Marika Gidali passou do chá-chá-chá para o balé. Isso ocorreu efetivamente em 1953, quando se tornou bailarina profissional, mas ela não nega o passado. De acordo com Marika, o grupo de chá-chá-chá com o qual se apresentava foi a sua verdadeira faculdade - o que o público pôde conferir a partir de 1971 quando, ao lado do companheiro Décio Otero, fundou o Ballet Stagium. Para abrir as comemorações dos 30 anos da companhia, um verdadeiro símbolo de resistência da dança brasileira, o grupo fará temporada no Teatro São Pedro, de quarta-feira a domingo, com as coreografias Na Neblina e Old Melodies. "Essas peças foram escolhidas para mostrar um pouco da variedade presente em nossos trabalhos", explica Marika. Na Neblina é uma peça curta, com 20 minutos de duração, criada a partir da música homônima do compositor checo Léos Janácek. "Tinha um desejo antigo de fazer um balé para essa composição, passava horas ouvindo e criei uma peça contemporânea", conta Otero. Dessa quase obsessão, surgiu uma peça que explora apenas gestos embalados pelas notas musicais, sem narrativa. O figurino cinza e o cenário de fundo negro reforçam o clima sóbrio da peça. "Os bailarinos têm todo o palco para executar seus movimentos livremente", diz Otero. Seguindo o caminho inverso, Old Melodies é uma coreografia leve, narrativa e multicolorida. É um trabalho bem-humorado, que faz uma homenagem aos cantores da época do rádio. "Old Melodies possui um lado teatral forte, faz uma retomada, uma síntese dos anos 30", comenta Marika; e Otero completa: "É o resultado da nossa convivência com os cantores da Rádio Nacional, como Lamartine Babo, entre outros nomes que hoje estão esquecidos, e também a nossa pesquisa em cima do Teatro de Revista, que criticava, via sátira, os fatos sociais e políticos da época." O figurino foi feito pelos próprios bailarinos, a partir de material reciclado, como lata de refrigerante, cortiça e caixas de sabão em pó. A idéia é fazer uma referência ao cotidiano, uma das marcas da companhia. "Posso dizer que esse é um balé crítico e político, bem à moda do Stagium", diz Otero. A companhia sempre fez da dança um meio de refletir sobre a sociedade. Nesses 30 anos de existência, tratou de diversos temas, como os direitos humanos, a censura, o preconceito, a marginalização, as questões ecológicas e muito mais nas criações de Otero. "O grupo, além de assumir um compromisso político, também fez apresentações em locais diversos, como a Barca da Cultura, que nos anos 70 desceu o Rio São Francisco, percorrendo as cidades que o margeiam e levando à população local as coreografias e aulas de dança", lembra Marika. Talvez essa seja a principal marca do Stagium. Hoje, essa caravana frutificou em uma série de projetos que caminham paralelamente à companhia. "Temos o Ballet, que este ano já está com a agenda praticamente fechada: em junho viajaremos para o Chile, depois faremos os Estados do Norte e Nordeste, Goiás e Brasília. Isso porque contamos com o apoio da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Não posso deixar de mencionar que faremos uma temporada pelo Sesc em setembro, em São Paulo", informa a diretora. Social - Mas as atividades não param por aí. "Numa parceria com a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e com a BR-Distribuidora, estamos colocando em ação o Projeto Escola, o Joaninha e a Febem." O Projeto Escola é realizado desde 1990 e tem como proposta levar alunos da rede pública de ensino a teatros. No início, o Stagium fazia apresentações e levava a dança para dentro das escolas, um fato que só era viável por conta de patrocínio. Com o fim da verba, o grupo passou levar as crianças aos teatros. Atualmente, com novo patrocinador e apoio da Secretaria de Cultura, é possível retomar as atividades e dar cursos para os professores do ensino fundamental. "Procuramos desenvolver a criatividade desses professores e recuperar a auto-estima deles. Certa vez, em um dos cursos, trouxemos essas pessoas para a sede da companhia, colocamo-nas em um ônibus. Elas então saíram por São Paulo, sem saber ao certo para quê. O grupo percorreu a cidade com o intuito de conhecê-la e buscar sua história. Chegaram a fazer apresentações no Pátio de Colégio e, quando voltaram, escreveram o que sentiram. Foram depoimentos impressionantes e eles puderam vivenciar o que é uma aula criativa", revela Marika. Ainda ligado à escola, há o Projeto Joaninha, que reúne meninos e meninas da periferia de São Paulo. "Reunimos essas crianças todos os sábados para dar aulas de capoeira, balé e dança de rua. Com o apoio da BR, essa meninada recebe vale-transporte, lanches e, em outubro, apresentará a coreografia Baile na Ilha de Santa Cruz", antecipa Marika. A mesma turminha já participou, no ano passado, do espetáculo À Margem dos Trilhos. Rebelião - Há também a Febem, um dos projetos mais recentes e, sem dúvida, um dos mais impactantes para o Stagium. "Em 1999, após aquela terrível rebelião na unidade Imigrantes, o secretário de Cultura, Marcos Mendonça, escalou-nos para desenvolver atividades com esses meninos. Procuramos professores que utilizam a mesma linguagem, exploramos a dança de rua e a cultura do hip-hop", descreve a diretora. Fora as aulas, a companhia apresenta um circuito de balé nas unidades, há apresentações dos meninos e aulas-show, nas quais a moçada mostra, em outras unidades, aquilo que aprendeu, além de debater com os demais. Passar pela Febem é um trabalho instigante. "É um verdadeiro desafio, porque lidamos com meninos que não conhecem o próprio corpo, que não têm noção de limites ou disciplina. Quando conseguimos colocá-los em um palco, juntos, e eles conseguem olhar para eles mesmos e respeitar as delimitações da dança, é uma vitória." Esse esforço rendeu o Prêmio Sócio-Educando Ilanud, da Unicef e BNDES. Em maio, Marika e Otero viajarão para o Canadá, para trocar experiências com grupos que desenvolvem trabalhos semelhantes. Nesses 30 anos de andanças do Stagium, a atuação social é constante e fica difícil separar os projetos do grupo. "Todas as coisas que aprendemos com essas pessoas tão especiais estão presentes nas peças e no dia-a-dia da companhia", conta Marika. Essas histórias estão sendo registradas em um livro sobre Marika, que será lançado em outubro, escrito por Décio Otero. Nele, o escritor conta a vida da artista e companheira, que se mistura com a própria história da dança no Brasil. Ballet Stagium. De quarta a sábado, às 21 horas; domingo, às 18 horas. R$ 10,00. Teatro São Pedro. Rua Barra Funda, 171, tel. 3667-0499. Até 22/4