoto e o Acordo de Paris. Os entendimentos internacionais foram gradualmente sendo incorporados e até superados pela iniciativa privada. O ESG tornou-se parte dos processos corporativos.

Gro Harlem Brundtland, ex-primeira-ministra da Noruega, durante a Eco 92: desenvolver e preservar não são opostos Foto: Carlão Limeira/Estadão

As páginas do Estadão registraram essa jornada que vem da poesia mística de 1911, passa pelo alerta profético de Arrhenius, pela ciência rigorosa de Schrödinger, o ativismo transformador de Rachel Carson e os modelos computacionais do MIT até as imagens reveladoras do espaço, culminando nos processos de governança das empresas e nos acordos internacionais.

O conhecimento está dado. A consciência despertou. Resta saber se a humanidade será capaz de honrar o pacto ancestral contra o caos entrópico, preservando esse improvável arranjo biológico mantido pela generosidade de uma estrela, o Sol, que alimenta um pálido ponto azul suspenso no vazio infinito.

As páginas futuras do Estadão dirão se conseguimos.

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