Cabeça de homem achado decapitado após operação no Rio estava pendurada em árvore, diz família


Parentes dizem que Hyago Ravel estava no Comando Vermelho havia dois meses: ‘Foi a pior cena que a gente podia imaginar’; Polícia Civil afirma que apura ‘todos os fatos’

Por Adriana Victorino
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Conforme o ativista Raull Santiago, ao menos 50 corpos foram retirados por moradores da região de mata do Complexo da Penha durante a madrugada

Hyago Ravel Rodrigues Rosário, de 19 anos, foi encontrado decapitado por moradores do Complexo da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, na madrugada de quarta-feira, 29, segundo relata a família do jovem. O corpo dele compõe a lista dos 121 mortos na megaoperação realizada na terça-feira, 28.

Parentes relataram que a cabeça estava pendurada em uma árvore na zona de mata onde, conforme as forças de segurança fluminense, a maior parte dos conflitos ocorreram.

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Foi a ação mais letal da história do Estado. O governo do Rio defendeu a estratégia diante da reação bélica dos criminosos do Comando Vermelho (CV), que usaram até granadas com bomba, e chamou a ofensiva policial de “sucesso”. O Ministério Público do Estado diz que vai investigar a ação.

A família acredita que a violência contra Hyago possa ter partido dos policiais durante a ação — principalmente porque ele tinha o cabelo pintado de vermelho, em alusão ao CV. Segundo parentes, Ravel estava na facção havia dois meses. Procurados, a Secretaria de Segurança Pública e o governo não se manifestaram.

Em nota, a Polícia Civil afirmou que “diligências estão em andamento para apurar todos os fatos”. “No caso da lesão no pescoço, a análise dos peritos apontou que ocorreu após a morte, o que vai ao encontro da investigação de fraude processual e vilipêndio de cadáver que foi instaurada na 22ª DP (Penha). O laudo será analisado pela Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), que investiga as circunstâncias das mortes”, diz.

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”Ravel estava decapitado. O corpo não tinha marcas de violência. Ele só estava decapitado, e quem fez o corte sabia o que estava fazendo. Foi a pior cena que a gente podia imaginar, ninguém espera perder alguém assim”, diz um parente, que pediu anonimato.

A mãe de Ravel, como era conhecido, descobriu o envolvimento do filho no dia em que a operação foi deflagrada, após o desaparecimento dele e o contato de amigos informando o que havia ocorrido.

A família diz que o jovem, que deixa uma filha de um ano, foi cooptado pelo crime organizado diante das perspectivas de dinheiro e poder oferecidas pela facção aos jovens pobres.

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“O Ravel estava deslumbrado por uma vida que a gente da periferia vê. A gente não está acostumado a ver advogado, não está acostumado a ver arquiteto. Está acostumado a ver ostentação”, disse um dos familiares.

Segundo investigações da polícia, o CV mantém na Penha e no Alemão uma rotina de abusos, em um ambiente de acesso restrito do Estado, com execuções e tortura de desafetos, julgados pelos próprios criminosos, e até tortura de moradores.

Moradores fizeram protesto no Complexo da Penha contra ação policial do governo do Rio Foto: Pedro Kirilos/Estadão
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Na noite de terça, a família de Ravel e outros moradores subiram até a Serra da Misericórdia, área de mata que separa as comunidades, em busca de familiares desaparecidos. Parte dos corpos foi achada amarrada e com marcas de facadas, segundo relatam parentes dos mortos.

O Estadão esteve no local e viu ao menos um dos corpos decapitados. Os moradores enfileiraram os mortos na Praça São Lucas, imagem que repercutiu internacionalmente - até serem levados em mais de dez carros para o Instituto Médico-Legal (IML).

Ainda na quarta, os pais de Ravel foram ao IML para reconhecer o corpo. Na sede do instituto, entretanto, foram impedidos de realizar o procedimento, pois era necessária uma sutura para costurar a cabeça ao tronco.

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Na manhã de sexta-feira, 31, eles compareceram pela terceira vez, mas não entraram. Segundo a família, o IML afirmou que já havia coletado as digitais de Ravel e confirmado sua identidade.

A Defensoria Pública do Rio afirmou na quinta-feira, 30, que foi impedida de participar da identificação dos corpos.

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“A mãe dele só conseguiu entrar quando os deputados chegaram lá no IML para fazer uma reunião, porque o caso dele foi chocante”, diz o parente.

Segundo um familiar, a mãe contou que a cabeça de Ravel ainda estava solta. “Ela foi ver o filho dela num estado que ninguém jamais ia querer ver um parente. A gente teve de mandar para a funerária para fazer o serviço direito, dar banho e fazer a sutura da forma correta”, contou.

Conforme a guia de sepultamento, a qual o Estadão teve acesso, os médicos atestaram “lesão medular cervical, lesão dos vasos do pescoço, lesão do pulmão direito, fígado e estômago, seção da coluna lombar com lesão medular, ação perfuro contundente”.

“A gente não está indignado pelo Ravel ter morrido, é claro que dói. A gente está indignado pela forma que foi. Se fosse troca de tiro, a gente entende, está num confronto. O Ravel foi decapitado, foi posto numa árvore, entendeu? Foi posto ali como troféu”, afirmou o parente.

Câmeras nas fardas

O secretário da PM, coronel Marcelo Menezes, afirmou que parte das imagens das câmeras nas fardas dos policiais pode ter sido perdida. Segundo ele, os equipamentos deixaram de gravar quando as baterias se esgotaram durante a ação, que começou ainda de madrugada e se estendeu por mais de 12 horas.

A Defensoria Pública do Rio de Janeiro enviou ofício à Ouvidoria-Geral da Polícia Militar solicitando as gravações feitas pelas câmeras corporais dos agentes.

“A gente não está falando que o Ravel era inocente. A gente não está falando que ele não estava envolvido. A única coisa que a gente queria mesmo era humanidade, respeito”, disse o parente do homem morto.

O que diz o governo

O secretário de Segurança Pública, Victor Santos, afirmou que as autoridades não auxiliaram na retirada dos corpos porque não sabiam da presença deles na mata. O secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, criticou ainda a retirada das roupas camufladas usadas pelas pessoas encontradas mortas, que tiveram os corpos expostos na rua apenas com roupa íntima.

O secretário da Polícia Militar afirmou que a estratégia foi montar um “Muro do Bope” para empurrar os suspeitos para o topo do morro da Serra da Misericórdia.

O local é onde os corpos foram encontrados. O secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, afirmou que vai investigar por fraude processual moradores que participaram da remoção dos corpos na área de mata.

Segundo o Código de Processo Penal, cabe à autoridade policial preservar o local do crime e garantir que nenhuma evidência seja alterada até a chegada da perícia.

A lei determina que o policial deve “dirigir-se ao local, providenciando para que não se alterem o estado e conservação das coisas” e define o isolamento como “o ato de evitar que se altere o estado das coisas, devendo isolar e preservar o ambiente imediato, mediato e relacionado aos vestígios e local de crime”.

Entidade defende federalização

A família de Ravel tem sido atendida pela Defensoria e pela Rede de Atenção a Pessoas Afetadas pela Violência de Estado (Raave).

O coordenador técnico da Raave, Guilherme Pimentel, defendeu a federalização da investigação sobre a ação da polícia. “A instituição não vai querer se autoincriminar”, afirma.

Criada após o caso do Jacarezinho, em 2021 - até então a operação policial mais letal da história do Rio -, a Raave surgiu como espaço de articulação entre coletivos de familiares, organizações de direitos humanos, instituições de saúde, movimentos de favelas e universidades.

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Conforme o ativista Raull Santiago, ao menos 50 corpos foram retirados por moradores da região de mata do Complexo da Penha durante a madrugada

Hyago Ravel Rodrigues Rosário, de 19 anos, foi encontrado decapitado por moradores do Complexo da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, na madrugada de quarta-feira, 29, segundo relata a família do jovem. O corpo dele compõe a lista dos 121 mortos na megaoperação realizada na terça-feira, 28.

Parentes relataram que a cabeça estava pendurada em uma árvore na zona de mata onde, conforme as forças de segurança fluminense, a maior parte dos conflitos ocorreram.

Foi a ação mais letal da história do Estado. O governo do Rio defendeu a estratégia diante da reação bélica dos criminosos do Comando Vermelho (CV), que usaram até granadas com bomba, e chamou a ofensiva policial de “sucesso”. O Ministério Público do Estado diz que vai investigar a ação.

A família acredita que a violência contra Hyago possa ter partido dos policiais durante a ação — principalmente porque ele tinha o cabelo pintado de vermelho, em alusão ao CV. Segundo parentes, Ravel estava na facção havia dois meses. Procurados, a Secretaria de Segurança Pública e o governo não se manifestaram.

Em nota, a Polícia Civil afirmou que “diligências estão em andamento para apurar todos os fatos”. “No caso da lesão no pescoço, a análise dos peritos apontou que ocorreu após a morte, o que vai ao encontro da investigação de fraude processual e vilipêndio de cadáver que foi instaurada na 22ª DP (Penha). O laudo será analisado pela Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), que investiga as circunstâncias das mortes”, diz.

”Ravel estava decapitado. O corpo não tinha marcas de violência. Ele só estava decapitado, e quem fez o corte sabia o que estava fazendo. Foi a pior cena que a gente podia imaginar, ninguém espera perder alguém assim”, diz um parente, que pediu anonimato.

A mãe de Ravel, como era conhecido, descobriu o envolvimento do filho no dia em que a operação foi deflagrada, após o desaparecimento dele e o contato de amigos informando o que havia ocorrido.

A família diz que o jovem, que deixa uma filha de um ano, foi cooptado pelo crime organizado diante das perspectivas de dinheiro e poder oferecidas pela facção aos jovens pobres.

“O Ravel estava deslumbrado por uma vida que a gente da periferia vê. A gente não está acostumado a ver advogado, não está acostumado a ver arquiteto. Está acostumado a ver ostentação”, disse um dos familiares.

Segundo investigações da polícia, o CV mantém na Penha e no Alemão uma rotina de abusos, em um ambiente de acesso restrito do Estado, com execuções e tortura de desafetos, julgados pelos próprios criminosos, e até tortura de moradores.

Moradores fizeram protesto no Complexo da Penha contra ação policial do governo do Rio Foto: Pedro Kirilos/Estadão

Na noite de terça, a família de Ravel e outros moradores subiram até a Serra da Misericórdia, área de mata que separa as comunidades, em busca de familiares desaparecidos. Parte dos corpos foi achada amarrada e com marcas de facadas, segundo relatam parentes dos mortos.

O Estadão esteve no local e viu ao menos um dos corpos decapitados. Os moradores enfileiraram os mortos na Praça São Lucas, imagem que repercutiu internacionalmente - até serem levados em mais de dez carros para o Instituto Médico-Legal (IML).

Ainda na quarta, os pais de Ravel foram ao IML para reconhecer o corpo. Na sede do instituto, entretanto, foram impedidos de realizar o procedimento, pois era necessária uma sutura para costurar a cabeça ao tronco.

Na manhã de sexta-feira, 31, eles compareceram pela terceira vez, mas não entraram. Segundo a família, o IML afirmou que já havia coletado as digitais de Ravel e confirmado sua identidade.

A Defensoria Pública do Rio afirmou na quinta-feira, 30, que foi impedida de participar da identificação dos corpos.

“A mãe dele só conseguiu entrar quando os deputados chegaram lá no IML para fazer uma reunião, porque o caso dele foi chocante”, diz o parente.

Segundo um familiar, a mãe contou que a cabeça de Ravel ainda estava solta. “Ela foi ver o filho dela num estado que ninguém jamais ia querer ver um parente. A gente teve de mandar para a funerária para fazer o serviço direito, dar banho e fazer a sutura da forma correta”, contou.

Conforme a guia de sepultamento, a qual o Estadão teve acesso, os médicos atestaram “lesão medular cervical, lesão dos vasos do pescoço, lesão do pulmão direito, fígado e estômago, seção da coluna lombar com lesão medular, ação perfuro contundente”.

“A gente não está indignado pelo Ravel ter morrido, é claro que dói. A gente está indignado pela forma que foi. Se fosse troca de tiro, a gente entende, está num confronto. O Ravel foi decapitado, foi posto numa árvore, entendeu? Foi posto ali como troféu”, afirmou o parente.

Câmeras nas fardas

O secretário da PM, coronel Marcelo Menezes, afirmou que parte das imagens das câmeras nas fardas dos policiais pode ter sido perdida. Segundo ele, os equipamentos deixaram de gravar quando as baterias se esgotaram durante a ação, que começou ainda de madrugada e se estendeu por mais de 12 horas.

A Defensoria Pública do Rio de Janeiro enviou ofício à Ouvidoria-Geral da Polícia Militar solicitando as gravações feitas pelas câmeras corporais dos agentes.

“A gente não está falando que o Ravel era inocente. A gente não está falando que ele não estava envolvido. A única coisa que a gente queria mesmo era humanidade, respeito”, disse o parente do homem morto.

O que diz o governo

O secretário de Segurança Pública, Victor Santos, afirmou que as autoridades não auxiliaram na retirada dos corpos porque não sabiam da presença deles na mata. O secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, criticou ainda a retirada das roupas camufladas usadas pelas pessoas encontradas mortas, que tiveram os corpos expostos na rua apenas com roupa íntima.

O secretário da Polícia Militar afirmou que a estratégia foi montar um “Muro do Bope” para empurrar os suspeitos para o topo do morro da Serra da Misericórdia.

O local é onde os corpos foram encontrados. O secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, afirmou que vai investigar por fraude processual moradores que participaram da remoção dos corpos na área de mata.

Segundo o Código de Processo Penal, cabe à autoridade policial preservar o local do crime e garantir que nenhuma evidência seja alterada até a chegada da perícia.

A lei determina que o policial deve “dirigir-se ao local, providenciando para que não se alterem o estado e conservação das coisas” e define o isolamento como “o ato de evitar que se altere o estado das coisas, devendo isolar e preservar o ambiente imediato, mediato e relacionado aos vestígios e local de crime”.

Entidade defende federalização

A família de Ravel tem sido atendida pela Defensoria e pela Rede de Atenção a Pessoas Afetadas pela Violência de Estado (Raave).

O coordenador técnico da Raave, Guilherme Pimentel, defendeu a federalização da investigação sobre a ação da polícia. “A instituição não vai querer se autoincriminar”, afirma.

Criada após o caso do Jacarezinho, em 2021 - até então a operação policial mais letal da história do Rio -, a Raave surgiu como espaço de articulação entre coletivos de familiares, organizações de direitos humanos, instituições de saúde, movimentos de favelas e universidades.

Seu navegador não suporta esse video.

Conforme o ativista Raull Santiago, ao menos 50 corpos foram retirados por moradores da região de mata do Complexo da Penha durante a madrugada

Hyago Ravel Rodrigues Rosário, de 19 anos, foi encontrado decapitado por moradores do Complexo da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, na madrugada de quarta-feira, 29, segundo relata a família do jovem. O corpo dele compõe a lista dos 121 mortos na megaoperação realizada na terça-feira, 28.

Parentes relataram que a cabeça estava pendurada em uma árvore na zona de mata onde, conforme as forças de segurança fluminense, a maior parte dos conflitos ocorreram.

Foi a ação mais letal da história do Estado. O governo do Rio defendeu a estratégia diante da reação bélica dos criminosos do Comando Vermelho (CV), que usaram até granadas com bomba, e chamou a ofensiva policial de “sucesso”. O Ministério Público do Estado diz que vai investigar a ação.

A família acredita que a violência contra Hyago possa ter partido dos policiais durante a ação — principalmente porque ele tinha o cabelo pintado de vermelho, em alusão ao CV. Segundo parentes, Ravel estava na facção havia dois meses. Procurados, a Secretaria de Segurança Pública e o governo não se manifestaram.

Em nota, a Polícia Civil afirmou que “diligências estão em andamento para apurar todos os fatos”. “No caso da lesão no pescoço, a análise dos peritos apontou que ocorreu após a morte, o que vai ao encontro da investigação de fraude processual e vilipêndio de cadáver que foi instaurada na 22ª DP (Penha). O laudo será analisado pela Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), que investiga as circunstâncias das mortes”, diz.

”Ravel estava decapitado. O corpo não tinha marcas de violência. Ele só estava decapitado, e quem fez o corte sabia o que estava fazendo. Foi a pior cena que a gente podia imaginar, ninguém espera perder alguém assim”, diz um parente, que pediu anonimato.

A mãe de Ravel, como era conhecido, descobriu o envolvimento do filho no dia em que a operação foi deflagrada, após o desaparecimento dele e o contato de amigos informando o que havia ocorrido.

A família diz que o jovem, que deixa uma filha de um ano, foi cooptado pelo crime organizado diante das perspectivas de dinheiro e poder oferecidas pela facção aos jovens pobres.

“O Ravel estava deslumbrado por uma vida que a gente da periferia vê. A gente não está acostumado a ver advogado, não está acostumado a ver arquiteto. Está acostumado a ver ostentação”, disse um dos familiares.

Segundo investigações da polícia, o CV mantém na Penha e no Alemão uma rotina de abusos, em um ambiente de acesso restrito do Estado, com execuções e tortura de desafetos, julgados pelos próprios criminosos, e até tortura de moradores.

Moradores fizeram protesto no Complexo da Penha contra ação policial do governo do Rio Foto: Pedro Kirilos/Estadão

Na noite de terça, a família de Ravel e outros moradores subiram até a Serra da Misericórdia, área de mata que separa as comunidades, em busca de familiares desaparecidos. Parte dos corpos foi achada amarrada e com marcas de facadas, segundo relatam parentes dos mortos.

O Estadão esteve no local e viu ao menos um dos corpos decapitados. Os moradores enfileiraram os mortos na Praça São Lucas, imagem que repercutiu internacionalmente - até serem levados em mais de dez carros para o Instituto Médico-Legal (IML).

Ainda na quarta, os pais de Ravel foram ao IML para reconhecer o corpo. Na sede do instituto, entretanto, foram impedidos de realizar o procedimento, pois era necessária uma sutura para costurar a cabeça ao tronco.

Na manhã de sexta-feira, 31, eles compareceram pela terceira vez, mas não entraram. Segundo a família, o IML afirmou que já havia coletado as digitais de Ravel e confirmado sua identidade.

A Defensoria Pública do Rio afirmou na quinta-feira, 30, que foi impedida de participar da identificação dos corpos.

“A mãe dele só conseguiu entrar quando os deputados chegaram lá no IML para fazer uma reunião, porque o caso dele foi chocante”, diz o parente.

Segundo um familiar, a mãe contou que a cabeça de Ravel ainda estava solta. “Ela foi ver o filho dela num estado que ninguém jamais ia querer ver um parente. A gente teve de mandar para a funerária para fazer o serviço direito, dar banho e fazer a sutura da forma correta”, contou.

Conforme a guia de sepultamento, a qual o Estadão teve acesso, os médicos atestaram “lesão medular cervical, lesão dos vasos do pescoço, lesão do pulmão direito, fígado e estômago, seção da coluna lombar com lesão medular, ação perfuro contundente”.

“A gente não está indignado pelo Ravel ter morrido, é claro que dói. A gente está indignado pela forma que foi. Se fosse troca de tiro, a gente entende, está num confronto. O Ravel foi decapitado, foi posto numa árvore, entendeu? Foi posto ali como troféu”, afirmou o parente.

Câmeras nas fardas

O secretário da PM, coronel Marcelo Menezes, afirmou que parte das imagens das câmeras nas fardas dos policiais pode ter sido perdida. Segundo ele, os equipamentos deixaram de gravar quando as baterias se esgotaram durante a ação, que começou ainda de madrugada e se estendeu por mais de 12 horas.

A Defensoria Pública do Rio de Janeiro enviou ofício à Ouvidoria-Geral da Polícia Militar solicitando as gravações feitas pelas câmeras corporais dos agentes.

“A gente não está falando que o Ravel era inocente. A gente não está falando que ele não estava envolvido. A única coisa que a gente queria mesmo era humanidade, respeito”, disse o parente do homem morto.

O que diz o governo

O secretário de Segurança Pública, Victor Santos, afirmou que as autoridades não auxiliaram na retirada dos corpos porque não sabiam da presença deles na mata. O secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, criticou ainda a retirada das roupas camufladas usadas pelas pessoas encontradas mortas, que tiveram os corpos expostos na rua apenas com roupa íntima.

O secretário da Polícia Militar afirmou que a estratégia foi montar um “Muro do Bope” para empurrar os suspeitos para o topo do morro da Serra da Misericórdia.

O local é onde os corpos foram encontrados. O secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, afirmou que vai investigar por fraude processual moradores que participaram da remoção dos corpos na área de mata.

Segundo o Código de Processo Penal, cabe à autoridade policial preservar o local do crime e garantir que nenhuma evidência seja alterada até a chegada da perícia.

A lei determina que o policial deve “dirigir-se ao local, providenciando para que não se alterem o estado e conservação das coisas” e define o isolamento como “o ato de evitar que se altere o estado das coisas, devendo isolar e preservar o ambiente imediato, mediato e relacionado aos vestígios e local de crime”.

Entidade defende federalização

A família de Ravel tem sido atendida pela Defensoria e pela Rede de Atenção a Pessoas Afetadas pela Violência de Estado (Raave).

O coordenador técnico da Raave, Guilherme Pimentel, defendeu a federalização da investigação sobre a ação da polícia. “A instituição não vai querer se autoincriminar”, afirma.

Criada após o caso do Jacarezinho, em 2021 - até então a operação policial mais letal da história do Rio -, a Raave surgiu como espaço de articulação entre coletivos de familiares, organizações de direitos humanos, instituições de saúde, movimentos de favelas e universidades.

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