Red Pill: O que ‘coaches’ de masculinidade, como ‘Calvo do Campari’, têm a ver com machismo?


Influenciadores dizem defender direitos dos homens e acumulam seguidores nas redes sociais, mas movimento impulsiona divulgação de ideias de discriminação e até ódio contra mulheres

Por Leon Ferrari
Atualização:

Red Pill, “machosfera” e “manosfera” são termos que chamaram a atenção nas últimas semanas em referência a grupos que discutem o papel dos homens na sociedade, mas acabam por reproduzir ideias machistas e, por vezes, misóginas (de ódio a mulheres). Neles, um pano de fundo é bastante comum: supervalorização do masculino e reação à conquista de direitos de minorias, como mulheres (principal alvo) e LGBTs. Somado a isso, há discursos conspiratórios de uma suposta misandria (ódio a homens) estatal, que prejudicaria homens brancos heterossexuais.

Na internet, esses grupos têm espaço em fóruns, redes de mensagens, perfis e podcasts, com ampla gama de influenciadores, os “coaches de masculinidade”, com milhares de seguidores. Entre os temas tratados, dicas de sedução, segurança, estilo de vida e profissionais. Grande parte delas inclui conceitos ultrapassados, com representações estereotipadas e sem reconhecer a diversidade das mulheres.

Um tema recorrente são relacionamentos (sempre entre homem e mulher). Em vez da ótica da parceria, muitos concebem a relação de modo em que a mulher raramente aparece como produtora de riqueza material. O homem serviria à mulher com dinheiro, que ganha fora de casa, e ela retribui sexual e afetivamente, e com serviços domésticos.

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Isso quando ela, segundo os red pills, não tiver sido “transformada” pelo feminismo. E a representação dessa mulher recorre a narrativas que se replicam nesses perfis: ingrata, que não se sente feliz na relação e pede para se separar ou trai; ou oportunista, que quer só extorquir e manipular o parceiro, para que ele seja servo dela. A sexualidade é outro ponto de tensão, com julgamento sobre o número de parceiros ou a escolha das roupas.

Os conteúdos ganham tração nos podcasts transmitidos ao vivo, que depois viralizam com trechos curtos nas redes. Diferentemente de entrevistas tradicionais, os entrevistadores não confrontam os convidados, que costumam ser influenciadores de maior alcance da comunidade. Os coaches se comunicam de forma clara e direta. Falam de si e suas relações, evitando citar fracassos (se entram em pauta, geralmente são associados a uma mulher).

O influenciador Thiago Schutz e a atriz Lívia La Gatto Foto: Reprodução/Instagram/@manualredpill/@livialagatto
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Um deles, Thiago Schutz, de 34 anos, ganhou holofotes este mês. Dono do perfil Manual Red Pill Brasil, ele viralizou com um vídeo em que exemplifica suposta manipulação de uma mulher que oferece cerveja a um homem que bebe Campari – daí o apelido “Coach do Campari” ou “Calvo do Campari”. Nas redes, o trecho do podcast trouxe à tona a discussão sobre masculinidade frágil, além de memes e sátiras.

Entre elas, o vídeo da humorista e atriz Lívia La Gatto, que, sem citar nomes, ironizava falas misóginas (de ódio a mulheres) dos “coaches da masculinidade”. Schutz, então, reagiu com uma fala sobre “processo ou bala”, na intenção de que a postagem fosse apagada. A atriz registrou boletim de ocorrência.

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Ele afirmou ter sido mal interpretado e disse que era incapaz de atirar em alguém. Ao Estadão, a defesa de Schutz informou que ele já deu depoimento e segue à disposição das autoridades. A Polícia Civil investiga o caso.

O limite entre repensar o papel do homem e propagar ideias machistas e misóginas preocupa especialistas. Eles temem que isso ajude a aumentar as violências contra mulheres (que cresceram no último ano). E alertam ainda que, como esse modelo de masculinidade propagado é irreal, pode levar ao adoecimento mental dos próprios homens que consomem esses conteúdos - o que potencializa novos ciclos de violência.

Masculinismo: direito dos homens ou só para os homens?

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A “manosfera” ou “machosfera” reúne grupos com várias designações (red pill, incel, man going their own way etc.), que defendem diferentes jeitos de ver e de se relacionar com mulheres, mas em comum, segundo seus participantes, lutam pelos direitos dos homens e se contrapõem ao feminismo. Especialistas em gênero e estudiosos do extremismo, porém, indicam que essa é, diversas vezes, uma roupagem para tentar tornar aceitáveis discursos machistas e/ou misóginos.

“No senso comum, até pelo ‘ismo’, pode dar a ideia de que o masculinismo seria simétrico ao feminismo. E não é”, diz a antropóloga Isabela Kalil, coordenadora do Observatório da Extrema Direita. “O masculinismo está muito próximo, por exemplo, do supremacismo branco e tem muito pouco a ver com o movimento feminista. O feminismo não propõe a aniquilação do outro ou supremacia de determinados grupos, das mulheres. O que propõe é a ampliação de direitos e um projeto de emancipação e inclusão”, completa.

A pílula vermelha (red pill) é uma alegoria com base no blockbuster Matrix, dirigido pelas irmãs Wachowski (duas mulheres trans, por mais irônico que pareça). No filme, o protagonista Neo, interpretado pelo ator Keanu Reeves, precisa escolher entre duas pílulas, azul e vermelha. Ele escolhe a segunda e, assim, sai de uma espécie de simulação.

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Ao lado de outros que optaram pelo mesmo antídoto, começa a lutar contra um sistema em que máquinas subjugam humanos. Quem opta pela pílula vermelha, então, encararia a realidade – supostamente sob domínio feminino – e deve ser viril para enfrentá-la.

No filme, o protagonista Neo, interpretado pelo ator Keanu Reeves, precisa escolher entre duas pílulas, azul e vermelha. Ele escolhe a segunda e, assim, sai de uma espécie de simulação. Foto: Reprodução/YouTube

Segundo especialistas, essa sensação de desvantagem é uma reação à conquista de direitos civis e sociais por minorias – vitórias dos movimentos feminista, negro e LGBT –, que fazem o domínio social dos homens perder força, e, com mais igualdade, para chegar ao topo, mais habilidades são exigidas deles. Ao mesmo tempo em que é uma resposta às incertezas do mundo moderno, em que a máxima “trabalho, me esforço e sou reconhecido” e as jornadas heroicas de personagens, como o Rambo, por vezes não se concretizam ou fazem pouco sentido.

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As transformações criam frustrações e parte dos homens passa a ter comportamento infantilizado, diante do despreparo em lidar com a perda de privilégios. “É como, de repente, acordar no meio do deserto, com 30 anos, e não saber o que aconteceu”, compara Christian Dunker, professor de Psicologia Clínica da USP. “Muitos desses homens têm uma versão simplificada do que a vida espera deles”, continua ele, em referência à tarefa de sustentar a casa. Se cobrados por mais, há percepção de injustiça. “E esse sentimento pode evoluir para violência, para a demissão, para falta de responsabilidade afetiva.”

Riscos

Essa busca pela virilidade, que remete a vigor físico e força, associada a posicionamentos machistas e misóginos, pode levar a aumento de todas as violências, dizem especialistas. “Feminicidas e homens que praticam a violência doméstica não admitem isso como uma violência”, afirma a historiadora Cristina Scheibe, do Instituto de Estudos de Gênero, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

As narrativas desses grupos, aponta Isabela Kalil, têm potencial de objetificação e desumanização da mulher. “Diminuir o espaço de humanidade do outro e transformá-lo em objeto permite com que violências sejam aceitas.” Para ela, esses grupos expõem “uma cultura de violência contra mulher, que pode aparecer de forma muito evidente, mas às vezes aparece de maneira mais ‘suave’”.

Schutz nega que o red pill – ou ele – pregue ódio à mulher ou seja uma seita. “Pelo contrário. Ela ensina como usar a racionalidade no autoconhecimento para enxergar possíveis incoerências na vida e nas relações entre as pessoas”, disse ao Estadão, por e-mail.

“O que a Red mostra é que homens também podem estabelecer seus limites e preferências do que gostam ou não gostam, coisa que as mulheres já fazem de forma mais natural e mais aceita pela sociedade (vide meu próprio exemplo pessoal no vídeo viralizado em que eu simplesmente recuso uma cerveja oferecida por uma mulher para continuar tomando meu drinque)”, disse Schutz, que produz conteúdo desde 2021.

“Só o fato de o homem mostrar esse comportamento (de limites e preferências pessoais) já é visto como sinal de machismo ou misognia”, afirmou. Segundo ele, 73% dos seguidores da sua página no Instagram são homens, mais da metade na faixa entre 25 e 34 anos.

O red pill atrai profissionais não só da comunicação, mas de várias áreas. Alex Ciqueira, de 43 anos, se apresenta como advogado criminalista especialista na “defesa de homens contra falsas acusações”. “Talvez a mulher sofra mais a violência física pela força do homem, mas quando se trata de violência psicológica, talvez os números se igualem”, afirma.

Dunker, da USP, alerta que os sentimentos expostos pelo red pill revelam dificuldades enfrentadas pelos próprios homens, que se veem com culpa e vergonha. “Sofrem porque se sentem criminosos sociais, porque são obrigados a transformações que têm efeitos depressivos. E a violência, muitas vezes, é efeito colateral disso. É um sofrimento mal reconhecido, negado e invisível socialmente. Evolui, em tese, para formação de sintomas, para violência e disruptividade social.”

Antídotos?

O campo livre da internet favorece a multiplicação desses discursos. “Há sensação de anonimato, de que pode fazer qualquer coisa ali, porque está sozinho no seu quarto. Ao mesmo tempo, há possibilidade de se conectar com pessoas de outros lugares do mundo. E, nas redes sociais, os algoritmos propiciam que as pessoas que pensam dessa forma se encontrem”, diz a historiadora Cristina Scheibe.

Ao mesmo tempo, especialistas destacam que grupos masculinistas tomam carona na ascensão de líderes de direita que vocalizam ideias machistas, como o ex-presidente Jair Bolsonaro e o americano Donald Trump. Com isso, pessoas que simpatizam ou se consideram parte dessas agremiações chegam ao poder e conseguem dar legitimidade à narrativa.

“Quando o governo fica emitindo esse tipo de discurso é como se o Estado assinasse embaixo, dizendo: ‘vocês têm razão’”, afirma João Manuel de Oliveira, professor do Instituto Universitário de Lisboa, que pesquisa gênero, sexualidade e interseccionalidade.

Ainda segundo os estudiosos, é preciso encarar o machismo e a misoginia propagados virtualmente: vigilância e punição se identificadas falas que desrespeitem a lei. “É proibido assédio, violência contra mulher. Isso tem de ser punido”, diz a historiadora Cristina Scheibe, que também defende a importância de educar. “Deveria estar, como conteúdos transversais, em todo ensino fundamental, médio e superior.”

É preciso ainda amadurecer no reconhecimento de múltiplas masculinidades. “A gente só vai avançar quando reconhecer a existência das nossas diferenças: homens trans e transmasculinos, homossexuais, bissexuais, masculinidades amarelas, masculinidades negras”, diz Fabio Mariano da Silva, pesquisador de masculinidades e professor da PUC-SP.

E também é necessário perceber que a violência contra a mulher não é um problema exclusivamente feminino, mas de todos. “Sociedades mais desiguais, do ponto de vista de gênero e de outras questões, são as que têm menos desenvolvimento”, resume João Manuel de Oliveira, do Instituto Universitário de Lisboa.

Red Pill, “machosfera” e “manosfera” são termos que chamaram a atenção nas últimas semanas em referência a grupos que discutem o papel dos homens na sociedade, mas acabam por reproduzir ideias machistas e, por vezes, misóginas (de ódio a mulheres). Neles, um pano de fundo é bastante comum: supervalorização do masculino e reação à conquista de direitos de minorias, como mulheres (principal alvo) e LGBTs. Somado a isso, há discursos conspiratórios de uma suposta misandria (ódio a homens) estatal, que prejudicaria homens brancos heterossexuais.

Na internet, esses grupos têm espaço em fóruns, redes de mensagens, perfis e podcasts, com ampla gama de influenciadores, os “coaches de masculinidade”, com milhares de seguidores. Entre os temas tratados, dicas de sedução, segurança, estilo de vida e profissionais. Grande parte delas inclui conceitos ultrapassados, com representações estereotipadas e sem reconhecer a diversidade das mulheres.

Um tema recorrente são relacionamentos (sempre entre homem e mulher). Em vez da ótica da parceria, muitos concebem a relação de modo em que a mulher raramente aparece como produtora de riqueza material. O homem serviria à mulher com dinheiro, que ganha fora de casa, e ela retribui sexual e afetivamente, e com serviços domésticos.

Isso quando ela, segundo os red pills, não tiver sido “transformada” pelo feminismo. E a representação dessa mulher recorre a narrativas que se replicam nesses perfis: ingrata, que não se sente feliz na relação e pede para se separar ou trai; ou oportunista, que quer só extorquir e manipular o parceiro, para que ele seja servo dela. A sexualidade é outro ponto de tensão, com julgamento sobre o número de parceiros ou a escolha das roupas.

Os conteúdos ganham tração nos podcasts transmitidos ao vivo, que depois viralizam com trechos curtos nas redes. Diferentemente de entrevistas tradicionais, os entrevistadores não confrontam os convidados, que costumam ser influenciadores de maior alcance da comunidade. Os coaches se comunicam de forma clara e direta. Falam de si e suas relações, evitando citar fracassos (se entram em pauta, geralmente são associados a uma mulher).

O influenciador Thiago Schutz e a atriz Lívia La Gatto Foto: Reprodução/Instagram/@manualredpill/@livialagatto

Um deles, Thiago Schutz, de 34 anos, ganhou holofotes este mês. Dono do perfil Manual Red Pill Brasil, ele viralizou com um vídeo em que exemplifica suposta manipulação de uma mulher que oferece cerveja a um homem que bebe Campari – daí o apelido “Coach do Campari” ou “Calvo do Campari”. Nas redes, o trecho do podcast trouxe à tona a discussão sobre masculinidade frágil, além de memes e sátiras.

Entre elas, o vídeo da humorista e atriz Lívia La Gatto, que, sem citar nomes, ironizava falas misóginas (de ódio a mulheres) dos “coaches da masculinidade”. Schutz, então, reagiu com uma fala sobre “processo ou bala”, na intenção de que a postagem fosse apagada. A atriz registrou boletim de ocorrência.

Ele afirmou ter sido mal interpretado e disse que era incapaz de atirar em alguém. Ao Estadão, a defesa de Schutz informou que ele já deu depoimento e segue à disposição das autoridades. A Polícia Civil investiga o caso.

O limite entre repensar o papel do homem e propagar ideias machistas e misóginas preocupa especialistas. Eles temem que isso ajude a aumentar as violências contra mulheres (que cresceram no último ano). E alertam ainda que, como esse modelo de masculinidade propagado é irreal, pode levar ao adoecimento mental dos próprios homens que consomem esses conteúdos - o que potencializa novos ciclos de violência.

Masculinismo: direito dos homens ou só para os homens?

A “manosfera” ou “machosfera” reúne grupos com várias designações (red pill, incel, man going their own way etc.), que defendem diferentes jeitos de ver e de se relacionar com mulheres, mas em comum, segundo seus participantes, lutam pelos direitos dos homens e se contrapõem ao feminismo. Especialistas em gênero e estudiosos do extremismo, porém, indicam que essa é, diversas vezes, uma roupagem para tentar tornar aceitáveis discursos machistas e/ou misóginos.

“No senso comum, até pelo ‘ismo’, pode dar a ideia de que o masculinismo seria simétrico ao feminismo. E não é”, diz a antropóloga Isabela Kalil, coordenadora do Observatório da Extrema Direita. “O masculinismo está muito próximo, por exemplo, do supremacismo branco e tem muito pouco a ver com o movimento feminista. O feminismo não propõe a aniquilação do outro ou supremacia de determinados grupos, das mulheres. O que propõe é a ampliação de direitos e um projeto de emancipação e inclusão”, completa.

A pílula vermelha (red pill) é uma alegoria com base no blockbuster Matrix, dirigido pelas irmãs Wachowski (duas mulheres trans, por mais irônico que pareça). No filme, o protagonista Neo, interpretado pelo ator Keanu Reeves, precisa escolher entre duas pílulas, azul e vermelha. Ele escolhe a segunda e, assim, sai de uma espécie de simulação.

Ao lado de outros que optaram pelo mesmo antídoto, começa a lutar contra um sistema em que máquinas subjugam humanos. Quem opta pela pílula vermelha, então, encararia a realidade – supostamente sob domínio feminino – e deve ser viril para enfrentá-la.

No filme, o protagonista Neo, interpretado pelo ator Keanu Reeves, precisa escolher entre duas pílulas, azul e vermelha. Ele escolhe a segunda e, assim, sai de uma espécie de simulação. Foto: Reprodução/YouTube

Segundo especialistas, essa sensação de desvantagem é uma reação à conquista de direitos civis e sociais por minorias – vitórias dos movimentos feminista, negro e LGBT –, que fazem o domínio social dos homens perder força, e, com mais igualdade, para chegar ao topo, mais habilidades são exigidas deles. Ao mesmo tempo em que é uma resposta às incertezas do mundo moderno, em que a máxima “trabalho, me esforço e sou reconhecido” e as jornadas heroicas de personagens, como o Rambo, por vezes não se concretizam ou fazem pouco sentido.

As transformações criam frustrações e parte dos homens passa a ter comportamento infantilizado, diante do despreparo em lidar com a perda de privilégios. “É como, de repente, acordar no meio do deserto, com 30 anos, e não saber o que aconteceu”, compara Christian Dunker, professor de Psicologia Clínica da USP. “Muitos desses homens têm uma versão simplificada do que a vida espera deles”, continua ele, em referência à tarefa de sustentar a casa. Se cobrados por mais, há percepção de injustiça. “E esse sentimento pode evoluir para violência, para a demissão, para falta de responsabilidade afetiva.”

Riscos

Essa busca pela virilidade, que remete a vigor físico e força, associada a posicionamentos machistas e misóginos, pode levar a aumento de todas as violências, dizem especialistas. “Feminicidas e homens que praticam a violência doméstica não admitem isso como uma violência”, afirma a historiadora Cristina Scheibe, do Instituto de Estudos de Gênero, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

As narrativas desses grupos, aponta Isabela Kalil, têm potencial de objetificação e desumanização da mulher. “Diminuir o espaço de humanidade do outro e transformá-lo em objeto permite com que violências sejam aceitas.” Para ela, esses grupos expõem “uma cultura de violência contra mulher, que pode aparecer de forma muito evidente, mas às vezes aparece de maneira mais ‘suave’”.

Schutz nega que o red pill – ou ele – pregue ódio à mulher ou seja uma seita. “Pelo contrário. Ela ensina como usar a racionalidade no autoconhecimento para enxergar possíveis incoerências na vida e nas relações entre as pessoas”, disse ao Estadão, por e-mail.

“O que a Red mostra é que homens também podem estabelecer seus limites e preferências do que gostam ou não gostam, coisa que as mulheres já fazem de forma mais natural e mais aceita pela sociedade (vide meu próprio exemplo pessoal no vídeo viralizado em que eu simplesmente recuso uma cerveja oferecida por uma mulher para continuar tomando meu drinque)”, disse Schutz, que produz conteúdo desde 2021.

“Só o fato de o homem mostrar esse comportamento (de limites e preferências pessoais) já é visto como sinal de machismo ou misognia”, afirmou. Segundo ele, 73% dos seguidores da sua página no Instagram são homens, mais da metade na faixa entre 25 e 34 anos.

O red pill atrai profissionais não só da comunicação, mas de várias áreas. Alex Ciqueira, de 43 anos, se apresenta como advogado criminalista especialista na “defesa de homens contra falsas acusações”. “Talvez a mulher sofra mais a violência física pela força do homem, mas quando se trata de violência psicológica, talvez os números se igualem”, afirma.

Dunker, da USP, alerta que os sentimentos expostos pelo red pill revelam dificuldades enfrentadas pelos próprios homens, que se veem com culpa e vergonha. “Sofrem porque se sentem criminosos sociais, porque são obrigados a transformações que têm efeitos depressivos. E a violência, muitas vezes, é efeito colateral disso. É um sofrimento mal reconhecido, negado e invisível socialmente. Evolui, em tese, para formação de sintomas, para violência e disruptividade social.”

Antídotos?

O campo livre da internet favorece a multiplicação desses discursos. “Há sensação de anonimato, de que pode fazer qualquer coisa ali, porque está sozinho no seu quarto. Ao mesmo tempo, há possibilidade de se conectar com pessoas de outros lugares do mundo. E, nas redes sociais, os algoritmos propiciam que as pessoas que pensam dessa forma se encontrem”, diz a historiadora Cristina Scheibe.

Ao mesmo tempo, especialistas destacam que grupos masculinistas tomam carona na ascensão de líderes de direita que vocalizam ideias machistas, como o ex-presidente Jair Bolsonaro e o americano Donald Trump. Com isso, pessoas que simpatizam ou se consideram parte dessas agremiações chegam ao poder e conseguem dar legitimidade à narrativa.

“Quando o governo fica emitindo esse tipo de discurso é como se o Estado assinasse embaixo, dizendo: ‘vocês têm razão’”, afirma João Manuel de Oliveira, professor do Instituto Universitário de Lisboa, que pesquisa gênero, sexualidade e interseccionalidade.

Ainda segundo os estudiosos, é preciso encarar o machismo e a misoginia propagados virtualmente: vigilância e punição se identificadas falas que desrespeitem a lei. “É proibido assédio, violência contra mulher. Isso tem de ser punido”, diz a historiadora Cristina Scheibe, que também defende a importância de educar. “Deveria estar, como conteúdos transversais, em todo ensino fundamental, médio e superior.”

É preciso ainda amadurecer no reconhecimento de múltiplas masculinidades. “A gente só vai avançar quando reconhecer a existência das nossas diferenças: homens trans e transmasculinos, homossexuais, bissexuais, masculinidades amarelas, masculinidades negras”, diz Fabio Mariano da Silva, pesquisador de masculinidades e professor da PUC-SP.

E também é necessário perceber que a violência contra a mulher não é um problema exclusivamente feminino, mas de todos. “Sociedades mais desiguais, do ponto de vista de gênero e de outras questões, são as que têm menos desenvolvimento”, resume João Manuel de Oliveira, do Instituto Universitário de Lisboa.

Red Pill, “machosfera” e “manosfera” são termos que chamaram a atenção nas últimas semanas em referência a grupos que discutem o papel dos homens na sociedade, mas acabam por reproduzir ideias machistas e, por vezes, misóginas (de ódio a mulheres). Neles, um pano de fundo é bastante comum: supervalorização do masculino e reação à conquista de direitos de minorias, como mulheres (principal alvo) e LGBTs. Somado a isso, há discursos conspiratórios de uma suposta misandria (ódio a homens) estatal, que prejudicaria homens brancos heterossexuais.

Na internet, esses grupos têm espaço em fóruns, redes de mensagens, perfis e podcasts, com ampla gama de influenciadores, os “coaches de masculinidade”, com milhares de seguidores. Entre os temas tratados, dicas de sedução, segurança, estilo de vida e profissionais. Grande parte delas inclui conceitos ultrapassados, com representações estereotipadas e sem reconhecer a diversidade das mulheres.

Um tema recorrente são relacionamentos (sempre entre homem e mulher). Em vez da ótica da parceria, muitos concebem a relação de modo em que a mulher raramente aparece como produtora de riqueza material. O homem serviria à mulher com dinheiro, que ganha fora de casa, e ela retribui sexual e afetivamente, e com serviços domésticos.

Isso quando ela, segundo os red pills, não tiver sido “transformada” pelo feminismo. E a representação dessa mulher recorre a narrativas que se replicam nesses perfis: ingrata, que não se sente feliz na relação e pede para se separar ou trai; ou oportunista, que quer só extorquir e manipular o parceiro, para que ele seja servo dela. A sexualidade é outro ponto de tensão, com julgamento sobre o número de parceiros ou a escolha das roupas.

Os conteúdos ganham tração nos podcasts transmitidos ao vivo, que depois viralizam com trechos curtos nas redes. Diferentemente de entrevistas tradicionais, os entrevistadores não confrontam os convidados, que costumam ser influenciadores de maior alcance da comunidade. Os coaches se comunicam de forma clara e direta. Falam de si e suas relações, evitando citar fracassos (se entram em pauta, geralmente são associados a uma mulher).

O influenciador Thiago Schutz e a atriz Lívia La Gatto Foto: Reprodução/Instagram/@manualredpill/@livialagatto

Um deles, Thiago Schutz, de 34 anos, ganhou holofotes este mês. Dono do perfil Manual Red Pill Brasil, ele viralizou com um vídeo em que exemplifica suposta manipulação de uma mulher que oferece cerveja a um homem que bebe Campari – daí o apelido “Coach do Campari” ou “Calvo do Campari”. Nas redes, o trecho do podcast trouxe à tona a discussão sobre masculinidade frágil, além de memes e sátiras.

Entre elas, o vídeo da humorista e atriz Lívia La Gatto, que, sem citar nomes, ironizava falas misóginas (de ódio a mulheres) dos “coaches da masculinidade”. Schutz, então, reagiu com uma fala sobre “processo ou bala”, na intenção de que a postagem fosse apagada. A atriz registrou boletim de ocorrência.

Ele afirmou ter sido mal interpretado e disse que era incapaz de atirar em alguém. Ao Estadão, a defesa de Schutz informou que ele já deu depoimento e segue à disposição das autoridades. A Polícia Civil investiga o caso.

O limite entre repensar o papel do homem e propagar ideias machistas e misóginas preocupa especialistas. Eles temem que isso ajude a aumentar as violências contra mulheres (que cresceram no último ano). E alertam ainda que, como esse modelo de masculinidade propagado é irreal, pode levar ao adoecimento mental dos próprios homens que consomem esses conteúdos - o que potencializa novos ciclos de violência.

Masculinismo: direito dos homens ou só para os homens?

A “manosfera” ou “machosfera” reúne grupos com várias designações (red pill, incel, man going their own way etc.), que defendem diferentes jeitos de ver e de se relacionar com mulheres, mas em comum, segundo seus participantes, lutam pelos direitos dos homens e se contrapõem ao feminismo. Especialistas em gênero e estudiosos do extremismo, porém, indicam que essa é, diversas vezes, uma roupagem para tentar tornar aceitáveis discursos machistas e/ou misóginos.

“No senso comum, até pelo ‘ismo’, pode dar a ideia de que o masculinismo seria simétrico ao feminismo. E não é”, diz a antropóloga Isabela Kalil, coordenadora do Observatório da Extrema Direita. “O masculinismo está muito próximo, por exemplo, do supremacismo branco e tem muito pouco a ver com o movimento feminista. O feminismo não propõe a aniquilação do outro ou supremacia de determinados grupos, das mulheres. O que propõe é a ampliação de direitos e um projeto de emancipação e inclusão”, completa.

A pílula vermelha (red pill) é uma alegoria com base no blockbuster Matrix, dirigido pelas irmãs Wachowski (duas mulheres trans, por mais irônico que pareça). No filme, o protagonista Neo, interpretado pelo ator Keanu Reeves, precisa escolher entre duas pílulas, azul e vermelha. Ele escolhe a segunda e, assim, sai de uma espécie de simulação.

Ao lado de outros que optaram pelo mesmo antídoto, começa a lutar contra um sistema em que máquinas subjugam humanos. Quem opta pela pílula vermelha, então, encararia a realidade – supostamente sob domínio feminino – e deve ser viril para enfrentá-la.

No filme, o protagonista Neo, interpretado pelo ator Keanu Reeves, precisa escolher entre duas pílulas, azul e vermelha. Ele escolhe a segunda e, assim, sai de uma espécie de simulação. Foto: Reprodução/YouTube

Segundo especialistas, essa sensação de desvantagem é uma reação à conquista de direitos civis e sociais por minorias – vitórias dos movimentos feminista, negro e LGBT –, que fazem o domínio social dos homens perder força, e, com mais igualdade, para chegar ao topo, mais habilidades são exigidas deles. Ao mesmo tempo em que é uma resposta às incertezas do mundo moderno, em que a máxima “trabalho, me esforço e sou reconhecido” e as jornadas heroicas de personagens, como o Rambo, por vezes não se concretizam ou fazem pouco sentido.

As transformações criam frustrações e parte dos homens passa a ter comportamento infantilizado, diante do despreparo em lidar com a perda de privilégios. “É como, de repente, acordar no meio do deserto, com 30 anos, e não saber o que aconteceu”, compara Christian Dunker, professor de Psicologia Clínica da USP. “Muitos desses homens têm uma versão simplificada do que a vida espera deles”, continua ele, em referência à tarefa de sustentar a casa. Se cobrados por mais, há percepção de injustiça. “E esse sentimento pode evoluir para violência, para a demissão, para falta de responsabilidade afetiva.”

Riscos

Essa busca pela virilidade, que remete a vigor físico e força, associada a posicionamentos machistas e misóginos, pode levar a aumento de todas as violências, dizem especialistas. “Feminicidas e homens que praticam a violência doméstica não admitem isso como uma violência”, afirma a historiadora Cristina Scheibe, do Instituto de Estudos de Gênero, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

As narrativas desses grupos, aponta Isabela Kalil, têm potencial de objetificação e desumanização da mulher. “Diminuir o espaço de humanidade do outro e transformá-lo em objeto permite com que violências sejam aceitas.” Para ela, esses grupos expõem “uma cultura de violência contra mulher, que pode aparecer de forma muito evidente, mas às vezes aparece de maneira mais ‘suave’”.

Schutz nega que o red pill – ou ele – pregue ódio à mulher ou seja uma seita. “Pelo contrário. Ela ensina como usar a racionalidade no autoconhecimento para enxergar possíveis incoerências na vida e nas relações entre as pessoas”, disse ao Estadão, por e-mail.

“O que a Red mostra é que homens também podem estabelecer seus limites e preferências do que gostam ou não gostam, coisa que as mulheres já fazem de forma mais natural e mais aceita pela sociedade (vide meu próprio exemplo pessoal no vídeo viralizado em que eu simplesmente recuso uma cerveja oferecida por uma mulher para continuar tomando meu drinque)”, disse Schutz, que produz conteúdo desde 2021.

“Só o fato de o homem mostrar esse comportamento (de limites e preferências pessoais) já é visto como sinal de machismo ou misognia”, afirmou. Segundo ele, 73% dos seguidores da sua página no Instagram são homens, mais da metade na faixa entre 25 e 34 anos.

O red pill atrai profissionais não só da comunicação, mas de várias áreas. Alex Ciqueira, de 43 anos, se apresenta como advogado criminalista especialista na “defesa de homens contra falsas acusações”. “Talvez a mulher sofra mais a violência física pela força do homem, mas quando se trata de violência psicológica, talvez os números se igualem”, afirma.

Dunker, da USP, alerta que os sentimentos expostos pelo red pill revelam dificuldades enfrentadas pelos próprios homens, que se veem com culpa e vergonha. “Sofrem porque se sentem criminosos sociais, porque são obrigados a transformações que têm efeitos depressivos. E a violência, muitas vezes, é efeito colateral disso. É um sofrimento mal reconhecido, negado e invisível socialmente. Evolui, em tese, para formação de sintomas, para violência e disruptividade social.”

Antídotos?

O campo livre da internet favorece a multiplicação desses discursos. “Há sensação de anonimato, de que pode fazer qualquer coisa ali, porque está sozinho no seu quarto. Ao mesmo tempo, há possibilidade de se conectar com pessoas de outros lugares do mundo. E, nas redes sociais, os algoritmos propiciam que as pessoas que pensam dessa forma se encontrem”, diz a historiadora Cristina Scheibe.

Ao mesmo tempo, especialistas destacam que grupos masculinistas tomam carona na ascensão de líderes de direita que vocalizam ideias machistas, como o ex-presidente Jair Bolsonaro e o americano Donald Trump. Com isso, pessoas que simpatizam ou se consideram parte dessas agremiações chegam ao poder e conseguem dar legitimidade à narrativa.

“Quando o governo fica emitindo esse tipo de discurso é como se o Estado assinasse embaixo, dizendo: ‘vocês têm razão’”, afirma João Manuel de Oliveira, professor do Instituto Universitário de Lisboa, que pesquisa gênero, sexualidade e interseccionalidade.

Ainda segundo os estudiosos, é preciso encarar o machismo e a misoginia propagados virtualmente: vigilância e punição se identificadas falas que desrespeitem a lei. “É proibido assédio, violência contra mulher. Isso tem de ser punido”, diz a historiadora Cristina Scheibe, que também defende a importância de educar. “Deveria estar, como conteúdos transversais, em todo ensino fundamental, médio e superior.”

É preciso ainda amadurecer no reconhecimento de múltiplas masculinidades. “A gente só vai avançar quando reconhecer a existência das nossas diferenças: homens trans e transmasculinos, homossexuais, bissexuais, masculinidades amarelas, masculinidades negras”, diz Fabio Mariano da Silva, pesquisador de masculinidades e professor da PUC-SP.

E também é necessário perceber que a violência contra a mulher não é um problema exclusivamente feminino, mas de todos. “Sociedades mais desiguais, do ponto de vista de gênero e de outras questões, são as que têm menos desenvolvimento”, resume João Manuel de Oliveira, do Instituto Universitário de Lisboa.

Red Pill, “machosfera” e “manosfera” são termos que chamaram a atenção nas últimas semanas em referência a grupos que discutem o papel dos homens na sociedade, mas acabam por reproduzir ideias machistas e, por vezes, misóginas (de ódio a mulheres). Neles, um pano de fundo é bastante comum: supervalorização do masculino e reação à conquista de direitos de minorias, como mulheres (principal alvo) e LGBTs. Somado a isso, há discursos conspiratórios de uma suposta misandria (ódio a homens) estatal, que prejudicaria homens brancos heterossexuais.

Na internet, esses grupos têm espaço em fóruns, redes de mensagens, perfis e podcasts, com ampla gama de influenciadores, os “coaches de masculinidade”, com milhares de seguidores. Entre os temas tratados, dicas de sedução, segurança, estilo de vida e profissionais. Grande parte delas inclui conceitos ultrapassados, com representações estereotipadas e sem reconhecer a diversidade das mulheres.

Um tema recorrente são relacionamentos (sempre entre homem e mulher). Em vez da ótica da parceria, muitos concebem a relação de modo em que a mulher raramente aparece como produtora de riqueza material. O homem serviria à mulher com dinheiro, que ganha fora de casa, e ela retribui sexual e afetivamente, e com serviços domésticos.

Isso quando ela, segundo os red pills, não tiver sido “transformada” pelo feminismo. E a representação dessa mulher recorre a narrativas que se replicam nesses perfis: ingrata, que não se sente feliz na relação e pede para se separar ou trai; ou oportunista, que quer só extorquir e manipular o parceiro, para que ele seja servo dela. A sexualidade é outro ponto de tensão, com julgamento sobre o número de parceiros ou a escolha das roupas.

Os conteúdos ganham tração nos podcasts transmitidos ao vivo, que depois viralizam com trechos curtos nas redes. Diferentemente de entrevistas tradicionais, os entrevistadores não confrontam os convidados, que costumam ser influenciadores de maior alcance da comunidade. Os coaches se comunicam de forma clara e direta. Falam de si e suas relações, evitando citar fracassos (se entram em pauta, geralmente são associados a uma mulher).

O influenciador Thiago Schutz e a atriz Lívia La Gatto Foto: Reprodução/Instagram/@manualredpill/@livialagatto

Um deles, Thiago Schutz, de 34 anos, ganhou holofotes este mês. Dono do perfil Manual Red Pill Brasil, ele viralizou com um vídeo em que exemplifica suposta manipulação de uma mulher que oferece cerveja a um homem que bebe Campari – daí o apelido “Coach do Campari” ou “Calvo do Campari”. Nas redes, o trecho do podcast trouxe à tona a discussão sobre masculinidade frágil, além de memes e sátiras.

Entre elas, o vídeo da humorista e atriz Lívia La Gatto, que, sem citar nomes, ironizava falas misóginas (de ódio a mulheres) dos “coaches da masculinidade”. Schutz, então, reagiu com uma fala sobre “processo ou bala”, na intenção de que a postagem fosse apagada. A atriz registrou boletim de ocorrência.

Ele afirmou ter sido mal interpretado e disse que era incapaz de atirar em alguém. Ao Estadão, a defesa de Schutz informou que ele já deu depoimento e segue à disposição das autoridades. A Polícia Civil investiga o caso.

O limite entre repensar o papel do homem e propagar ideias machistas e misóginas preocupa especialistas. Eles temem que isso ajude a aumentar as violências contra mulheres (que cresceram no último ano). E alertam ainda que, como esse modelo de masculinidade propagado é irreal, pode levar ao adoecimento mental dos próprios homens que consomem esses conteúdos - o que potencializa novos ciclos de violência.

Masculinismo: direito dos homens ou só para os homens?

A “manosfera” ou “machosfera” reúne grupos com várias designações (red pill, incel, man going their own way etc.), que defendem diferentes jeitos de ver e de se relacionar com mulheres, mas em comum, segundo seus participantes, lutam pelos direitos dos homens e se contrapõem ao feminismo. Especialistas em gênero e estudiosos do extremismo, porém, indicam que essa é, diversas vezes, uma roupagem para tentar tornar aceitáveis discursos machistas e/ou misóginos.

“No senso comum, até pelo ‘ismo’, pode dar a ideia de que o masculinismo seria simétrico ao feminismo. E não é”, diz a antropóloga Isabela Kalil, coordenadora do Observatório da Extrema Direita. “O masculinismo está muito próximo, por exemplo, do supremacismo branco e tem muito pouco a ver com o movimento feminista. O feminismo não propõe a aniquilação do outro ou supremacia de determinados grupos, das mulheres. O que propõe é a ampliação de direitos e um projeto de emancipação e inclusão”, completa.

A pílula vermelha (red pill) é uma alegoria com base no blockbuster Matrix, dirigido pelas irmãs Wachowski (duas mulheres trans, por mais irônico que pareça). No filme, o protagonista Neo, interpretado pelo ator Keanu Reeves, precisa escolher entre duas pílulas, azul e vermelha. Ele escolhe a segunda e, assim, sai de uma espécie de simulação.

Ao lado de outros que optaram pelo mesmo antídoto, começa a lutar contra um sistema em que máquinas subjugam humanos. Quem opta pela pílula vermelha, então, encararia a realidade – supostamente sob domínio feminino – e deve ser viril para enfrentá-la.

No filme, o protagonista Neo, interpretado pelo ator Keanu Reeves, precisa escolher entre duas pílulas, azul e vermelha. Ele escolhe a segunda e, assim, sai de uma espécie de simulação. Foto: Reprodução/YouTube

Segundo especialistas, essa sensação de desvantagem é uma reação à conquista de direitos civis e sociais por minorias – vitórias dos movimentos feminista, negro e LGBT –, que fazem o domínio social dos homens perder força, e, com mais igualdade, para chegar ao topo, mais habilidades são exigidas deles. Ao mesmo tempo em que é uma resposta às incertezas do mundo moderno, em que a máxima “trabalho, me esforço e sou reconhecido” e as jornadas heroicas de personagens, como o Rambo, por vezes não se concretizam ou fazem pouco sentido.

As transformações criam frustrações e parte dos homens passa a ter comportamento infantilizado, diante do despreparo em lidar com a perda de privilégios. “É como, de repente, acordar no meio do deserto, com 30 anos, e não saber o que aconteceu”, compara Christian Dunker, professor de Psicologia Clínica da USP. “Muitos desses homens têm uma versão simplificada do que a vida espera deles”, continua ele, em referência à tarefa de sustentar a casa. Se cobrados por mais, há percepção de injustiça. “E esse sentimento pode evoluir para violência, para a demissão, para falta de responsabilidade afetiva.”

Riscos

Essa busca pela virilidade, que remete a vigor físico e força, associada a posicionamentos machistas e misóginos, pode levar a aumento de todas as violências, dizem especialistas. “Feminicidas e homens que praticam a violência doméstica não admitem isso como uma violência”, afirma a historiadora Cristina Scheibe, do Instituto de Estudos de Gênero, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

As narrativas desses grupos, aponta Isabela Kalil, têm potencial de objetificação e desumanização da mulher. “Diminuir o espaço de humanidade do outro e transformá-lo em objeto permite com que violências sejam aceitas.” Para ela, esses grupos expõem “uma cultura de violência contra mulher, que pode aparecer de forma muito evidente, mas às vezes aparece de maneira mais ‘suave’”.

Schutz nega que o red pill – ou ele – pregue ódio à mulher ou seja uma seita. “Pelo contrário. Ela ensina como usar a racionalidade no autoconhecimento para enxergar possíveis incoerências na vida e nas relações entre as pessoas”, disse ao Estadão, por e-mail.

“O que a Red mostra é que homens também podem estabelecer seus limites e preferências do que gostam ou não gostam, coisa que as mulheres já fazem de forma mais natural e mais aceita pela sociedade (vide meu próprio exemplo pessoal no vídeo viralizado em que eu simplesmente recuso uma cerveja oferecida por uma mulher para continuar tomando meu drinque)”, disse Schutz, que produz conteúdo desde 2021.

“Só o fato de o homem mostrar esse comportamento (de limites e preferências pessoais) já é visto como sinal de machismo ou misognia”, afirmou. Segundo ele, 73% dos seguidores da sua página no Instagram são homens, mais da metade na faixa entre 25 e 34 anos.

O red pill atrai profissionais não só da comunicação, mas de várias áreas. Alex Ciqueira, de 43 anos, se apresenta como advogado criminalista especialista na “defesa de homens contra falsas acusações”. “Talvez a mulher sofra mais a violência física pela força do homem, mas quando se trata de violência psicológica, talvez os números se igualem”, afirma.

Dunker, da USP, alerta que os sentimentos expostos pelo red pill revelam dificuldades enfrentadas pelos próprios homens, que se veem com culpa e vergonha. “Sofrem porque se sentem criminosos sociais, porque são obrigados a transformações que têm efeitos depressivos. E a violência, muitas vezes, é efeito colateral disso. É um sofrimento mal reconhecido, negado e invisível socialmente. Evolui, em tese, para formação de sintomas, para violência e disruptividade social.”

Antídotos?

O campo livre da internet favorece a multiplicação desses discursos. “Há sensação de anonimato, de que pode fazer qualquer coisa ali, porque está sozinho no seu quarto. Ao mesmo tempo, há possibilidade de se conectar com pessoas de outros lugares do mundo. E, nas redes sociais, os algoritmos propiciam que as pessoas que pensam dessa forma se encontrem”, diz a historiadora Cristina Scheibe.

Ao mesmo tempo, especialistas destacam que grupos masculinistas tomam carona na ascensão de líderes de direita que vocalizam ideias machistas, como o ex-presidente Jair Bolsonaro e o americano Donald Trump. Com isso, pessoas que simpatizam ou se consideram parte dessas agremiações chegam ao poder e conseguem dar legitimidade à narrativa.

“Quando o governo fica emitindo esse tipo de discurso é como se o Estado assinasse embaixo, dizendo: ‘vocês têm razão’”, afirma João Manuel de Oliveira, professor do Instituto Universitário de Lisboa, que pesquisa gênero, sexualidade e interseccionalidade.

Ainda segundo os estudiosos, é preciso encarar o machismo e a misoginia propagados virtualmente: vigilância e punição se identificadas falas que desrespeitem a lei. “É proibido assédio, violência contra mulher. Isso tem de ser punido”, diz a historiadora Cristina Scheibe, que também defende a importância de educar. “Deveria estar, como conteúdos transversais, em todo ensino fundamental, médio e superior.”

É preciso ainda amadurecer no reconhecimento de múltiplas masculinidades. “A gente só vai avançar quando reconhecer a existência das nossas diferenças: homens trans e transmasculinos, homossexuais, bissexuais, masculinidades amarelas, masculinidades negras”, diz Fabio Mariano da Silva, pesquisador de masculinidades e professor da PUC-SP.

E também é necessário perceber que a violência contra a mulher não é um problema exclusivamente feminino, mas de todos. “Sociedades mais desiguais, do ponto de vista de gênero e de outras questões, são as que têm menos desenvolvimento”, resume João Manuel de Oliveira, do Instituto Universitário de Lisboa.

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